AGRADECIMENTO
Agradeço a todos aqueles que diretamente ou indiretamente participaram para a elaboração deste pequeno livro.
Não poderia esquecer da valiosa colaboração dos meus amigos, os quais são muitos que colaboraram com idéias e sugestões ao longo desta narrativa.
Agradeço especialmente a Deus por ter me inspirado para que esta obra fosse escrita.
ÍNDICE
AGRADECIMENTO 01
ÍNDICE 02
INTRODUÇÃO 05
AO AMIGO LEITOR 06
DEDICATÓRIA 07
PRÓLOGO 08
CAPÍTULO I 19
FUGINDO DE SI MESMO 19
CAPÍTULO II 21
A FESTA E AS CONSEQÜÊNCIAS 21
CAPÍTULO III 26
FIM TRÁGICO 26
CAPÍTULO IV 30
O CONTRASTE 30
CAPÍTULO V 32
UM REFRESCO MERECIDO 32
CAPÍTULO VI 37
UMA NOITE POR DEMAIS ATRAENTE 37
CAPÍTULO VII 39
O ACASO 39
CAPÍTULO VIII 41
MIRAGEM 41
CAPÍTULO IX 44
UMA TARDE INESPERADA 44
CAPÍTULO X 48
AVENTURAS DE JOSIAS 48
CAPÍTULO XI 52
A PRINCESA ABATIDA 52
CAPÍTULO XII 54
O GRANDE PAQUIDERME 54
CAPÍTULO XIII 62
O REENCONTRO 62
CAPÍTULO XIV 71
COMO CONHECI FLÁVIA 71
CAPÍTULO XV 75
REFLEXÕES 75
CAPÍTULO XVI 78
OS AMIGOS VOLTAM 78
CAPÍTULO XVII 79
A INFÂNCIA DE LEONARDO 79
CAPÍTULO XVIII 83
LEONARDO EM BRASÍLIA 83
CAPÍTULO XIX 85
O CURSO DE GUERRA ELETRÔNICA 85
CAPÍTULO XX 91
A VIDA NA NOVA CIDADE 91
CAPÍTULO XXI 94
UMA VOLTA AO PASSADO 94
CAPÍTULO XXII 96
O INÍCIO DO SEMESTRE 96
CAPÍTULO XXIII 99
A APROXIMAÇÃO 99
CAPÍTULO XXIV 102
UMA NOITE ALEGRE PARA AMBOS 102
CAPÍTULO XXV 104
O QUE UMA FOTO PODE FAZER ÀS PESSOAS INSENSÍVEIS 104
CAPÍTULO XXVI 110
A GRANDE REALIDADE ... O DESPERTAR 110
CAPÍTULO XXVII 114
UMA BREVE RETROSPECTIVA NO TEMPO 114
CAPÍTULO XXVIII 129
A FUGA 129
CAPÍTULO XXIX 138
UMA NOITE ESPECIAL DE AMOR 138
CAPÍTULO XXX 146
OS DIAS FELIZES EM LISBOA 116
CAPÍTULO XXXI 152
UM ANIVERSÁRIO ESPECIAL 152
CAPÍTULO XXXII 159
A PRISÃO E MORTE 159
CAPÍTULO XXXIII 163
O RIMEIRO REENCONTRO 163
CAPÍTULO XXXIV 173
OS DIAS DIFÍCEIS 173
CAPÍTULO XXXV 175
UMA OPÇÃO ACEITA 175
CAPÍTULO XXXVI 183
O ÚLTIMO COMBATE 183
CAPÍTULO XXXVII 186
A ESPANHA DE OUTRORA 186
CAPÍTULO XXXVIII 190
REFLEXÕES I 190
CAPÍTULO XXXIX 193
A INFÂNCIA DE CAROL 193
CAPÍTULO XL 218
FRAGMENTOS FINAIS 218
CAPÍTULO XLI 224
O DESENCANTO 224
CAPÍTULO XLII 227
O CONFLITO DE CAROLINNE 227
CAPÍTULO XLIII 234
NOVA DESILUSÃO 234
CAPÍTULO XLIV 246
OS ENCANTOS DE CAROL 246
CAPÍTULO XLV 248
O ÚLTIMO ENCONTRO 248
BIBLIOGRAFIA 250
DADOS DO AUTOR 251
Release da obra Fragmentos Existenciais
Toda obra, independente das multiplicações críticas que possa vir a ter, contém em si o germe de uma leiturização e uma nova multividência. Nesse sentido, é uma conscientização filosófica. Especula sobre o êxodo nordestino, dando-lhe, pela primeira vez, a voz escrita. Seu texto pode ser um marco, se entendido como expressão real da linguagem do seu povo. Você, sua família e seus amigos, inseridos nesse macrocosmo, são as primeiras personagens que, com suas próprias vozes, relatam essa saga.
Inovadora, também, é a releitura que faz do Nordeste. É "uma viagem ao contrário", uma vez que é a fala de um nordestino no Rio de Janeiro e em Três Corações. É o homem que, para conhecer seu lugar, deve ter estado em outro. Por outro lado, há a dicotomia entre o "eu" desse homem e sua representação. À medida que se escreve, inscreve-se na humanidade como na equação lacanina “l’être = lettre, a letra igual ao ser. É você, conhecendo-se na medida exata de seu estranhamento, na sua saída para o mundo”.
O livro está elaborado em quatro vertentes do tempo com sua pilastra inicial descrevendo fatos reais e histórico do autor em seu passado de criança, seus momentos no Rio de Janeiro e sua ida a Brasília, há um salto no tempo e os personagens se encontram em uma Espanha de outrora com rápidas passagens por Portugal e Itália.
Há outro hiato temporal e novamente eles se reencontram na guerra civil espanhola com desfecho inusitado na II guerra mundial. Outro fabuloso salto e há um desfecho emocionante na atualidade.
Assim está alicerçado os Fragmentos Existenciais, o qual é sem sombra de dúvida uma bela obra.
Quiçá um novo tempo esteja surgindo e uma nova leitura da saga esteja sendo decodificada!
Brasília, Dezembro de 2006.
Márcia Nery Pessoa –Professora de Literatura
AO AMIGO (A) LEITOR (A)
A Sociedade julga quase sempre, o homem, em geral pelos seus atos, então lhe imputa um determinado conceito e caráter. Assim sendo, meu amigo, após ler este livro aplique-lhe somente os valores que você possa julgar bons para si e os demais, deixe-os para que o vento os leve, pois sei bem que alguém poderá julgá-los bom para ele.
O Autor.
DEDICATÓRIA
Dedico especificamente este livro a minha mãe e ao meu saudoso e dileto filho Henrique Ramsés Ferreira de Oliveira, cuja saudade ainda sangra em meu peito.
Atenciosamente
O Autor
PRÓLOGO
Desde que me entendi por gente é que comecei a ler, gostava muito de ler e, conseqüentemente, passei a ficar mais culto em relação aos meus entes queridos.
Uma vez, lendo um livro sobre a história de uma família que fora pioneira nos Estados Unidos, identifiquei-me muito com um dos personagens e comecei a imaginar como seria um livro escrito por mim, já que a idéia martelava-me sempre que eu estava lendo ou às vezes sozinho absortos em meus pensamentos de menino.
Comecei este livro hoje, aos 49 anos, num domingo e lhe direi que nele vocês encontrarão: realidade, trivialidades, infantilidades, poesias, romance, ficção,... Etc. Se alguém por acaso ao lê-lo não gostar, sinto muito. Sou apenas um mero principiante e não um escritor.
Minha vida de criança foi um pouco tumultuada por chatos acontecimentos que não convém aqui descrever. Mas ainda hoje me lembro com carinho de meu avô, o qual chamávamos de papai velho, já que ele era um velho, muito idoso; por volta dos seus 88 anos, fazia todos os trabalhos caseiros com a maior simplicidade. Nós morávamos na Vila dos Marítimos, também chamada de Vila dos Expedicionários, mas quase sempre estávamos na casa de nosso avô, apesar da distância ser longa. Minha mãe teve oito filhos, portanto tive sete irmãos, sendo seis mulheres e um homem, os quais apresentarei no decorrer desta narração.
Quando criança era muito "levado", às vezes, até passava dos limites e quando extrapolava, se estivesse em casa dos meus avós eu levava uma surra para ficar calmo. Lembro-me que certa vez em que estava num daqueles dias com toda a força da infância e meu avô estava deitado em sua rede predileta no quintal, querendo começar a sua sesta das 3 horas. Corria eu para um lado e para outro, fazendo a maior algazarra e meu avô sempre dizendo:
- Menino, te aquieta; fica quieto menino!
E eu não dava a mínima para o que ele estava falando, já que ele jamais tinha me batido. Continuei com minhas travessuras.
Até que no clímax de minhas brincadeiras senti um chicote em minhas costas, levei cerca de dez chicotadas que ardiam mais que fogo. Meu avô, a cada chicotada, repreendia-me com frases prontas. Imaginem, uma simples criança de 7 anos e como também era tinhoso... Conseqüentemente não voltei mais à casa de meu avô e ele não podendo andar distâncias longas, pedia que minha irmã me levasse e ela atendia-lhe. Entretanto quando eu lá chegava, circundava a casa e ganhava a rua, só vindo à hora em que eu sabia que ele já estava a dormir, então vinha mais uma surra, só que não era de chicote e eu ficava contente por tê-lo deixado irritado.
Na escola, eu era um menino levado, mas aprendia tudo com relativa facilidade. Lembro-me que certa vez recebi de minha irmã Salete um presente, já que fora o único da família naquela idade que se saíra bem nos estudos.
Meu pai era do "Lloyd" Brasileiro estava sempre a viajar e mamãe, muito zelosa, nos deixava sempre presos em casa sem brincar na rua. Nós: Salete, Osvaldo e Minha pessoa, os três primeiros filhos, sofremos muito esse tipo de educação, não sei por quê, mas não nos trouxe qualquer tipo de anomalia. Em 1953 fizemos a nossa primeira viagem ao Rio de Janeiro, viajamos de terceira classe num navio chamado Taubaté, serei franco, se demorasse mais uns dias, acho que não resistiria, pois a viagem foi um fracasso. O navio saiu de Mucuripe e eu estava bastante feliz com a viagem, mas quando comecei a sentir os efeitos do cheiro da maresia, fiquei tonto e começou uma série de vômitos. Toda a família passou mal.
Salete, minha irmã mais velha, não tinha ânimo de levantar-se, Osvaldo só levantava para ir ao banheiro e ficamos todos os quatro, praticamente, de cama: mamãe, Salete, Osvaldo e eu. Mas, como as águas sempre me atraíram e eu quando estava melhor, subia ao convés, bebia água de coco e ficava a ouvir o ulular das águas, vendo os peixes que acompanhavam o navio. O que mais gostava de ver era o espetáculo da chegada a um porto: no início, via-se uma linha escura, que ia aos poucos transformando-se em pontos escuros, surgindo, a seguir, os contornos da cidade. Era realmente lindo, principalmente, à noite. Quando chegamos ao Rio de Janeiro, eu havia perdido 6 quilos e meus irmãos estavam quase morrendo de inanição. Pois nada nossos organismos aceitavam como alimento.
Foi após esta viagem que vim a ter contato mais estreito com meu pai.
Fomos morar no Leblon, ali na Estrada do Tambá. A casa pertencia a um português que, por sinal, gostava muito de nossa família. A casa era boa, mas tinha o defeito de estar no alto de uma ribanceira, havia uma escada de uns 70 degraus.
Naquela época só existíamos nós quatro: Minha pessoa, Osvaldo, Salete e Clautene. Foi uma das melhores fazes de minha vida, porque meu pai não tinha ainda a bebida como vício. Minha vida, como dos demais, era recheada de estudos, jogar bola, banhar-me no mar, na praia do Leblon, soltar pipa, ver o Garrincha no Maracanã... Era realmente uma bela vida! Clautene era minha alma gêmea, nossa identificação era completa, estávamos sempre nas mesmas travessuras... Quando um era surrado, sempre o outro também o era, mas a despeito de toda energia que irradiava e de sua grande vivacidade, quase sempre algo de ruim acontecia com ela. Hoje me lembro quando ao pular de uma árvore pisou num caco de vidro, indo parar no hospital, precisando levar 12 pontos. De outra vez foi um caroço de feijão que ela colocou no ouvido, cuja retirada só foi possível graças à aplicação de anestesia local. Certa vez fraturou um braço. Foi um momento desesperador. Nossa mãe quase enlouqueceu.
Voltamos no mesmo ano a Fortaleza; em lá chegando, não conseguimos nos matricular no colégio e, conseqüentemente, perdemos o ano letivo.
Veio 1955, voltamos mais uma vez ao Rio de Janeiro e novamente de navio. Dessa vez já havíamos adquirido experiência sobre a viagem marítima e sentimos um pouco menos seus efeitos. Fomos morar num dos mais belos bairros da cidade: o Méier.
O Méier sempre foi considerado a zona sul da zona norte. Morávamos ali na Rua Sobral e éramos felizes com o pouco que tínhamos. Estudávamos no Colégio Latino Americano, que por sinal era o melhor da redondeza na época... Nunca tinha visto e nem sabia da existência do dia de Cosme e Damião, de sorte que ao ver o movimento das crianças correndo atrás de doces foi para mim, um espanto geral; a meu ver, algo de muito anormal estava acontecendo. Segui o fluxo e entrei na festa.
Voltamos mais uma vez ao Ceará e nessa estada nasceu Lúcia, irmã da qual sempre gostei. Foi gorducha e apimentada em sua infância.
Nesse tempo passamos uma fase muito difícil. A fome foi uma constante no dia-a-dia de nossas vidas até voltarmos mais uma vez pára o Rio de Janeiro. E essa foi a viagem mais trágica, pois todos adoecemos, por vários motivos: eu, que caí de uma escada, sofri um corte no couro cabeludo e levei oito pontos, passando a viagem quase toda na enfermaria. Clautene foi acometida pela gripe que lhe causou anemia. Posteriormente faleceu em conseqüência dessa enfermidade. Osvaldo também foi acometido de forte gripe, mas reagiu melhor; Lúcia teve uma forte crise de apendicite e Rita, que era a mais nova teve hepatite. Em conseqüência disso, mamãe ficou quase maluca, não tinha dinheiro para agir.
Ao chegarmos, o alívio foi geral, pois todos fomos para um hospital do qual não recordo o nome e lá passamos duas semana e minha mãe ia nos visitar todos os dias.
O tempo passou e um a um foi voltando para casa. A vida se normalizou e, chegando o término do ano, meus pais mais uma vez resolveram voltar à Fortaleza.
No meio do ano todo o Ceará passou por uma verdadeira crise de trabalho, motivada pela seca, ela foi tão terrível que até o Mandacaru secou. O abastecimento de água foi racionado. Os trabalhos no agreste eram escassos e grande parte das famílias estavam abandonando o sertão e indo para a capital em busca de melhor sorte. E, com esses retirantes, minha tia Ester e sua família vieram a Fortaleza e se juntaram a nós. Partimos mais uma vez para o Rio de Janeiro, mas dessa vez a situação era outra. Dessa vez estávamos sem dinheiro como todos os demais viajantes e tivemos que apelar para o governo a fim de conseguirmos as passagens. Durante todo esse tempo, ficamos em uma hospedaria onde havia aproximadamente 100 famílias, todas na mesma situação, vendo no Rio de Janeiro e São Paulo uma fonte que irradiava luz para uma nova existência...
Lembro-me como se fosse hoje: o pavilhão da hospedaria encontrava-se repleto de retirantes. Todos aguardavam ansiosamente a chegada do navio. Quase todos se destinavam ao Rio de Janeiro e a São Paulo.
O ambiente na hospedaria já estava se tornando insuportável. As diferentes famílias que ali se encontravam não eram todas originárias de baixa renda. Às vezes, ocorriam atritos entre determinados segmentos de diferentes famílias, devido aos níveis de educação e conhecimentos adquiridos em fases anteriores aquele momento difícil.
O superintendente da hospedaria, sempre que possível, reunia os hóspedes e dizia:
"- Ninguém pode fazer suas refeições nos quartos, não podem deixar de se banhar diariamente e jamais poderão se esquecer de se vacinar, pois sem o comprovante de vacinação não viajarão."
Numa manhã de sol escaldante, após as suas costumeiras observações sobre a vida diária, surgiu a tão esperada notícia... O “Almirante Alexandrino” acabou de chegar à Fortaleza e está no armazém número 3. Foi como a explosão de uma bomba que leva e destrói tudo a seu redor. Imediatamente, houve uma confraternização geral, o ambiente ficou uma coisa de louco: todo mundo pulava, uns rezavam para agradecer a Deus por não ter demorado tanto; outros cantavam de alegria e, por incrível que pareça, alguns choravam, pois sabiam que jamais voltariam a pisar naquele solo, que consideravam como parte de suas vidas. Estava eu como observador, pois sempre me contive nas alegrias e nas triteszas e alheio a tudo aquilo, pude realmente ver a histeria que tomou conta da nossa família naquele dia e das demais.
Ninguém conseguiu dormir. Por volta das 03 horas, quando me levantei, reparei que havia muita gente em serenata, outros jogando gamão, xadrez, damas, cartas e até uns em completa abstração. Na alvorada do dia "D" pude contemplar a transformação que ocorrera, estavam em estado de completa tristeza por terem que deixar a sua terra natal.
À medida que os ônibus contratados pela Prefeitura de Fortaleza para fazerem o transporte, alguns não resistiam e transbordavam em clamor. Intuitivamente senti que aquela partida seria uma espécie de marco: que dali para frente muitas transformações ocorreriam em nossa família e nas demais.
A viagem foi feita com alguns transtornos, como a intoxicação alimentar de tia Ester, no segundo dia, tirando-lhe o prazer da viagem.
Tio Antônio chorou muito na hora da partida, era como se estivesse com alguma premunição alusiva à sua pessoa. Manteve-se apático durante toda a viagem.
Dantas e Odaíza, que eram os filhos mais velhos do casal, quase não iam ao convés, minha irmã Rita teve, no meio da viagem, uma crise de verminose, colocando vermes até pela boca. Após três dias de tratamento intensivo com remédios da flora medicinal, que minha mãe sempre tinha em estoque, perdeu uns 5 Kg.
Quando o navio saiu de Recife, após 2 dias, depois de deixar Fortaleza, ao anoitecer, um moço se atirou ao mar, bem em uma noite da sexta-feira santa, havia grande cerração, uma verdadeira treva. Nada se via um palmo à frente. De repente, ouviu-se um grito de socorro vindo das águas com um apelo que se tornava desesperador. Imediatamente paravam o navio. Lançaram um bote salva-vidas, iluminaram tudo ao redor com um possante holofote. Os tripulantes fizeram uma busca em torno de 360º.
Pararam todas as máquinas, três mergulhadores desceram e, com todas as luzes do convés acesas, deram uma busca de uns 20 min entretanto, o tempo passava e nada estava sendo localizado. Só se ouvia o clamor da mãe do jovem...
O jovem foi tragrado pelas vagas revoltas, no entanto, outros gritos de socorro diferente dos anteriores continuavam a ecoar no convés do navio e pouco tempo depois puderam encontrar o local proveniente daqueles gritos alucinantes: Três homens desceram amarrados a uma corda e conseguiram trazer até o navio dois pescadores. Eles disseram que estavam pescando, havia uns três dias e foram surpreendidos pelo temporal. Como tinham se afastado muito da costa, com a grande cerração, ficaram completamente perdidos até que ouviram sua canoa se chocar com a proa do navio. Seu pai e um irmão tinham sido lançados ao mar, sendo tragados pelas vagas.
Ambos os sobreviventes estavam apavorados e achavam que era castigo por terem pescado na semana santa, justo na sexta-feira...
Quando o navio chegou a Salvador, Bahia, os imigrantes japoneses resolveram tomar banho. Embora eles soubessem que era perigoso, a grande maioria se lançou ao mar e era aquela gritaria que ninguém entendia realmente nada. Os mais afoitos tentavam ir um pouco mais longe, até que um cação desgarrado apareceu nadando bem perto, terminando rapidamente a festa. Nesse mesmo dia, o navio começou a pegar carga bem cedo, pegou tanta carga que ficamos impedidos de dormir, devido o barulho do trabalho noturno dos guindastes.
Às 16:00 horas do novo dia, o Almirante Alexandrino seguiu seu percurso e, sem mais novidades, atracou no Pier da Praça Mauá em meados de maio do ano de 1957.
Todos nós seguimos para Austin, bairro fluminense que fica logo após a grande cidade de Nova - Iguaçu. Foram duros aqueles primeiros dias, um sufoco total, porque havia muita gente numa casa pequena. Tia Ester alugou depois, uma casa em Botafogo vindo pára a cidade. Minha família permaneceu por mais quatro meses em Austin, tendo depois se mudado para Vila Operária , um bairro de Nova Iguaçu. Nessa época, todos os filhos de minha tia Ester, ela e seu marido já estavam empregados e a situação financeira e familiar deles transcorria normalmente. Pedro, o filho de 15 anos, trabalhava para uma família gaúcha, Euzanira, a filha caçula e minha tia trabalhavam na casa de saúde Dr. Eiras em Botafogo, Expedito, o filho mais novo, trabalhava como aprendiz de chaveiro e Dantas, o mais velho de todos, estava empregado em uma loja de brinquedos.
Quanto à nossa família, todos eram menores: os dois mais velhos, Salete e Osvaldo, não tinham ainda chegado aos 13 anos e também minha mãe não admitia naquela época que seus filhos menores dessem duro.
O tempo passou e voltamos mais uma vez ao Ceará e lá chegando, nasceu Regina, a última da família.
Após o seu nascimento passamos por outra fase muito difícil. Foram dois anos de sufoco. Meu pai brigou com minha mãe, saindo de casa, não dando qualquer tipo de assistência financeira. Nós nos virávamos todo esse tempo com nossos esforços pessoais. Minha mãe lavava roupa para os outros, eu e Osvaldo fazíamos carreto na feira. Lúcia, Rita, Sibele e Regina, esse quarteto, não formavam 14 anos juntas. Por muitas vezes, as pessoas mais abastadas da época, lá da Vila dos Marinheiros, faziam uma compra e mandavam levar lá em casa, porque éramos muito considerados por todos. Por muitas e muitas vezes eu fazia umas pipas e vendia. Com isso, jogava pife-pafe, bisca de nove ou relancinho, que é a mesma coisa. Às vezes, eu ficava a tarde toda e até entrava pela noite. Quase sempre frutífero o esforço porque eu sempre hutilizava o raciocínio lógico matemático e conseguia voltar sempre com dinheiro que dava para comprar café, carne, ...etc para uns cinco dias. Apesar de tudo isso, o couro comia solto e eu tinha que ficar uns três dias sem ir à rua.
Essa brincadeira se alastrou por dois anos sem que minha mãe tomasse qualquer tipo de providência para que cessasse. E foi num desses meses de sufoco, que numa noite chuvosa ouvimos alguém à porta chamar: - Maria, Maria... Mamãe, ao atender, deparou-se com meu pai e, como sempre perdoava todas as suas faltas, e também porque a situação não era boa, acreditando que se com ele era ruim, sem ele seria pior; deixou-o entrar e chegaram à conclusão de reiniciar uma nova vida. Após as festas, mais uma vez, viajamos para o Rio de Janeiro. Essa Viagem foi interessante: fomos de trem até Crato. Ao chegarmos em Antônio Diogo, cidade que fica bem distante do local, minha avó Rachel cismou em ficar naquela localidade, onde tinha uma filha, tia Maria Augusta. Ninguém conseguiu convencê-la a seguir em frente. Foi embora, e essa foi a última vez que a vi com vida, pois 10 anos depois ela sofreria um desastre automobilístico e partiria para pontos equidistantes do planeta, que até agora ninguém conseguiu alcançá-los e voltar.
À noite, fomos obrigados a trocar de trem devido a defeitos. Durante a transferência, meu pai travou conhecimento com outras pessoas e aceitou um convite para passarmos uns dias em Juazeiros do Norte, cidade em que há verdadeira pregação religiosa em volta do seu santo protetor, o padre Cícero Romão Batista.
Ao chegarmos a Juazeiro, meu pai com sete filhos e mais uma mulher e bagagem foi direto para a casa desse companheiro de viagem, do qual não me recordo no momento, o nome nem a ocupação, só lembro que sua casa era de parede dividida e que não havia luxo.
Três dias depois ele alugou uma casa e seguimos para a nova residência. Meu pai meteu-se num jogo de roleta e perdeu tudo que restava, aí Osvaldo apareceu com uma soma que tinha ganhado em uma milhar que dera no bicho um dia antes de nossa partida. Foi uma surpresa geral e ao mesmo tempo um alívio para meu pai.
Nós ficamos uns dois meses em Juazeiro e eu, bem como, meu irmão, chegamos até a arranjar um trabalho provisório como ajudantes de pedreiro. Como eu tinha uma consistência muito fraca, pedi minha demissão uma semana depois. O pouco que recebi dei à minha mãe.
Dias depois meu pai conseguiu com um motorista de caminhão a carona necessária para viajarmos para o Rio. Ainda me lembro que quando o motorista olhou e, vendo aquela mulher com sete filhos, coçou a cabeça e pensou se na boléia do seu caminhão caberia tanta gente!
Com dez pessoas quase que totalmente espremidas na boléia do caminhão viemos até Governador Valadares, cidade mineira. Lá chegando, depois de parada para reparos e lubrificação, quando íamos reiniciar a viagem houve um certo desentendimento entre o motorista e papai, que resolveu não mais prosseguir, dando alívio para o motorista que se libertava daquela carga humana.
Fomos direto à Vila Operária morar com nossa tia Ester temporariamente e, um mês depois, mudamos para um bairro bem próximo. Chamado de Rancho Novo, contudo era bem no extremo do bairro fazendo divisa com um outro bairro chamado Viga. Nós não tínhamos passado nem uma semana no local, quando o Presidente Jânio Quadros renunciou a seu cargo, decorrido sete ou oito meses de sua eleição.
No colégio, tudo estava bem, porque eu e meu irmão conseguimos com mais 18 alunos sermos promovidos da 2ª para 3ª série no meio do ano. Como se deu esse fato? Foi muito simples, o colégio em que estudávamos, o Iguaçuano, estava com uma super lotação de alunos na 2ª série, no turno da tarde, e a sala com 58 alunos era um verdadeiro sufoco para qualquer professor(a); quando vieram as provas de meio de ano os 18 melhores classificados pularam de série e tanto eu como meu irmão estávamos nessa turma. O curioso é que quando chegou o final do ano, os 10 primeiros colocados ficaram justamente entre aqueles alunos que pularam de série; Genésio em primeiro, eu em segundo, Moisés em terceiro, Abgail em quarto, Izabel em quinto e essa ordem se manteve nos dois anos seguintes. Eu só perdia a primeira colocação por não saber desenhar, eu conseguia notas 9.50, 9.00 e 10.00 em quase tudo, entretanto, quando chegava desenho caia para 3.00, 4.00, 5.00, 2.00; então, minha nota geral caia e dava oportunidade de o Genésio me superar. Eu, entretanto, não esquentava porque, primeiro, tinha consciência de que não tinha queda para desenho e, segundo, o nosso Genésio era por demais querido por todos...
Ao completar 14 anos eu terminava o ginásio e foi então que começou outra fase ruim em nossas vidas. Mudamos para o centro do Rancho Novo e foi nesse local que eu conheci as minhas grandes amizades de adolescente. Célio, "O Computador"; Amaral, "O Maluco", que também era chamado de Feilx, pois, seu nome era Félix Amaral; Paulinho, "O Bundinha", não que ele fosse travesti ou coisa parecida, mas porque tinha as nádegas muito volumosas e a turma não perdoava; Juarez, o "Inquieto"; Laélio, Causer e Carlos, três irmãos que eram muito unidos e sua linda irmã Crislaine de quem Felipe, o mais novo do grupo, jamais esqueceu.
Foi pois, após essa viagem que ficamos definitivamente radicados no Rio de Janeiro. O período foi sensacional em minha vida, mas, infelizmente, tudo que é bom, dura pouco e desde então a vida começou a ficar por demais difícil e dura por causa da luta pela sobrevivência..
Trabalhei como capoteiro e meu irmão aprendeu o ofício de padeiro, assim tocávamos a vida. Não podendo continuar os estudos no Iguaçuano resolvi matricular-me em uma escola preparatória para fazer o artigo 99, "Científico completo em 06 meses ou 01 ano" a fim de recuperar o tempo perdido.
Com a separação definitiva de meus pais, meu irmão mais velho e eu resolvemos assumir de vez a nossa família e fomos à luta; trabalho de dia e estudando à noite. Foi por essa época que Felipe veio a conhecer Crisilaine com maior profundidade, essa menina tinha 14 anos em 1964 e suas qualidades espirituais e morais eram por demais notáveis e ele sem sombra de dúvida, sentiu o creptar de sua paixão, que, era muito estranha. Mas, por que estranha? Simplesmente porque ele não namorava essa jovem. Havia sim, um encantamento entre os dois, mas, nada mais que isso e ele iludiu-se ao máximo e, quando veio a realidade, todo o seu castelo foi destruído, seus hábitos mudaram por completo, de alegre tornou-se meio triste, mas sem razão porque ele era apenas um garoto de 15 anos. Porém quem é que vai adivinhar o que se passa no reino dos pensamentos e coração dos outros, sendo jovem ou velho? Esse é um campo em que todas as pessoas têm que ter suas próprias experiências.
Capítulo I
FUGINDO DE SI MESMO
A partir daquele momento a jovem Crislaine começou a preencher os sonhos dourados de Felipe, ele se apaixonou por ela de uma maneira diferente da que se pode conceber.
Seu desejo era tê-la sempre consigo ao seu lado. Eram vizinhos, e ele se contentava em vê-la diariamente. Mas há um detalhe fundamental que nos deixa pensativos quanto ao seu modo de agir. Ele dialogava constantemente, mas era incapaz de pronunciar uma única palavra sequer a respeito de sua paixão por ela ou possível namoro entre ambos.
Existia nele um complexo de inferioridade que era por demais nocivo à sua vida, era notório em todos os aspectos esse seu jeito, não saia à rua para brincar com seus vizinhos nem com seus colegas de colégio, só havia duas exceções: Célio, "O Computador", e o Paulinho "Maluco".
O primeiro, porque ficavam os dois a deglutirem a História do Brasil e analisando possíveis questões que os professores talvez nem em sonhos supunham existir. Na Matemática, Célio sempre fora insuperável, um simples exemplo do que ele era capaz de fazer: quanto é 12674 x 148?, ele sem pestanejar olhava e dava o resultado deixando todos os que estavam ao seu redor pasmados.
Mas isso não era nada, você apresentava a ele uma soma de 20, 30, 40 ou mais parcelas e ele dava o resultado em fração de segundos, repetindo todas as parcelas ditas por você. Eram tantas as loucuras matemáticas que fazia, que fez jus à alcunha de "Computador". Mas, como era muito orgulhoso, não admitia ficar para trás em História para Felipe que adorava-a. Ambos eram capazes de ficar uma tarde completa a fazer tratados de História e arquitetarem problemas de Matemática.
Com Paulinho, cuja alcunha era o "Maluco", era bem diferente. Felipe dava aulas para ele porque o mesmo era incapaz de distinguir um cateto de uma hipotenusa, ele era um garoto cheio de vida, sua família era bem tranqüila, mas era um menino bem arteiro e não deixava ninguém da rua e do seu círculo de amizades em paz. Mas há um detalhe, ele tinha um coração de ouro, dava lições de urbanidade a muitas pessoas grandes.
Só com esses dois que ele costumava brincar, conversar e também não sentia ciúmes quando um ou ambos estavam com a sua "Vênus de Milus".
Ao ver outro qualquer, principalmente desconhecido, e se o mesmo tivesse boa aparência, ficava louco de ciúmes e o dia estava irremediavelmente perdido para ele, que logo sentia uma enorme angústia. Mas ele era incapaz de sair e procurá-la, iniciar um diálogo para saber o que eles tinham conversado. Felipe se julgava sem direito a este tipo de interrogação.
O tempo estava passando e esse amor foi aumentado consideravelmente, sem que houvesse correspondência. Também, como poderia haver alguma coisa entre eles, já que ele não era capaz de conquistá-la ou fazê-la sentir o seu profundo amor?
Capítulo II
A FESTA E AS CONSEQÜÊNCIAS
Numa festinha comemorativa dos 15 anos de Elizabeth, jovem esbelta, de grande beleza física e inteligência, a quem todos estimavam por ser deveras comunicativa, e com quem todas sentiam um enorme prazer em conversar.
No auge da festa, Felipe começou a provocar sua "Vênus de Milus" seu intuito era deixá-la aborrecida para que não dançasse com outros rapazes. Ela, com seu sangue muito quente topou a provocação e ele, imediatamente ficou transtornado passando a situação de "persona não grata" na casa de Iara, por ela somente, pois os demais já sabiam o motivo da briga e não deram muita atenção ao fato.
No ápice dessa situação fomos morar no Engenho Pequeno, local situado a uns 5 Km do Rancho Novo, onde morávamos. Crislaine nos ajudou na arrumação e na mudança. Ela falava com todos, mas com Felipe, só por meio dos olhos e dos gestos, o orgulho de ambos era tão forte que ninguém jamais fora capaz de torná-los amigos novamente.
Ele desejava ardentemente ouvir a voz dela dirigirindo-se a ele, então, se tal fato ocorresse ele pediria desculpas por ter estragado a noite dela na festa e por sua imensa grossura da época.
Iara, embora sentisse a falta das lições de Matemática, História, Geografia, e tê-lo perto de si também, mantinha-se a posição firme e não houve reatamento da amizade.
Após ter sido consolidada a mudança por completo, ele resolveu tentar tirá-la de sua mente dando esse espaço à sua Geografia, Física... etc.
Passaram-se dois longos anos de angústia para ele, pois que a imagem dela estava sempre ao seu lado como se fosse a guardiã de sua sombra. Ele não sabia o que fazer para esquecer. Os seus companheiros que vinham jogar damas davam notícias sobre ela como estava mais bonita, quem ela estava namorando, etc.; ele então, descontrolava-se e não mais conseguia se equilibrar no tabuleiro, perdendo algumas partidas praticamente ganhas; mas manteve a firme decisão de não voltar ao Rancho Novo.
O tempo passou e ele fez 18 anos, assentou praça no Exército e a vida corria seu curso normal até que um dia de dezembro, precisamente no dia do reservista, estava ele tranqüilamente em seu serviço de guarda em sua Unidade, quando, por casualidade, encontrou-se com Paulinho que havia servido no ano anterior e vinha dar visto em seu certificado, após longo diálogo sobre as travessuras, Felipe, não contendo a curiosidade, perguntou sobre Iara. Após essa pergunta, perdeu toda a tranqüilidade e o resto do dia, pois Paulinho falara simplesmente que estava com ela, ou seja, era sua nova "pequena firme" e no momento era seu mais "novo amor".
Narrou-lhe então as horas de felicidade que ele tivera com ela, a cada frase de Paulinho ele se contraia para não explodir, dissimulava o mais que podia, mas o coração comprimia-se cada vez mais e Paulinho não deixou por menos, contou-lhe como os beijos dela eram ardentes, e a maneira suave de sussurrar em seus ouvidos, seu corpo quente quando ele a abraçava, etc.
Quando Paulinho deixou o quartel, Felipe tratou imediatamente de trocar o serviço, pois não se sentia em condições psicológicas para continuar ali naquele dia de tão profunda melancolia.
Foi para casa e se pôs a pensar no grande amor que voltou como um foguete a despertar o seu latente coração. Amava tanto Crislaine que, freqüentemente, conseguia, com seu forte pensamento, trazer a imagem dela a si ou simplesmente levar a dele até ela, embora ela nunca tenha percebido ou sentido a sensação de ter alguém perto de si sem que visse absolutamente nada ao seu redor.
Ele ficava horas e horas contemplando o infinito e, nele via sua amada e sentia até o perfume que ela exalava. Às vezes, ele sentia depois a irradiação desse perfume em volta do seu quarto, nesse caso, adeus estudos naquela noite.
Um mês depois, num domingo em que estava livre de serviços, tomou a decisão e foi visitar Célio "Computador". Em lá chegando não o encontrou e foi à casa de Crislaine com pretexto de conversar com D. Vicentina que era mãe de sua "Vênus de Milus", mas por que Vênus de Milus? Simplesmente porque Crislaine com os seus 17 anos deixava qualquer candidata a "Miss Brasil” de boca aberta com a sua formosura. Tinha aproximadamente 1,73m de altura, loura, olhos que pareciam esmeraldas puras, um busto não muito acentuado, quadris que ao rebolarem deixavam todos os transeuntes pensativos. Para completar, os cabelos, bem como as pernas deixavam muitas mulheres com saudades de seus tempos de juventude. Sua fala era por demais graciosa, a bem da verdade ela não falava sussurrava e esse fato o deixou louco de amor por longos anos.
Quando lá chegou, cumprimentou a todos e, não vendo Crislaine, evitou perguntar por ela. Estava conversando com D.Vicentina sobre a construção de um conjunto habitacional bem próximo ao Rancho Novo, quando de repente seus olhos deram com uma fada. Ele ficou totalmente pasmo com a beleza e postura que irradiava da pós-ninfa, que esquecendo todo seu orgulho e quebrando um gelo de quase três anos, conseguiu balbuciar boa tarde. Sua alegria interior era tanta que seu coração predominou sobre os demais órgãos e seus olhos transmitiam tanta ternura, tanta alegria que as palavras não foram necessárias para a reconciliação de amizade.
Embora, não a tendo e sabendo perfeitamente que ela tinha o seu predileto, ele naquela noite matou a imensa saudade e conseguiu, pela primeira vez em quase três anos, dormir como um "urso em estado de hibernação" e, ao acordar, sentiu que não conquistaria Iara, visto que percebera que havia perdido a sua louca paixão.
Crislaine estava deveras apaixonada por um de seus melhores amigos, Paulinho. Então, ele tomou uma decisão, decisão essa que muito o prejudicou em sua vida íntima, pois a partir daquele dia tornou-se um rapaz fechado em si mesmo e esquecendo por completo o mundo em sua volta, ele ficou mais tímido do que realmente era e resolveu então viver só para os estudos, dia e noite estava a folhear os seus livros e com o passar do tempo formou-se em Física e no Exército foi promovido a 3º Sargento e por ter concluído o curso com ótimo aproveitamento ficou muito mais respeitado no âmbito familiar, até que um dia largou tudo, dando baixa, deixando seus familiares. Resolveu correr o Brasil à fora e, nessa andança, ele veio parar numa cidade chamada Nilópolis. Não sabia por que motivo, mas, sentira que tinha uma atração desconhecida pelo local e, num sábado desses qualquer, encontrou uma esbelta jovem chamada Vânia, que carinhosamente era conhecida pelos amigos pelo nome de "Vani".
Felipe travou boa relação de amizade com a jovem e, devido ao seu grande conhecimento de ciências exatas, “Vani” procurava sempre estar ao seu lado para que ele a ajudasse nos problemas de estatísticas, dinâmicas, bi-quadradas e, com o passar do tempo, os dois iam se tornando cada dia mais e mais chegados, até, como era lógico de se esperar, ele apaixonou-se por “Vani”, morena por demais cativante, esquecendo temporariamente a sua alucinação.
Ele estava radiante de tanta felicidade, “Vani” muito o orientava em seus estudos, apesar de seu pouco conhecimento, esta orientação consistia em organizar os seus trabalhos e, com isso, ela dava-lhe força, aumentando assim sua potencialidade.
O ano passou com um saldo muito positivo para ambos, já que “Vani” diplomara-se professora e Felipe terminara com muito proveito o primeiro ano de pós-graduação em Física.
As festas natalinas foram festejadas com muito brilho e resolveram ficar noivos.
A família de “Vani” não via com bons olhos essa união, simplesmente porque não conheciam a origem de Felipe e, sendo uns pseudos-aristocratas, não queriam, naturalmente, que sua filha se envolvesse com qualquer burguês e, principalmente, com um desconhecido; embora tivesse muitos predicados e se apresentasse bem em qualquer nível da sociedade.
Houve muita pressão em cima dos jovens, a mãe de “Vani” chegou até a propor uma grande quantia em dinheiro e mais um emprego de grande valor para que Felipe se decidisse a romper o noivado. Ele tinha grande polidez e ficou indignado com tal proposta; cortou por completo a relação com os pais da moça.
Em casa, Vânia sofria as maiores pressões por parte de todos os seus familiares, seu pai já não podia vê-la chegar do colégio no qual era professora que a história começava, um jogo completo de palavras com perguntas e respostas ríspidas de ambas as partes, as quais deixavam-na completamente fora de si.
Capítulo III
FIM TRÁGICO
No fim do ano de 1972 o pai de Vânia, Sr Cleber, resolveu dar uma festa em homenagem a grande produtividade de sua firma, que lhe dera lucro fenomenal, mas, ele jamais supunha que um fato muito ruim viesse a acontecer em seu próprio lar.
Lembro-me como se fosse hoje. Neste exato momento minha memória extrapola, vindo à tona todas as cenas daquela noite trágica.
“Vani” estava muito a contra gosto atendendo os convidados e, quando me viu, disse-me em tom que me deixou pensativo:
- Felipe não veio, porque não está comigo nesta noite inesquecível? Eu a cumprimentei e disse-lhe: ainda é cedo, talvez ele chegue mais tarde, ok?
- Ela então sorriu e eu lhe pedi licença e fui pára outro local em que pudesse ficar mais à vontade.
Entrei normalmente, tomei alguns drinques, Vânia veio até mim novamente e conversamos um longo tempo, disse-me:
- Nossas vidas estão um verdadeiro inferno, mas cabe a mim acabar com esse suplício que ora nos atinge, dará tudo certo, podes crer.
Ela saiu sorrindo, com um sorriso enigmático, e disse-me:
- Logo mais tudo se resolverá...
E deixou-me sozinho pensativo, um dos meus pensamentos tentava decifrar o enigma de seu sorriso, essa foi a última vez que a vi com vida.
No auge da festa, todos já se encontravam meio ofuscados pela bebida e também enfastiados pela pomposidade das iguarias servidas, quando, sem mais nem menos, um estampido se fez ouvir com toda a sua potencialidade vindo do jardim.
Correram todos pára o local, em lá chegando, ficaram quase atônitos, completamente estupefatos com a cena que viram. “Vani” jazia toda ensangüentada por sobre a relva... O senhor Orlando, o qual era a pessoa mais chegada a família, ao pegar o corpo da jovem completamente sem sentido, levou-a em seu carro, às pressas, em busca de socorro; mas, antes de dar entrada no hospital, viu que seu esforço fora inútil, porque ela acabara de dar o seu último suspiro terrenal, falecendo em seus braços a jovem que há poucas horas conversara consigo.
O alvoroço tomou conta de todos e dos curiosos que começaram logo a tentar farejar a verdadeira causa do suicídio. Uns logo defenderam a idéia de que a moça estivesse grávida e, não querendo dar um grande desgosto à família, dera fim à sua vida; alguns, entre cochichos, deram-na como possuída por alguma doença mental em estágio acentuado, outros diziam que haviam visto o namorado abraçado com outra e cada um fazia várias hilações que não tinham o menor sentido.
Após serem tomadas todas as medidas necessárias ao funeral, seus pais, totalmente abalados, buscavam uma lógica para o fato e, por mais que pensassem, não chegavam a qualquer conclusão a respeito. Só o Sr Orlando sabia o verdadeiro motivo de tão fraco ato.
O Sr. Clebe estava por demais traumatizado e em sua grande cegueira não conseguiu ver a causa do suicídio. Fátima, sua mãe, não se continha em pranto de dor. No salão, a festa se iniciou com crepúsculo da noite, mas na aurora do novo dia jazia um corpo sobre uma mesa, com alguns castiçais em sua volta a iluminá-lo, transformando-se assim num lúgubre e funesto ambiente de tristeza e então, Sr. Clebe, motivado pelo escândalo causado pela morte da filha, continuou em seu quarto, não saindo para atender a quem quer que fosse.
Para Felipe, esse fato foi um verdadeiro desastre. Não podia admitir que semelhante coisa pudesse ter acontecido. Não se conformava em tê-la perdido assim tão bruscamente de maneira trágica. Após os funerais isolou-se praticamente do mundo, ficava horas em seu quarto absorto em seus pensamentos, largou o emprego e sua vida declinou consideravelmente, até seus companheiros mais chegados se afastaram dele, mas o tempo passou e o esquecimento do fato também.
E, no dia que conseguira finalmente sua pós-graduação em Física na Faculdade Federal; após inúmeras badalações e confraternizações com companheiros de turma ele, já meio estafado, deixou-se reclinar em seu divã predileto para sua sesta. De repente uma miragem começou a delinear-se em seu subconsciente, era sua grande paixão, Vânia. “A Vani querida”. ...Estava Felipe em uma bela tarde de primavera, ouvindo o cantar dos pássaros, os quais estavam pousados na copa de uma árvore, da praça principal bem próxima perto a sua casa.
Ele estava totalmente absorto com a sinfonia melódica dos pequeninos pássaros; quando ao mirar o horizonte, pareceu-lhe ver “Vani”, vindo em sua direção. Ele de imediato ficou estupefato e pôs-se a observar com mais detalhes, já não era mais “Vani”, porém a imagem permanecia em sua mente tão fortemente que ele rendeu-se ao fato.
Aos poucos a imagem dela foi-se tornando mais e mais delineada e o perfume que lhe inebriava tanto, espalhou-se pelo ar inundando a todos com sua essência.
Nesse momento a imagem e a voz de “Vani” tornou-se presente:
- Felipe, vim porque a essência vibratória de sua energia estava em meu corpo causal e há necessidade que você parta em busca de uma nova energia que te dê mais vigor e quando você a encontrar, a névoa que o está prendendo a mim, será dissipada por completo.
Você então encontrará a sua verdadeira alma gêmea e a vida lhe fluirá com mais benignidade. Ouça a voz de sua consciência e aos poucos você ficará aliviado e feliz.
Quando ele quis balbuciar alguma palavra, aquele perfume que estava exalado no ar foi-se dissipando por completo, assim como sua imagem. Ele então tornou-se pensativo. Terá sido verdade ou apenas um sonho ou um desejo ardente de sua mente? Ao acordar, estava por demais estupefato com seu sonho, pesadelo ou aparição; qual dos três teria sido? ele não estava podendo conciliar suas idéias. Levantou-se, fez uma grande inspiração, retendo-a prendendo o mais que pôde e soltou-a levemente, em seguida, foi até a cozinha e bebeu um pouco d'água e sentou-se, pôs as mãos sobre o rosto e disse:
- “Vani”, oh minha doce Vânia, terá sido verdade tudo aquilo que aconteceu? “Vani”, não creio mais nesta vida, ela também ficou vazia para mim apesar de ter me recuperado.
E repetindo disse:
- Será real ou não? Apesar de ter me recuperado, será apenas produto de minha imaginação este meu sonho? Terá ele algum significado?...
Tocou o telefone tirando-o daquele estado e alertando-o para a vida...
- Alô, é 229-7341.
Era Josías, seu maior amigo no momento, convidando-o para uma viagem a Recife.
Capítulo IV
O FIM DO COMEÇO
Houve sim, houve realmente um grande epílogo em minha vida amorosa, o fim do romance deu margem a dois caminhos distintos a seguir.
Seguir o caminho do tropeço, ou seja, a boêmia, talvez ela seja no momento a mais indicada, mas afinal que vou ganhar?
Fraqueza de espírito, esgotamento nervoso, muitos aborrecimentos? Sem sombra de dúvida, o esquecimento daqueles a quem muito prezo.
Uma nova oportunidade com alguém mais suave, creio que será o ideal. E se tudo for falhar novamente, como ficarei? Pois já tive duas decepções e não quero ter a terceira. Felipe viu de novo a imagem de Vânia e esboçou um sorriso triste e pensando para si, disse em voz ativa:
- Sim tentarei... pois creio que será mais uma oportunidade em minha vida...
Deixou seu quarto e saiu noite a dentro à procura de sossego, pois no momento não dispunha. Parou diante de um parque, ficando a observar as crianças que se divertiam nas gangorras, vendo em seus sorrisos toda a beleza da vida, sentiu novamente o gosto de viver.
Vânia, desde o seu rompimento com Felipe, tornou-se apática, ficando isolada de todos, quase completamente só. Certamente ela sofreu o traumatismo da separação mais que Felipe. Sofreu muito, pois Felipe era sua maior fonte de felicidade. A pobre jovem chorava constantemente, não sabendo mesmo o que fazer para suprir-lhe a falta. Fazendo um ligeiro retrospecto de sua vida, desde a mais tenra infância até seus 18 anos atuais... Começou a lembrar-se dos seus 13 anos, quando em agosto, de 1967, viu Felipe pela primeira vez e não mais o tirou de sua cabeça. Lembrou que olhou-o vagamente sem o menor interesse, notou também que ele não lhe dera a menor atenção. Comentando com, sua amiga íntima, Sheila; ela assim falou:
- "Que tipo chato, esse tal Felipe, passei por ele dei-lhe bom dia e ele nem me cumprimentou".
Sheila quis amenizar as palavras de Vânia, esboçando um retrato de Felipe e disse:
- Acho que você está enganada, porque ontem à tarde quando os lusos se reuniram para a tradicional sueca, faltava um parceiro, eu o convidei e ele aceitou prontamente. Foi durante o jogo que nosso amigo atual pareceu-me ser dotado de grande conhecimento e também muita inteligência; sendo muito introvertido, pelo que notei, principalmente no aspecto romântico e talvez sexual. Porém posso assegurar que ele é bastante atencioso, educado e tem um olhar tão profundo que nos deixa assim tímidos, ou seja, acabrunhados, se o olharmos frontalmente...
- Não diga que você já gamou por ele - observou Vânia.
- Oh, não chegamos a esse ponto, acho-o apenas simpático. E você, o que acha dele?
- Pareceu muito orgulhoso - respondeu sem pestanejar.
- Vânia, talvez você esteja sendo precipitada em suas observações - comentou Sheila - sinceramente, em hipótese alguma, posso concordar com você nesse aspecto e de mais a mais você só o viu uma vez.
E assim ficaram as duas em suas observações a cerca de Felipe que, por sinal, nem supunha tal fato.
Capítulo V
UM REFRESCO MERECIDO
Após alguns dias vinham Vânia e Sheila de uma fonte onde tiveram que apanhar alguns galões de água e já estavam completamente exaustas, resolveram então parar na esquina mais próxima, que por sinal distava uns duzentos metros da casa de Felipe.
Esse, como sempre, estava lendo uma de suas revistas na varanda de casa. Quando avistou as jovens, teve um momento de excitação, mas por fim disse: - São minhas vizinhas, embora sejam tontas, mas mesmo assim não é justo que fiquem se matando com aqueles galões de água.
Foi em seguida ao encontro das jovens, as quais já estavam se preparando para um novo pique, e aproximando-se, disse:
- Aceitam minha ajuda?
Ao passo que responderam, quase instantaneamente:
- Até que enfim, vejo um verdadeiro homem que é realmente um cavalheiro.
Sorrindo com tão inesperado elogio, Felipe pegou as duas valises e saiu a conversar parando exatamente em frente a casa de Vânia, despediu-se sem mais formalidade e foi para o mesmo local onde estava há pouco. Havia quase 20 minutos que Felipe estava a ler quando ouviu alguém ao seu lado dizer:
- Estás tão absorto em tua leitura que nem me viu chegar, há mais de 3 minutos que estou perto de você e não sentiu minha presença.
Felipe falou na maior seriedade:
- Quando a leitura é boa, esqueço de tudo, ela nos envolve por completo, não nos apercebemos de nada em nossa volta, portanto, é lógico que não notei sua presença; peço, porém, que me desculpe pela franqueza, mas agora o livro deixou de ser tão importante e você tornou-se a atração principal.
Então, Vânia disse-lhe:
- Bem, disseram-me que você gosta muito de refresco de maracujá, por isso fiz este e lhe trouxe.
- Não deve estar completamente como você gosta, mas dá para sentir o gosto.
- Levando-se em conta o calor abrasador que está fazendo agora, eu seria realmente louco se não aceitasse, principalmente vindo de uma ninfa tão bela como você.
Sheila vinha vindo e começou a brincar com os dois dizendo algumas piadinhas e todos puseram-se a sorrir. Vânia era quase uma criança, estava despontando para a puberdade, já sabia que um dia teria que dividir sua vida com alguém, pois sentia isso dentro de si, no entanto, os dois estavam um pouco desligados.
Felipe não era seu tipo predileto e para que se preocupar com algo que nem existia em sua mente?
Quanto a Felipe, esse estava ainda ressentido do trauma proveniente do amor que não conseguira obter.
Passara toda sua adolescência pensando e tentando conquistar o amor de uma jovem quer, apesar de tê-lo como um grande amigo, já tinha o seu predileto.
Com o passar do tempo, fez uma análise de sua vida e de si mesmo, chegando à conclusão de que não era esse o tipo de vida esperado em seu sonho de menino e, desde então, passou a estudar à noite; continuando em busca de um aprimoramento constante, dizia ela:
- Se não estudo, jamais conseguirei o meu ideal, que no momento parece-me um grande ponto no horizonte e, portanto, tenho que caminhar em busca desse ponto. Devo perecer hoje, para amanhã ser glorificado por todos... Chegou a primavera, florescendo os campos, enchendo os corações dos jovens, trazendo mais amor ao mundo e tornando a natureza mais célebre...
Felipe fora convidado para um baile em que seriam festejados os 15 anos de Tânia, não poderia faltar em hipótese nenhuma, pois Tânia era muito considerada por ele; vestindo-se com seu melhor traje, a seu estilo próprio, lá chegou com a hora bastante adiantada naquela feliz noite de primavera.
Cumprimentou alguns conhecidos, tomou um excelente drinques e foi ver a mais bela da noite a seu ver, a debutante do dia.
Após falar com Tânia e ficar maravilhado com sua beleza, tomou outro drinque e foi sentar-se em um divã recostado bem de frente para varanda, ficando em seus pensamentos, contemplando as estrelas...
- É você mesmo? - ninguém respondeu, a voz tornou-se mais acentuada:
- Felipe é você?
- Vânia, como está você? Faz muito tempo que não te vejo, três dias talvez.
- Você está brincando, Felipe, a não ser que cada trinta dias para você seja um dia. Estamos exatamente há um mês e quinze dias sem nos ver. Mas é lógico que tal fato teria que acontecer, pois você vive totalmente infurnado naquele seu quarto estudando e não sai praticamente para nada, nem nos fins de semana você gosta de sair de casa. Você está bem mais magro, estão maltratando você lá ou será que está já gamadão em alguém?
- Não é nada disso, é apenas muita preocupação com os meus estudos, vou parar um pouco nestes dois meses restantes e aproveitar um pouco a vida e, logicamente, as férias que chegarão breve.
Vânia voltou logo em seguida com duas doses bem fortes e um salgadinho e disse:
- Bem, pelo que vejo sou a única pessoa aqui presente que se preocupou com você.
- Vamos conversar ao luar, pois o som resultante das músicas está muito alto e conseqüentemente não me sinto bem com tanto barulho a minha volta.
Foram até o jardim e isolaram-se de todos, o assunto tratado foi o mais diverso possível, inclusive de suas possibilidades para o futuro.
Chegou o sereno da manhã convidando a todos a se retirarem para seus lares aconchegantes. Felipe despediu-se de Vânia e foi para casa dormir, o que deixou Vânia muitíssimo feliz, mas desapontada porque nem um beijo lhe fora dado em toda aquela exuberante noite.
E chegando a casa tomou um gostoso banho, leu em seguida algumas páginas de um romance e, sendo vencido pelo cansaço, dormiu profundamente.
Ao acordar, ainda enamorado com a noite passada, veio-lhe logo a lembrança daquele rostinho rubro da juventude e meigo de ternura exalado daquela jovem que, com seu jeito simples e som de voz macio, o enfeitiçara por completo; ficou Felipe totalmente aturdido a pensar. Mas em seus pensamentos surgia sempre um grande obstáculo, que lhe parecia por demais intransponível: sua idade; intencionava se aproximar mais da jovem para fins de uma relação mais completa e, possivelmente, o início de um amor, quem sabe?
Pensando assim, tomou seu banho matinal, leu as notícias e foi para seu labutar diário... Estavam em grande evidência as lutas de "Teleket" - transmitidas ao vivo pela televisão e Felipe apreciava por demais essas lutas e seus ídolos, mas o grande problema consistia em arranjar local para assistir, pois ele não tinha TV e seu capital era insuficiente para poder desprender certa quantia na sua aquisição, entrou em contato com Sheila, uma de suas amigas mais importantes e disse:
- Estou a fim de assistir às lutas de hoje, leve-me à casa de uma de suas amigas onde tenha TV, de preferência a casa da Íris ou Vânia.
Sheila sabia que Vânia estava por demais inebriada por Felipe e sendo uma de suas amigas mais íntimas, era lógico que ela o levasse à casa de Vânia. Apertando a campainha, veio a mãe de Vânia, senhora distinta, porém muito rígida e preconceituosa, que procurava ocultar na igreja as falhas de seus pecados cometidos em outras épocas, acumulando dentro de si um vasto campo de irradiação com tendência ao fanatismo religioso. Abrindo a porta disse:
- Boa noite, Sheila! Este é seu broto? Muito prazer, eu sou Fátima, como está você?
- Muito prazer, Felipe, ao seu dispor. Sheila trouxe-me até aqui a fim de eu assistir a um programa de TV, mas positivamente não sei se a senhora gosta das lutas na TV.
- Pois não, pode entrar e fique à vontade, porque os amigos de minha filha são bem chegados em minha casa, desde que não abusem da confiança depositada; ouço sempre falar em você, mas só hoje tive o prazer de conhecer-te, pois o que estas meninas falam de você não está no gibi, sinto não poder fazer companhia porque estou praticamente de saída para o culto de hoje, mas meu marido está chegando e bem sei que ele ficará contente em ter vocês como companhia.
Dizendo estas palavras retirou-se, deixando-os a sós.
Capítulo VI
UMA NOITE POR DEMAIS ATRAENTE
Naquela noite Felipe divertiu-se como nunca, pois há muito não conseguia unir o útil ao agradável, logicamente, tendo diante de si duas belas meninas fazendo-lhe sala e disputando-lhe a simpatia, lá pelas 20:00 horas chegou o pai de Vânia, foi feita a apresentação normalmente e, como este era apaixonado pelo futebol, os convidou ver o Fluminense jogar com o Botafogo, lá Maracanã no próximo domingo.
Ao passo que Felipe aceitou plenamente.Após isso ele chamou o mordomo e foi verificar se às ordens emanadas haviam sido cumpridas.
Sheila começou a flertar com Felipe para ver a reação que produziria em Vânia, vendo que esta se tornara vermelha, ela tocou a conversação para outro rumo, ela colocou um disco no toca-disco e dançou com seu predileto, esse, porém, na alegria em que se encontrava, não percebia a paixão que a jovem estava a lhe oferecer.
Passou-se a primavera, surgia o Natal e Felipe começou a sentir a chamada do amor em todos os pontos, e esse contato o aproximou mais da jovem, passou a ver mais Vânia e ela comportava-se realmente como criança, uma hora demonstrava estar louca de amor, mas logo demonstrava frieza sem qualquer explicação lógica. Felipe começou então a ter encontros secretos com Íris. Íris era um amor de menina, tinha por volta de dezessete anos; loura, muito culta, tinha um corpo que despertava inveja a muitas garotas de sua idade.
Felipe ficou empolgado com Íris e alternava as visitas; um dia por mera coincidência, Felipe passou de braços dados com Íris, Sheila cruzou com os dois; a jovem ficou por muito tempo a fitá-lo para em seguida virar o rosto com muita raiva e seguir seu curso.
Dias depois Íris escrevera um bilhete cancelando um encontro que tinha com Felipe, pois teria uma reunião naquela mesma hora em seu clube versando sobre a sua formatura (baile), e entregou à Sheila. Essa não entregando a Felipe, conversou com Vânia a respeito do assunto informando-lhe que Íris estava a namorar Felipe e esse estava também entrando no jogo dela.
Ela exclamou então para si: - bandida, de mim ninguém vai roubá-lo, ele é só meu e como tal deve permanecer, e tenho certeza de que ele vai ser meu. - (Dito isto em sua mente): - Sheila, detesto aquela menina, tenho um ódio tremendo por ela, não sei como ele foi entrar logo na dela. Sheila, desejo falar urgentíssimo com Felipe, embora saiba que nossas relações estejam meio desencontradas; como conseguirei isto?
- Oh! É muito simples, escreva um bilhete anônimo marcando um encontro. Escreva assim: Sou a moreninha que está nas nuvens por causa de você, a moreninha manda lhe dizer que deixe Íris e saberá encontrar na moreninha qualidade, amando-o muito até seus últimos dias.
- Oh! Mas é um absurdo o que você acaba de me propor.
Ao passo que retrucou Sheila:
- Guerra é guerra...
- Mas não a esse ponto, isto é rebaixar-se demais, escreverei somente o seguinte: Amo você, assinado a sua moreninha.
Por volta das 23 horas, quando Felipe chegou, Sheila deu-lhe o conteúdo, esse ao abrir, ficou pensativo para em seguida falar:
- Quem é essa maluca? Tenho certeza de que você conhece bem, pois foi você que trouxe até mim.
- É lógico que conheço, mas cabe a você, se for um pouco inteligente, descobrir. Agora dê-me licença, pois é muito tarde e já vou dormir.
Capítulo VII
O ACASO
... Rio, sol esplendoroso brilhando sobre a mais bela metrópole do Sudeste, alguém no convés de um transatlântico está agitado esperando que o mesmo siga o seu curso. O navio está apitando para partir, partido também está o coração de nosso jovem que vai a busca de novos horizontes, a brisa carioca já não o alegra, a vida está lhe fugindo a cada instante, seu coração é só angústia, sente-se como se fosse um verdadeiro pomar em tempestade; que depois que passa, deixa tudo destruído sobre a terra e nada mais serve.
Nesse momento esse é o aspecto que Felipe tem a melancolia ocupa seu dia-a-dia. Meu amigo leitor, Felipe partiu, por que terá sido? Ninguém realmente soube, sabe-se que ele, de repente caiu em crise emocional muito grande; mas a causa desta crise emocional até hoje é puro mistério... Foi uma viagem muito feliz, mas somente para seu companheiro de trabalho. Saíram do Rio de Janeiro por volta das 08 horas, quando o navio partiu, uma canção se fazia ouvir, ao lado dele, uma freira já colocava o rosário sobre as mãos e iniciava a orar.
Após breve oferecimento aos seus santos prediletos ela olhou nos olhos de Felipe e disse:
- Você vai a serviço ou vai aproveitar o carnaval pernambucano?
Daí em frente ele não mais conseguiu sossego, pois a bela representante de igreja não conseguia desligar o seu gravador, ela falava tanto que às vezes, ele confundia se era conversa ou simplesmente reza.
Durante a primeira noite Felipe disse para si: - Agora creio que vou descansar um pouco. Mas qual foi a sua surpresa quando ela deu-lhe um tremendo beliscão e disse-lhe:
- Não durma, pois se afundar você não pode escapar.
Felipe ficou um pouco aborrecido, mas não deu sinal. Luzia, era como se chamava a irmã, deu-lhe uma aula de primeiros socorros, o auge desta aula foi por volta de 1 hora da manhã, quando foi beber um gostoso café para espantar o sono.
O navio seguia seu curso normal com destino a Recife, ele teve, então, um sonho muito significativo...
Capítulo VIII
MIRAGEM
Estava Felipe andando, suavemente ouvindo o cantar dos pássaros e verificando o barulho que esses faziam ao farfalhar os galhos, quando ele, ao mirar o horizonte, pareceu ver Vânia.
Oh! Vânia, tão doce, tão meiga, tão jovem. Vânia, dos olhos morenos com sua boca pequena, seus cabelos enegrecidos como noite sem luar, com seus lábios de doçura, Vânia com toda a sua ternura. Ficou Felipe feliz e foi imediatamente ao seu encontro, mas já não era mais ela. Essa, já sem toda a sua ternura, ficou o nosso jovem estupefato com tamanha surpresa, pois que ao longe seus olhos pareciam sempre vê-la, porém sempre que a alcançava ela desaparecia, como que por encanto, de seu redor, até que, cansado decidiu sentar ao primeiro banco da praça e ouvir os transeuntes, acerca dela.
Entretanto, eles sempre afirmavam tê-la visto em suas caminhadas, ela nunca os falara sobre qualquer assunto nem parava em qualquer lugar; de repente, apareceu-lhe um viajante, alto, louro, com um sorriso convincente e bastante sorridente e disse-lhe:
- Não se preocupe em procurá-la ela está em minha casa, porém essa você não pode alcançar, talvez só em sonhos possa acontecer.
Não duvidou daquele navegante da estrada que falava com tom de cordialidade, porque estavam acontecendo fatos muito estranhos sem qualquer explicação lógica e ele não conseguira sequer descobrir a causa desses transtornos que ultimamente desabaram sobre si como uma avalanche. Porém, de repente, tudo se iluminara para ele, a noite tornou-se bem clara, a praça ficou rodeada de peões, então uma luz muito forte se fez surgir, deixando todos atônitos. Começou então a sentir em seu corpo uma caloria que aos poucos ardia como brasa, não imaginava qualquer fato que pudesse ter sido o causador daquela mudança brusca na temperatura, ficou ainda mais preocupado quando num relâmpago de tempo, viu na atmosfera umas nuvens que trocavam de coloração a cada instante dando origem a um forte aroma que por sinal era de grande sutilidade, à medida que se tornava mais freqüente em volta de todos e mais aromático em sua intensidade, era Vânia, ela tornou-se gradativamente visível, bem como todo seu corpo.
Estava totalmente esbelta em sua radiosidade, sua jovialidade refletia e irradiava de si harmonia nas mais altas oitavas; aproximando-se bem perto dele, sussurrou-lhe aos ouvidos de modo que ninguém em sua volta pudesse ouvir suas palavras que penetravam bem no fundo de seu tímpano e âmago, tornava-se ouvinte.
Disse-lhe:
- Cheguei porque você me desejou, vim até aqui porque não conseguia vê-lo em tanta aflição e desejo de ver-me, estou aqui porque a energia vibratória emanada de você tornou-se tão forte que conseguiu trazer-me aqui, mas o dever me chama e tenho que partir. Ficar seria a nossa ruína por completo. Acalme-se, pois em seu campo vibratório já existe uma outra corrente magnética de maior intensidade que a minha a ser formada dentro em breve, sendo que nem as sombras do infinito serão capazes de vos distanciar estando seus corpos causais sempre em contato. Tenho que partir, meu lugar já não é aqui, não pertenço mais a você, pois meu corpo não mais existe, só existe minha energia e esta é que faz irradiar a beleza etérea, minha mente ainda pertence a você, mas gradualmente deixará de influenciá-lo. Por isso, peço-lhe, encarecidamente, que siga o curso que o destino lhe proporcionará e creio que lhe será de bom grado, vá e não me chame, a não ser quando a solidão já não for uma argola de nostalgia e lembre-se sempre que cada gota de lágrima derramada por mim será como células, as quais multiplicar-se-ão, formando assim um novo corpo causal. Mas meu amigo, meu amado amigo, não é desejo meu ver-te assim tão triste, pois a tristeza sempre nos leva à solidão, vá, corra sem perda de tempo em busca de seu novo alento do seu viver e não se esqueça, comece a procurá-la, porque ela é sem dúvida a minha herdeira legítima e quando um dia a encontrar, será atraído como um ferro é atraído por um imã e, então, verá diante de você sua nova Vânia, não esta que você tem aqui, mas ela com todo o seu esplendor. Nesses dias o véu que cobre a sua ignorância será desfeito e Vânia, sua doce e meiga Vânia estará a seu lado, dando todo o seu amor, revivendo os mais belos momentos. Para o amor não existe passado, presente, futuro, pois com ele vive-se na eternidade.
Foi aí que ele acordou. Ao acordar ele sentiu-se ansiosamente perturbado e visivelmente contente por constatar que já se aproximava de Recife.
Estava perturbado em querer desvendar o mistério do seu sonho e seu real significado.
Viu então com exatidão a beleza das praias: Boa Viagem, Pina; enquanto isso, Josias lhe falava a respeito da vida noturna e o modo de vida do povo pernambucano.
Ao chegar ao cais do Porto pegaram um táxi e foram direto para Campo Grande, bairro a 10 min do centro, um bairro tradicional, o ponto de partida para Olinda, cidade a 15 min do centro, e que é ligada através de uma ponte sobre o Rio Beberibe. Não é um bairro bonito, devido aos mangues existentes nas proximidades, os quais ocasionam um verdadeiro exército de mosquitos, há uma favela bem próxima do bairro que é chamada Meraim, mas há também casas muito bonitas e tradicionais que dão ao bairro um jeitinho bem encantador. Era aproximadamente 1 hora da manhã quando eles chegaram à casa de Josias.
Como a família não esperava, foi a maior festa em torno de Josías. Felipe foi bem apreciado pelos presentes, porque Josías, em suas cartas, falara muito a seu respeito, sempre tecendo enormes elogios que nem condiziam com a realidade.
Capítulo IX
UMA TARDE INESPERADA
Ao amanhecer, logo que chegou ao conhecimento da redondeza que Josías se encontrava em Recife e trouxera um amigo professor de Matemática e Física e pós-graduação em ambas, foi um vai e vem muito natural, já que o pernambucano era por demais estimado e tinha um círculo de amizades muito grande.
Josías deu alguns presentes que trouxera; deixando Luís, Sérgio, Elisa e Eliete. - A mais bela das mulheres. - Muito felizes.
Após às 10 horas os homens ficaram no quarto que havia três beliches e as mulheres ouvindo música e preparando o manjar daquele dia tão radiante. Os homens, jogando xadrez, lendo ou tocando violão. O tempo passou, até que dona Leda disse:
- Todos à mesa.
Eram quase 14 horas quando à mesa estavam umas oito pessoas: Dona Leda, a matriarca, à testa, seu Ernesto à outra testa, Edson, Luís, Josias, Elisa e Sérgio, bem como os outros, que estavam lá, alguns tiveram que almoçar na 2ª etapa. Dona Leda fizera um cozido tão especial que poucos foram os que não repetiram a dose. Um cozido bem feito e regado a cerveja ou vinho deixa qualquer um dormindo (por ser muito forte).
Josías e Felipe, devido ao cansaço da viagem, foram os primeiros a adormecer e, logo após, os demais.
Como sempre, só os responsáveis pela faxina é que tinham que permanecer para pôr em ordem a cozinha, sorte que coube a Elisa e a Eliete.
Felipe ao acordar logo que procurou por sua toalha, a qual deixara em cima de um beliche, constatou que a mesma já não se encontrava mais no local, perguntou aos novos companheiros se alguém tinha visto ou usado, ninguém sabia de nada.
Josías, que acordou um pouco mais cedo e resolveu dar uma volta na cidade, também não achara o seu relógio modelo Sicura, relógio que dava na época um certo ar de grandeza para quem o tivesse usando. Ele o tinha colocado sobre a sua camisa amarela. Em síntese, eles descobriram que tinham sido roubados e só poderia ter sido na hora do almoço, porque ninguém teria audácia de pular num quarto com seis homens e selecionar o que iria roubar. Depois de terem verificado que realmente alguém entrara e que foram mesmo roubados eles foram analisar os prejuízos. Josías tinha perdido seu relógio Sicura e um tênis novíssimo, que só usara no dia da chegada.
Felipe perdera um suéter e dois blusões, bem como todo o seu dinheiro, Tuta teve que se contentar em arranjar outro rádio AM/FM e Luís, o seu violão. Após amplas gozações dos familiares e amigos presentes, resolveram sair em campo em busca de qualquer informação que lhes fosse útil. Todavia, passaram a tarde/noite colhendo dados, mas todos foram infrutíferos e tiveram que se adaptar a real situação.
No outro dia Felipe e Josías foram pela manhã até a praia de "Casa Caiada", praia que fica após Olinda, cuja característica principal é ter em toda sua orla, grandes coqueiros e também alguns bares típicos da região. Você dá seus mergulhos e quando se cansa vai lá e bebe uma água de coco bem geladinha ou toma um drinque; ou simplesmente sai da água e vai deitar-se bem debaixo de um dos inúmeros coqueiros e fica ali paquerando as mais belas garotas com seus biquínis tentadores.
Passaram toda a manhã nesse ritmo: mergulha, volta, uma caipirinha ou água de coco e uma paqueradinha... Quando já estavam bem avermelhados, não só pelo sol, bem como pelo efeito dos drinques, eles resolveram voltar para o almoço.
Ao amanhecer da segunda-feira, Felipe e Josías saíram em campo, em busca de trabalho com suas respectivas carteiras de professor e “currículos vitaes, passando em alguns colégios preenchendo formulários”.
Após isso, foram até uma loja de roupas e Felipe comprou umas três blusas, umas três calças, dois tênis e um par de sapatos, já que ficara desprevenido com o que acontecera no sábado próximo passado; foram depois a uma loja de carros e os dois compraram um carro Wolks ano 1969 financiado e de sociedade, voltando logo em seguida para casa.
Felipe, após o almoço, dormiu a tarde inteira, enquanto que Josías fora passear de carro com sua esposa Lidiane. Ela não conhecia Recife e ficou encantada com as belezas naturais que a cidade apresentava, foram até o alto da Sé de Olinda, de onde se vê toda a cidade, comeram a tradicional feijoada lá existente e dançaram um pouco, já que Josías sempre fora aficionado por dança.
À noite, Felipe resolveu pôr seus pertences em ordem arrumando tudo, mas teve uma surpresa, pois ao procurar sua mala Elisa lhe dissera que todas as suas coisas estavam já arrumadas no guarda-roupa com Luís no quarto ao lado.
Três dias depois, chegou um telegrama do colégio Lázaro Zamenof informando que as fichas de ambos haviam sido aceitas e eles deveriam ir ao colégio para que obtivessem informações mais detalhadas a respeito do assunto e formalizar a contratação. Felipe iria lecionar Matemática para 8ª série do 1º grau e 3ª série do 2º grau, enquanto Josías iria lecionar Química somente para a 2ª série do 2º grau. Um dia depois o diretor do colégio Carneiro Leão telefonou para Felipe informando que ele seria contratado para chefiar a disciplina de Física, a qual estava deficiente naquele colégio por falta de professores específicos.
Felipe ficou então com a seguinte carga horária: 2ª feira das 07 h às 11 h, no colégio Carneiro Leão, 3ª feira das 09 h às 16 h novamente no Carneiro Leão, quartas, quintas e sextas ele ficava no Lázaro Zamenof e sábado voltava pela manhã ao Carneiro Leão. Josías ficou somente no Lázaro Zamenof, aproveitando essa folga maior, ele se dedicava muito aos seus alunos.
Entretanto, após suas aulas ele se embrenhava na farra, pois o mesmo era aficionado a qualquer tipo de farra.
Era muito raro ele e Felipe não passarem à noite de um sábado em uma "boate" e chegarem a casa por volta das 10 h de domingo. Todavia, Felipe era mais de acompanhar e geralmente nunca cometia excessos em suas bebidas.
Capítulo X
AVENTURAS JOSIANAS
Josías era realmente um sujeito fantástico, ele, quando gostava de uma pessoa, dava até a roupa do corpo se preciso fosse para ajudá-la. Entretanto tinha um gênio muito raro, pois seu estopim, era muito curto, pelo seu jeito alegre e bonachão ele já conseguira conquistar todos os seus alunos e foi aí que começaram as dores de cabeça de Lidiane, sua mulher, pois quase sempre ele punha no "trepamis" como era chamado o Wolks comprado: uma aluna ou qualquer menina que ele tinha "ganhado" como se diz na gíria pernambucana e, ao chegar, altas horas da noite, Lidiane começava a censurá-lo e então as discussões se prolongavam até ao amanhecer. Em uma dessas andanças durante o ano ele conheceu uma loura excessivamente linda de nome Rosa a qual ele chamava de Rosinha. Ela tinha 17 anos, casada com um oficial R/2 do Exército e morava em Tejipió. Eles se apaixonaram e ele não admitia ficar um dia sem sua Rosinha. Com os fatos se evoluindo, tanto Lidiane quanto o marido souberam do caso, o marido então, tirou-a de Tejipió e colocou-a na vila do "IPISEP". O que fez nosso amigo?, simplesmente em uma noite em que bebera por demais, alugou cinco táxis e colocou os maiores beberrões que encontrou à noite e foram fazer uma serenata debaixo da varanda do "corno".
Aos primeiros acordes dos violões algumas pessoas vieram logo à janela para ver o que estava acontecendo e quando as melodias amorosas vibravam com as cordas dos violões e nas bocas dos elementos que estavam já cheios de "Serra Grande" (cana vendida em Recife e arredores), o povo logo compreendeu que era sem sombra de dúvida uma serenata para uma paixão proibida.
O marido de Rosinha veio logo à janela e começou a insultar o pessoal e especialmente ao Josías, começaram as trocas de insultos mutuamente e o marido de Rosinha, não se contendo, puxou o revólver e começou a disparar a esmo a fim de afugentar a camarilha de bêbados, todavia, Josías, que também estava armado com uma "Lugger", puxou sua arma e começou a disparar em sentido contrário.
Formou-se então um tremendo sururu que só terminou com a chegada imediata da polícia ao local, indo todos pára a delegacia.
Após terem sido ouvidas as partes, Josías pagou uma multa por fomentar desordem e o "corno" saiu mais desmoralizado.
Como o ocorrido teve grande repercussão, Josías foi suspenso do colégio e logo em seguida teve o seu contrato rescindido. Em conseqüência dessa serenata, Lidiane veio para o Rio de Janeiro, deixando Josías cada vez mais livre para preocupar o "corno" do tenente.
Dias depois ele estava com Felipe e duas garotas de transação, só que elas eram menores e tudo corria normalmente, quando ele resolveu dar uma chegada à casa de Rosinha, em lá chegando, ele estava com o carro a uns 70 Km/h freiando bem à frente da casa da sua Rosinha, desceu do carro e em altos berros para todos que estavam presentes ouvissem gritou:
- Diga que você não é puta. Diga que você não é puta! Sua filha da puta!
Quem estava perto tratou logo de entrar o mais rápido possível e fechar as portas, porque todos nas redondezas conheciam a fama de Josias e sabiam que o tiroteio poderia começar a qualquer instante.
Enquanto isso Felipe tentava a todo custo fazer com que Josas entrasse no carro, já que ele sabia o que poderia acontecer se alguém da família de Rosa viesse tomar qualquer tipo de satisfação, ele sabia perfeitamente que o tiroteio ia "correr solto" e já estava a imaginar as manchetes nos jornais do dia seguinte:
"Professor exaltado assassinou amante".
Ou então:
"Marido traído mata a tiros, o amante e suas companheiras menores".
Ele como detestava qualquer escândalo, já se via envolvido com repórteres tentando explicar seu envolvimento com duas menores. Mas depois que Josiías disse alguns palavrões e não aparecendo qualquer tipo de reação aos seus insultos a Rosinha e seu marido "corno", ele entrou no carro e deu partida para Olinda, indo encerrar a noite no Castelo do Rei, hotel dos mais famosos que existia naquela área.
Lá chegando, as garotas não queriam entrar, tendo em vista o acontecimento ocoorido anteriormente, naturalmente ficaram com medo que lhes acontecesse alguma coisa que não estivesse em seus planos, entretanto, após dialogarem deliberadamente sobre o assunto em pauta, o sexo foi mais forte e prevaleceu o desejo ardente de se amarem.
Após duas horas de aconchegos íntimos e com Felipe já bem mais tranqüilo quanto ao sufoco que passara do possível escândalo, saíram tranqüilamente e foram levar as garotas as suas casas.
Rosinha, depois da seresta, tinha sumido e ninguém na localidade sabia qualquer notícia a respeito; entretanto Josías era muito esperto e em poucas semanas soube, por intermédio de um barbeiro, que trabalhava na rua da mãe de Rosinha que ela estava em Vitória de Santo Antão, que é uma cidade que toda a população vivia ou ainda vive em torno da fabricação e exploração da “Serra Grande”, que é a melhor cachaça vendida em Pernambuco e arredores.
Ela estava morando com seu irmão que na época era leão de chácara de uma “boate” de má fama na referida cidade.
Houve o primeiro contato entre eles e quando ele foi à noite buscá-la houve o maior sururu no local. O irmão estava com dois leões de chácara e resolveram dar uma surra em Josías, a sorte dele é que estava com sua inseparável pistola 45 e seu soco inglês. Após alguns sopapos de ambas as partes e quando um dos leões puxou uma faca bem afiada, Josías não vacilou um segundo, engatilhou sua 45 e disparou, à queima roupa no primeiro elemento, o tiro pegou em cheio no peito, ele cambaleou e caiu por cima de algumas cadeiras. Os outos dois leões amigos do irmão da Rosinha também estavam naturalmente portando armas de fogo aí começaram o tiroteio. Minutos depois Josías saía em seu carro como se nada tivesse acontecido, com a mulher e o filho dela indo até uma praia chamada Pontas de Pedra, que fica distante uns 98 Km de Recife.
O caso repercutiu bastante no cenário policial local e Josías começou a ser procurado em toda a cidade de Vitória de Santo Antão e afins, bem como na cidade de Recife, em todos os pontos característicos que ele costumava aparecer.
Essa ida de Josías à Ponta de Pedra causou o maior rebuliço, porque todos os familiares dela pensaram que ela tivesse sido forçada a ir com ele, então, a polícia já acionada, fazia buscas em todos os lugares, mas ninguém da família dela conhecia essa casa de praia que Josías tinha, tampouco o local. Após umas duas semanas de pura lua-de-mel, ele, com seu irrequieto e costumeiro comportamento, mandou que Rosinha voltasse com seu filho para a casa de sua mãe.
...Foi por esta época que Felipe veio ao Rio gozar uma semana de férias, indo então até o Rancho Novo rever os amigos. Lá chegando foi recebido com grande alegria , então chamou o Célio, o computador, para ir até Recife, que como bom mineiro, logo aceitou, pois segundo ele: "de graça até uma injeção é bom".
Após uma semana de jogo de suéca, futebol, “boates” e almoço em sua homenagem, ele comprou as duas passagens e regressou.
A viagem foi normal, com Célio em todas as paradas fazendo exibição de seu prodigioso conhecimento matemático e com isso ele não pagava absolutamente coisa alguma.
Capítulo XI
A PRINCESA BATIDA
Após sua volta de Pontas de Pedra, Josías se apresentou a polícia com um advogado, pagou a fiança e respondeu o processo em liberdade e durante o desenrolar do mesmo, ele conseguiu através suborno que as testemunha de acusação não fosse depor e as que foram amenizaram sua declarações, como por exemplo: elas não reconheceram Josías como sendo o autor dos disparos que mataram o leão de chácara. Como conseqüência, ele foi absolvido no respectivo processo. Rosinha e seu marido tinham sumido e Josías vasculhava em busca de informações, mas ainda não conseguira levantar o novo endereço dela e numa dessas procuras ele conheceu Luíza, que era uma morena que em qualquer lugar poderia passar por uma índia xeroqui, devido aos seus cabelos negros e belos, sua boca um verdadeiro jasmim e sua voz fluía com uma perfeita ressonância melódica que encantava qualquer um.
Entretanto, a paixão que Josías tinha no momento pela sua Rosinha não o deixava perceber as qualidades da morena Xeroqui.
Num dia em que ele já tinha bebido uns três litros de vinho, foi até a Casa Caiada para ver Luíza e sair com ela. Ela insistiu em não sair devido ao estado etílico que ele se apresentava. Josías como era possuidor de um forte estigma de perssuação conseguiu convencer Luíza a ir com ele primeiramente até o Veleiro, que era um dos bares noturnos de maior atração na Praia de Boa Viagem, passaram um bom tempo por lá saboreando as famosas agulhas assa ccom água de coco e logo que saíram em direção a Casa Caida ele começou a desenvolver grande velocidade e seu velocímetro não parava de marcar 70, 80, 90 Km/h e lá ia ele ultrapassando todos que se apresentavam à sua frente, porém foi numa dessas ultrapassagens, bem em cima da ponte que separa Olinda de Recife que ele bateu. Estava a quase 110 Km/h e tinha começado a cortar um carro, quando surgiu um ônibus e um táxi juntos; ele, em seu reflexo não apurado devido ao efeito do vinho, tinha um traço de segundo para tirar o carro de cima do ônibus e jogar no táxi. Após a batida o ônibus seguiu em frente, o táxi, devido à violência do choque, ficou se projetando pela ponte querendo cair e caiu no rio, os dois passageiros foram projetados para fora, um quebrou o braço, machucando levemente a cabeça e teve escoriações pelo corpo, o outro arrebentou-se totalmente mas não chegou a morrer, o motorista ficou agarrado, preso ao volante e desmaiado com o carro no rio, Luíza machucara o joelho, o rosto e fraturara o braço. Josias, como por milagre só sofrera alguns arranhões e mais nada. Ele ficou preocupado com o estado de Luíza, parou o primeiro táxi e colocou-a dentro mandando-a para o hospital mais próximo. Com a ajuda de uma Rural que passou, ele e os ocupantes da Rural conseguiram trazer o motorista do táxi à superfície e depois levá-lo pára o hospital.
Ao voltar tanto o seu carro quanto o táxi, não estavam mais no local, tinham sido levados para a delegacia de Olinda; foi até lá e tratou de liberar o carro, mas como estava ainda um tanto alcoolizado o delegado não pôde conceder-lhe a autorização, ficando para o dia seguinte.
Ao amanhecer, após o café foi ele com Felipe tentar a liberação do carro, após pagar as taxas concernentes ao fato, contratou um guincho para levá-lo para a oficina mais próxima, foi aí que deu-se o inesperado. Ao dar uma vistoria no carro sentiu falta de seu revólver 38 e um anel que estava no porta luvas e de CR$ 600.00 voltou a falar com o delegado e o mesmo se mostrou surpreso e arredio ao fato e disse que nada podia fazer pois o carro dormira ao relento, então Josías disse que ali só tinha ladrão, o delegado pediu a ele que medisse suas palavras, aí ele foi além e disse que ali só tinha ladrão e corno; nesse momento o delegado se enfureceu e quis segurar dando-lhe voz de prisão por desacato a autoridade, foi num relâmpago de segundo que ele se virou e com seu soco inglês deu com toda sua jovialidade um soco na boca do delegado, o qual foi jogado ao solo com a mandíbula quebrada. O soco foi deveras tão potente que o delegado desmaiou!
Com isso proporcionou ter formado o maior fuzuê, um tumulto geral. Depois de Josias ser contido e autuado, Felipe telefonou para o advogado da família dele que entrou com um pedido de relaxamento e, pagando a fiança, Josías foi solto dois dias depois. Àquela altura do campeonato, o comportamento de Josías era um comentário geral entre os seus amigos e os mesmos não podiam conceber que um elemento de boa família, formado pela Universidade Católica do Rio de Janeiro pudesse agir daquela maneira.
Capítulo XII
O GRANDE PAQUIDERME
Vianei era realmente um grande Paquiderme na expressão real da palavra, 1m95 cm, 125 quilos, grosso, teimoso feito uma mula manca e completamente ignorante. Ele era um soldado que passara toda sua vida no eixo das fronteiras - Brasil/Bolívia/Colômbia/Venezuela. Não tendo portanto na época em que eu o conheci, muito entendimento da civilização e de convivênvia em sociedade; de repente é jogado no centro da sociedade pernambucana. Logicamente, sua adaptação ao novo estilo de vida ia se tornar difícil, entretanto, ele possuía algo de muito bom junto a si, primeiramente, sua mulher que era uma pureza em forma de gente, um coração do tamanho do Brasil, duas filhas lindíssimas que deixavam os gaviões da grande área de Recife agitados ao vê-las passar. Tássia e era muito bonita, simplesmente linda, não podemos dar qualquer outro adjetivo para a mesma no tocante à sua beleza, seu corpo deixava a todos excitados quando ela passava e com suas pernas radiantes, aloprava qualquer neófito no amor; entretanto, a nossa jovem tinha apenas 16 anos, era desprovida de qualquer cultura e também não tinha experiência alguma de vida.
Taís, sua irmã gêmea, também era muito bonita, logicamente por ser gêmea, tinha as mesmas características de Tássia só que tinha um grave defeito, era muito fútil, egoísta e invejosa.
Josías e Felipe costumavam passear de carro na área de Tejipió e, numa dessas investidas, conheceram as garotas e daí em diante foi uma constante dor de cabeça para o nosso “Paquiderme” e Jandira, sua mulher.
O pior de tudo foi que a fama de Josías chegou primeiro que ele à casa de Vianei e, quando num belo dia, os dois gaviões foram dar um rasante à casa dele, esse os recebeu com aquele olhar de amazonense desconfiado, conversaram bastante, pois Josías sabia sempre como conduzir uma conversa amistosa, sempre conseguia levar para o ramo de assunto que o adversário gostasse. Tássia muito envolvida pelos conhecimentos da vida de Josías apaixonou-se, namorando-o contra o gosto do pai, embora a mãe da menina gostasse por demais do nosso amigo.
Vianei começou a ficar preocupado com as investidas dos dois jovens, um com uma fama que superava tudo de ruim e que um pai não desejava para qualquer filha ou amigo de seu filho. O outro, embora tivesse qualidades que muito o recomendassem para qualquer sogro, era amigo constante de um elemento de má fama; não era pois, recomendado para sua filha.
As constantes investidas Josianas e Felipianas sobre suas filhas estavam deixando o nosso bom Paquiderme completamente exasperado. Quando um dia ele ao chegar a sua casa, pegou em flagrante sua querida Tássia aos beijos e abraços, ou seja, no maior sarro com o nosso “gavião”; ele não teve dúvida “baixou o pau” em ambos e aí “o pau cantou”, ele com seu corpo de hipopótamo, “baixava a porrada” à torto e à direita e Josías sentindo já os efeitos dos socos não teve outra opção, puxou a sua pistola engatilhou e foi nesse exato momento que Tássia se pôs à frente, pois sabia perfeitamente que Josías não vacilaria um segundo para disparar. Logo após os ânimos terem sido serenados, Josías e Felipe voltaram a Tejipió, a fim de curtirem o resto da noite e comentarem o acontecimento; e foi justo naquele dia que eu conheci uma das mais lindas morenas pernambucanas que já vi em minha vida. Estavam eu, Felipe e Josías no Cantinho do Estudante, cantina onde serviam um gostoso vinho feito de canela e algumas iguarias especiais da terra, nós estávamos tranqüilamente saboreando um gostoso quitute, quando uma voz sutil e suave se fez ouvir com a seguinte pergunta:
- Você sabe qual é a capital do Nepal?
Suas colegas, todas se manifestaram respondendo negativamente e ao mesmo tempo se interrogavam onde ficava esse país?
Josias também não sabia, foi aí que eu disse perguntando:
Posso ajudar?
Todas voltaram os olhares para mim e nesse exato momento vi naqueles olhos negros lindos, uma doçura imensa, a qual deixou-me magnetizado por completo, seu olhar foi mais forte e penetrante que eu tive que me render e então disse-lhe?
- Você quer saber ou não qual é a resposta?
- Se você souber dizer-me ficarei imensamente grata.
Então eu disse:
- O Nepal é um país Asiático que fica entre a Índia e o Tibet, a sua capital chama-se Katimandu. No Nepal tem-se o culto da deusa viva, que é uma menina escolhida entre as famílias nepalesas; de tempos em tempos, há a coroação de uma menina e na ocasião ocorre uma grande festa na cidade, a qual é regada com muita cachaça. A deusa é conhecida pelo nome de Kumatre Real de Katimandu.
Ficamos então amigos e no mesmo dia, deixei-a em sua casa, e conheci sua família que era composta de mais três meninas, uma mais velha dois anos e duas mais jovens, dois irmãos que já tinham passado pela vida militar; Um bem jovial, educado, inteligente e de boa cultura geral, o outro não tinha todos os predicados do irmão, sendo um pouco esquisito, apesar de também ser boa pessoa.
Toda vez que Josías ia ver Tássia, às escondidas do nosso “Paquiderme”, eu e Felipe íamos também. Sendo que eu ia ver Irinete que era meu chamego natural e para tentar conquistá-la. Entretanto ela gostava somente de coloquear e quando eu puxava o assunto para meu interesse, namoro, ela logo “cortava o meu barato” e minhas investidas tornavam-se infrutíferas, voltava planejando como ia fazer para conseguir conquistá-la.
As semanas foram passando e eu fui mais e mais me envolvendo com aquele rostinho meigo... Até que um dia explodiu de vez o confronto Josías x Paquiderme, porque ele quis raptar a jovem Tássia. Foi um “bololô” tremendo e, como tanto minha pessoa quanto Felipe não gostávamos e não gostamos de confusão, nos afastamos um pouco de Josías.
Deixamos de estar sempre presente em suas confusões, porque erámos o “termômetro regulador” de seu “estopim”, exercendo sobre ele uma grande influência. Nessa mesma época Felipe veio em definitivo para o Rio de Janeiro, ficando eu mais apegado aos estudos do que à boêmia pernambucana. Um mês depois Josías tinha feito prevalecer a sua vontade e conseguira dobrar o pai da menina e, resolvendo comemorar isso com um gostoso churrasco, pediu-me o carro emprestado e foi à luta. Quando cheguei, por volta das 07:00 horas, havia um recado que ele estava me esperando no churrasco de confraternização. Fui até o Sancho, chegando por volta de 19:40, bebi duas doses de "uísque" com água de coco e degluti um gostoso churrasco, dei um alô a todos, depois dancei um pouco, após a dança disse a Josías e particularmente à sua Vênus De Millus:
- Bem, mocidade, eu agora vou ouvir uma programação de minha querida rádio Deutschewelle que vai começar daqui a pouco e depois estarei aqui com vocês.
Não fazia 20 minutos que estava no meu carro parado em frente à casa de Tássia ouvindo o “alô amigos” que era uma programação levada ao ar aos sábados, quando, de repente, minha linda princesa chegou e encostou do lado do carona e perguntou-me:
- É você mesmo Fábio?
- Eu tomei até um susto, porque estava completamente absorto a ouvir as notícias da rádio. Ela não estava radiante, pois que seu rostinho estava tão triste e esse aspecto dava uma atração tão magnética e fantástica. Meu primeiro desejo foi pô-la no carro, abraçá-la, beijá-la intensamente, sufocando-a completamente com meus abraços e beijos, fazendo-lhe bastante carinho, entretanto, como ela não era nada minha, nem uma simples namorada, contive o meu ardente desejo a ponto de explodir, tentei ser um pouco indiferente dei-lhe aquele alô sem vibração e iniciamos um diálogo:
- “Hello Girl?”
- Como está você?
- Vou tentando passar a vida e você, como está?
Disse-lhe:
- Comigo está tudo Ok.
- Tem certeza?
- Por que não deveria estar?
Então ela disse:
- Porque conheço alguém que estava todos os dias bem no portão lá de casa e de repente sumiu sem explicação alguma.
Disse-lhe:
- Tive muitos problemas e também não desejava ver-te apesar de sentir muito a tua falta.
- Não mais que eu - disse ela, sem mais nem menos.
Então, respondi simplesmente:
- Não é o que parecia, porque você nunca deu atenção aos meus intuitos, achando que ainda não estava na idade.
Disse-me:
- Agora é totalmente diferente e se você ainda me quiser...
Intuitivamente abri a porta do meu coração para que seu amor pudesse entrar e,
Disse-lhe:
- Vamos conversar mais tranqüilamente.
Ela ficou meio indecisa, mas com meu jeito meigo tranqüilizei-a, então entrou com seu perfume suave, fazendo o carro tornar-se mais aromático.
Fomos para o clube do Wolff, que ficava a uns 20 Km de Tejipió e lá dançamos bastante e após alguns “drinques”, somente eu, pois ela não bebia qualquer espécie de bebida alcoólica, voltamos ao nosso diálogo inicial. Ao voltarmos, ela já era minha garota de fé. Fui direto para a casa dela, enfrentar a mãe, que, àquela altura do campeonato, já deveria estar preocupada com a longa ausência da filha. Quando parei o carro, uma de suas irmãs veio logo dizendo:
- Irinete! Mamãe estava super preocupada contigo e como é que você dá uma dessa?
E nesse exato momento sua mãe apareceu. Ela automaticamente tornou-se vermelha, mas eu não dei-lhe tempo para começar a falar, tendo em vista, que eu já conhecia muito bem o estilo de pensar pernambucano e fui direto ao assunto dizendo:
- Boa noite minha senhora, eu conheci sua filha, gostei muito dela, vim aqui conversar com a senhora, a fim de oficializar as nossas relações.
Ela foi pega assim de surpresa e eu continuei o meu ataque para não deixá-la falar.
- Como a senhora sabe, é bem melhor estarmos em casa do que estarmos na rua dando motivo a falatórios.
Mas, ela disse-me:
- Minha filha tem apenas 14 anos, é quase uma criança ainda, não tem ainda idade para essas coisas e principalmente namorar em casa o que acarreta responsabilidade, não é verdade?
Disse-lhe:
- Mas, tudo na vida tem um começo, uma primeira vez, a senhora não concorda?
Irinete não falava nada, estava mais vermelha que um camarão e para dar-lhe mais coragem segurei a sua mão; então dona Vera disse:
- Por favor, vamos entrar e conversar dentro de casa.
Conversamos longamente em uma mesa redonda, dona Vera, suas outras três filhas e logo depois seu filho chegava e também me era apresentado, foi um verdadeiro conselho de Ministros, mas ao término do mesmo eu tinha sido aceito na minha investida, conquistei e fui conquistado pela família que recém conhecera. O avançado da noite já se fazia sentir, despedi-me de todos e fui apanhar Josias, o qual àquela altura já deveria estar muito preocupado com minha ausência. Em lá chegando bebi uma dose de vinho, em seguida partimos para nossa querida república, durante o trajeto fomos conversando sobre o nosso grande dia. Enfim, ele tinha conseguido Tássia e eu Irinete, ambas naquela noite triunfal. Dias depois, Felipe foi definitivamente para o Rio de Janeiro deixando-nos de vez.
Com sua partida, o grupo tornou-se menos social, visto que ele era o elemento equalizador dos nossos problemas.
Em maio do mês seguinte eu e Josías fomos almoçar com Vianei e sua família, o tema reinante foi a eleição que já se aproximava para Vereador e Prefeito, da cidade de Recife.Josías já estava trabalhando como cabo eleitoral e, por conseguinte, estava tentando arranjar adeptos para sua causa; a cerveja rolava fluindo normalmente até que alguém disse:
- O almoço está servido.
Fomos à mesa e foi aí que eu constatei que Vianei, ainda mantinha o hábito de sertanejo rude, bem brejeiro, ele simplesmente colocava a mão no prato, juntava o feijão com arroz e os demais ingredientes e faziam um bolo com os alimentos e o levava à boca de forma rudimentar. Eu fiquei ridicularizado com aquela cena, visto que não admitia em pleno coração de Recife que uma pessoa se alimentasse daquela forma e, principalmente com visitantes em casa. Ele tranqüilamente absorvia aquele bolo de alimento feito a mão e degustava, ora sim, ora não uma dose cavalar de Brahma. E eu fiquei meio sem jeito porque nunca tinha visto ninguém se alimentar daquela maneira, mas eu pensei: No Castelo o Castelão faz o que bem quer e o que desejar. Após a sesta, Josías ficou e fui eu ter com minha princesa. Lá chegando, o assunto estava versando sobre o livro “O Pequeno Príncipe”, do escritor francês Sant Exuperie, todos estavam animadíssimos e cada qual dava sua opinião sobre o mesmo, assim que cheguei Irinete veio ao meu encontro e todos logo exclamaram:
- Aí Irinete, está numa boa!
Ela ficou completamente encabulada tornando-se logo avermelhada. Logicamente para dar cabo àquela situação, a peguei pela mão e fomos para o meu carro, aí passamos a tarde e pouco da noite a conversar e ouvir as melhores melodias do momento. Lá pela noite à dentro a deixei, indo para minha república... No outro dia todos nós da república ficamos pasmados com uma notícia que chegara de Felipe naquela manhã, porque Felipe simplesmente rescindira seu contrato com a PUC do Rio de Janeiro. No mês seguinte deixou o Rio de Janeiro com destino a Franckfurt, na República Federal da Alemanha e, desde aquela época, ninguém mais o viu ou tivera notícias de sua parte e ele só veio dar o ar de sua graça uns oito anos depois, quando novamente viemos a manter contato novamente.
Antes desse tempo localiza-lo várias vezes, contudo, não obtive qualquer espécie de sucesso nesse sentido, apesar de toda nossa amizade, então, decidi esperar e deixar o tempo e a poeira dos acontecimentos passarem. Até o presente momento ele não quis me confidenciar o que acontecera, mas tempos depois de nós nos reencontrarmos vim a ter conhecimento da verdade que o fez partir.
A vida em nossa república, tornou-se pálida e sem entusiasmo porque Felipe conseguia irradiar uma grande energia em torno de nós, até hoje não sei como ele conseguia manter o seu equilíbrio interno, transparecer e irradiar um magnetismo tão vibrante, porque todos nós sabíamos de seu profundo amor não correspondido e quando Célio “O Computador” voltou a Recife de férias, todos nós ficamos sabendo do casamento de sua Vênus De Millus, “Crislaine”, não foi muito difícil adivinhar a causa de sua partida brusca.
Capítulo XIII
O GRANDE REENCONTRO
Houve um grande momento de silêncio naquela tarde em que Felipe encontrou Crislaine, após doze longos anos de completa separação entre ambos. O sol estava pairando no horizonte e algumas pálidas sombras da noite já se faziam presentes, mas os raios solares ainda se faziam prevalecer. Felipe estava passeando na Quinta da Boa Vista, ele estava justamente admirando os belos tigres de bengala, quando, de repente, ao olhar para o lado direito, ele pasmou-se e seu coração foi quase a 100 por hora, então, ele sentiu que naquele momento todo o seu antigo amor retornara e ele estava preso ao fascínio que Crislaine sempre conseguia causar sobre ele.
1) Então, ele “came up to her and said:
- How are you Crislaine?”
Ela, que até aquele momento apenas esperava a definição Felipana, respondeu ao seu cumprimento e um grande sorriso se fez em seus lábios. Ele a convidou para beber um “Suco de Laranja” no bar da Quinta e ambos ficaram dialogando sobre suas vidas.
Ela contou que casara recentemente e que estava voltando de lua-de-mel, seu marido era um grande comerciante do Rancho Novo e atualmente estava morando em Miguel Couto, Nova Iguaçu. Relembrou-lhe com pesar o seu noivado com Samuel e sua morte súbita em acidente automobilístico. Passara momentos difíceis, pois naquela época estava loucamente apaixonada por Samuel, entretanto, um dia em que ela estava jogando basquete, um jovem...
2) Came up to her and started a conversacion:
Eles logo ficaram amigos e meses depois ele a pediu em casamento, Felipe somente ouvia calado, Crislaine falando e seu coração estava ardendo, ele sentia-se fervendo. Em sua mente, só via aquela menina que ele sempre amara; estava a ponto de explodir de ciúmes e entretanto em seu âmago, ele já cheio de lágrimas, interiormente começou a chorar.
1) aproximou-se e disse: Como está você, Crislaine?
2) aproximou-se e começou uma conversa (diálogo).
Então, ele narrou-lhe toda a sua vida e que ele estava para voltar a Recife com seu grande amigo Célio, o computador, ele com lágrimas nos olhos, disse-lhe que desde quando a viu pela primeira vez, ela simplesmente passou a ocupar a sua mente e que o seu corpo estava cedido a ela. Entretanto, por outras razões, ele mesmo não conseguira se declarar anteriormente. Falou-lhe a respeito de Vânia, que perdera por suicídio, ela ouvia tudo sem nada dizer-lhe, somente ouvia sem nada optar ou argüir.
Após quase três horas de imenso desabafo de ambos, eles chegaram à seguinte conclusão: irremediavelmente estavam perdidos um para outro.
A despedida foi simplesmente dolorosa para Felipe, ele sentiu grande diferença entre a alegria do reencontro contra a amargura angustiante da separação. Ele reteve o seu telefone e endereço por grande espaço de tempo, depois ele se foi com sua imensa melancolia.
Dias depois, quando ele chegou a Recife com seu amigo Célio, foram à casa de Josías, aí teve conhecimento da mais nova história que ele tinha aprontado na última semana: Moreno, João Maria, Natanael, Alexandre e Josías tinham ido passar o fim de semana em Ponta de Pedras, a finalidade era somente pescar algumas lagostas e aquele que pescasse com arpão, dar imenso mergulho perto do canal e pescar lagosta e quem pescasse menos era o que iria pagar as despesas referentes à bebida. O sábado estava tranqüilo até que eles foram para um aniversário. Eram já quase por volta das 23 horas quando lá compareceram e, logicamente, ainda estavam sobre o efeito do álcool, mas tudo transcorria normalmente e a bebida, corria solta, todos na festa dançavam quando, de repente, alguém desligou o interruptor das lâmpadas, então, na completa escuridão, alguém deu uma dedada na garota que estava dançando com Josías, no ato complementou com as palavras, que rabo mais lindo, a menina reagiu imediatamente pensando que tivesse sido Josías; ela deu-lhe um tremendo tapa e gritou papai, esse homem está abusando de mim, a reação de Josías fora quase que instantânea, Josías deu um soco tão forte na menina que ela foi cair junto a um sofá e o pai dela já vinha com sua peixeira na mão; os participantes da festa viram e não quiseram esperar para saberem o que ia acontecer: justamente porque naquela completa escuridão ninguém queria arriscar levar uma peixeirada assim sem mais nem menos. Eric puxou rapidamente sua pistola e deu dois tiros na sala e a confusão foi completa, o pai da moça retrocedeu e Josías saiu correndo e acabou a festa.
Na volta é que eles foram descobrir que Natanael, estava querendo conquistar uma linda gata, mas, a mesma não estava dando bolas para ele, então quando a luz “Went Out”3, ele para deixá-la vexada, deu aquela dedada, mas, calculou mal a direção e seu dedo que foi parar bem no traseiro da filha do dono da casa. O episódio foi serenado mas não superado, contudo, todos voltaram naquele mesmo sábado, porque não havia qualquer clima para eles permaneceram naquela praia. Meses depois, quando Josías teve que voltar a Pontas de Pedras, foi forçado a correr cerca de 8 Km, porque o pai da referida jovem estava com uma tremenda peixeira em seu encalço; só não o matando porque ele foi rápido em seu raciocínio. Josías estava num quarto que fica em cima de um barzinho no maior sarro com a irmã de Dalva que era a outra filha do pescador local que ocorrera o episódio da lâmpada apagada, quando ouviu alguém assoviar, ele não teve dúvida, pois era o código combinado com jovem pescador amigo seu de longas datas, pegou suas calças, sapato, isso tudo com tremenda rapidez e não quis arriscar sair pela porta principal do quarto, sua única opção era abrir a janela que dava acesso à estrada e pular; ele ainda ouviu o barulho que o pai de Lisandra (irmã de Dalva) fazia batendo com a faca na porta e gritando que ia matá-lo. Correu até Tejucupapo que é a localidade mais próxima de Pontas de Pedras, mas o interessante é que qualquer carro que ele pressentia vir no mesmo sentido, imediatamente se embrenhava na mata existente em ambos os lados da estrada, só saindo quando via que não havia qualquer perigo. Ao chegar em Tejucupapo, pegou logo um ônibus para Recife, onde bebeu uns 11 chopps para comemorar o episódio, indo em seguida procurar a Rosinha a fim de deixar escapar o nervosismo do dia. Foi aí que tocou um barata voa em nossa república e pouco a pouco cada qual foi buscando o seu peculiar destino.
Josías, apesar de suas loucuras, fez um concurso para a Polícia Federal, sendo aprovado entre os primeiros, entretanto não conseguiu admissão, tendo em vista o seu tão costumeiro comportamento já conhecido. Decidiu, então, vir para o Rio de Janeiro e estabeleceu-se no Rio comprido. Alexandre resolveu ser fazendeiro levando sua Nadjane para o Mato Grosso. João Maria, o mais sábio do grupo, foi para a Embratel e, por incrível que pareça, eu fiquei sozinho. Como não tinha com quem falar ao voltar do colégio, fui paulatinamente, talvez por essa falta de comunicação, veio-me chegando aos pouco o famoso “Homesick” e baseado nesse Homesick é que tornei-me muito mais assíduo à casa de minha musa. (Homesick = saudades de casa).
Pouco a pouco fui apaixonando-me por aquela moreninha a qual parecia uma linda índia Siux. Meu envolvimento foi se aprofundando, já estava quase que noivando, quando de repente fui classificado na EsSa (em Três Corações - MG) para comemorar minha saída resolvi dar uma festa de despedida na república, convidei meus companheiros da repartição, marquei o dia da viagem para sexta-feira e comecei a comentar com as minhas futuras cunhadas e no referido dia teve até discurso. Entretanto, após o encerramento, fiquei muito triste, pois já sabia que a partir daquele momento eu já estava em condições de viajar, intuitivamente a tristeza começou a bater às portas do meu coração. Na tarde em que eu parti, minha vontade era simplesmente ficar, porque, na realidade, como nos disse o magnífico escritor e poeta libaneês Gibran Kallil Gibran, “ o dia da partida é realmente o grande dia do encontro”. Fiquei matutando sobre os fatos que ocorreram comigo e com meus amigos da república desde o momento que chegamos a Recife, a partir do qual travamos conhecimentos sobre as aventuras de Josías, e por falar em Josías, veio-me a lembrança de quando ele teve que casar à força com Tássia na referida eleição, em que seu amigo foi eleito. Josías tinha desaparecido com Tássia, só aparecendo quase no final da tarde, às portas do término da eleição, como seu aspecto era cansativo eTássia, embora cheia de júbilo e alegria extasiante, demonstrava uma certa inquietação, eu logo percebi o que tinha ocorrido, agora era só esperar o desfecho.
Quando estourou a bomba, Vianei ficou como um touro louco e Josías foi chamado à razão. Vianei chamou-o e a discussão foi reinante e a gritaria e histerismo tornaram-se generalizados. Gritos histéricos das suas filhas, mulher e amigos no local tornaram o ambiente muito confuso. Os vizinhos tentaram amenizar, mas a fúria de Vianei era estrondosa, Vianei puxou de uma faca que tinha quase três gumes, imediatamente, como um bom nordestino, encurralou seu adversário contra a parede e gritava alucinadamente quem entrar morre também, ninguém tinha a mínima coragem de se aproximar e tentar desarmá-lo, no exato momento em que se aproximou de Josías para dar a primeira estocada, Josias puxou de sua pistola Lugger disparando no pé de Vianei, gritando após o disparo:
- O próximo será na cabeça, seu filho da puta.
Vianei, tomado de surpresa, estancou de repente. Nesse lapso temporal que a ocasião vislumbrou, Tássia aproveitou o ensejo que o momento apresentara e agarrou-se ao pai, então, a turma do “deixa disso” logo entrou em ação, a fim de que Vianei, não morresse estupidamente.
No outro dia, por incrível que pareça Josías telefonou para Vianei dizendo que iria a sua casa por volta das 20:00 horas. Vianei disse-lhe que se ele fosse ele morreria, então, morreremos os dois.
Às 19:00 horas daquele mesmo dia, Josías telefonou novamente dizendo ao Vianei:
- Estou saindo para nós resolvermos este assunto, estou disposto ao diálogo, vou predisposto à paz, mas se você quiser guerra também estou preparado para ela. O que você me diz?
Vianei ainda estava traumatizado com o acontecimento e não admitia que sua querida filha perdesse sua honra e nada acontecesse ao seu difamador, então, respondeu de imediato:
- Se vieres, um de nós morrerá, batendo em seguida o telefone.
Eric pensou, pensou, e achou que não valia a pena medir força.
A partir daquele dia, começou a utilizar um sistema de rádio que possibilitasse ver Tássia tão diariamente quanto possível. O tempo foi passando e conseqüentemente tinha que haver uma solução para o caso, porque Tássia já estava com sua barriga bem acentuada. Então, Vianei resolveu tentar esquecer seu desejo louco de matar e enviou um recado para Eric, dizendo que estava aberto ao diálogo, que ele fosse até sua casa. A princípio ele pensou que não haveria clima de animosidade e quando Vianei pediu que ele entrasse, ele, meio prevenido, entrou e esperou o desenrolar dos acontecimentos.
A família toda reunida em volta do seu grão-vizir e o diálogo começou...
Eu estava cada vez mais apaixonado por Irinete e já estava havendo uma certa preocupação por parte de sua mãe, visto que eu já estava me tornando um carrapato e quando eu saía com ela, não podia namorar um pouco que quando chegasse era aquele interrogatório. E quando nós já estávamos quase noivando aconteceu o inesperado, fui eu transferido para Minas Gerais, especificamente para Três Corações. O fato era irreversível, então, rendi-me às evidências e providenciei tudo quanto fosse possível para quando eu saísse de Recife. Meus amigos resolveram fazer uma festinha de despedida, marquei minha viagem para sexta-feira e logo em seguida enviei meu carro para uma oficina a fim de que fosse feita a necessária revisão.
Na quarta-feira foi feita a minha despedida oficial no quartel e à noite meus amigos fizeram uma festinha em minha homenagem.
E durante essa noite eu não sabia se ficava alegre ou triste. Alegre porque meus companheiros de república irradiavam felicidade, não pelo motivo de eu ir embora e sim pela amizade comum a todos os presentes. Alguns “drinques”, The Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley e para completar algumas meninas bonitas, que sempre iam à república, também contribuíam para que houvesse clima de felicidade no local. Mas, por que a tristeza? Simplesmente por ter que partir e deixar para trás todos os momentos vividos junto com Irinete, as nossas farras nas pequenas praias do litoral pernambucano, as fases e contra-fases de Josias e, por que não falar, dos meus soldados, aos quais eu ensinei judô e dava aula de nossos assuntos militares.
Irinete, à medida que o tempo foi passando naquela noite, eu a sentia cada vez mais angustiada e pouco a pouco era notório ver-se a melancolia fluir em seu semblante.
Na noite de quinta-feira fiz algumas compras de última hora e fui dormir cedo pois o meu desejo era de sair lá pelas 08 horas, bem depois do café. Aproximadamente meia noite e vinte, um carro da polícia chegou lá em nossa casa, perguntando se ali morava algum sargento de nome Fábio? Quem havia atendido respondeu que sim e perguntou qual era o problema?
Um dos detetives disse que meu carro tinha sido roubado e que os elementos capotaram com o mesmo e estavam todos presos. Aí foi aquele fuzuê! Como foi ?, quando foi?... Etc. Em síntese levei o resto da noite para solucionar o caso.
O que foi o seguinte: Na tarde de quinta-feira os dois mecânicos aprontaram o carro e fizeram a revisão final, após a revisão final eles resolveram testar o carro, após o teste, uns traguinhos aqui, um traguinho ali e o tempo foi passando e eles “enchendo o pote” e partiram para um forró em afogados.
E foi na volta que, já cheios de “goró”, capotaram com o carro. A polícia, que vinha na mesma direção encostou para ver o fato e fazer a ocorrência viu que eles estavam sem os documentos do carro, imediatamente os prendeu e os levou à delegacia de Olinda. No interrogatório eles disseram que o carro pertencia a mim e deram o endereço.
Chegando à delegacia fiz um trato com eles, o qual constava do seguinte:
I) Eles indenizariam o prejuízo do carro por completo.
II) Consertariam o carro.
III) Dariam o carro para Josias, que me enviaria o mesmo.
IV) Em conseqüência desses itens eu retiraria a queixa, eles seriam soltos imediatamente, mediante esse trato eu retirei a queixa e eles foram soltos no dia posterior e eu viajei com destino a Belo.Horizonte. Logo que lá cheguei, mal tive tempo de jantar, peguei um ônibus para Três Corações. O frio na época era intenso, tão intenso que tive que beber alguns goles de run para aquecer o corpo.
Caxambu, Combuquira... Três Corações enfim. O ônibus cruzou a ponte sobre o Rio Verde e a cidade surgiu em leque a minha frente e se você olhar logo à direita, então vai dar para distinguir a tão famosa EsSA. Escola dá tantas alegrias a todos aqueles que por lá passam, e que em toda a sua vida jamais a esquecerão.
É um ritmo muito forte, desde a inevitável alvorada até o toque alentoso do silêncio, o qual convida a todos a colocar suas meditações em dia sobre os seus travesseiros. Cheguei lá com uma carta de recomendação, mas aluno é sempre aluno e tem que andar sempre no ritmo de escola e foi o que logo fiz.
Quando lá cheguei ganhava Cr$ 66,00 dos quais Cr$ 25,00 era para pagar a prestação de um sofá, Cr$ 18,00 eu enviava para manutenção da família, Cr$ 10,00 pagava minha lavadeira para ter todos os meus uniformes em dia. Os Cr$ 13,00 restantes ficavam para os compromissos do mês, tais como, livros, um jantar fora e uma escapada na Rua 40, a famosa e decantada Rua 40. Às vezes, não me sobrava absolutamente nada e passar o mês era um sufoco total.
Foram quatro meses e 18 dias num ritmo completamente alucinante de aulas, Ordem Unida, exercícios no campo e uma Educação Física forte e muito técnica. Os exercícios no famoso Atalaia pareciam uma realidade profunda e se aproximava de uma verdadeira batalha de guerra.
Era um fato muito raro quando na volta do campo, às sextas-feiras, não houvesse qualquer aluno baixado à enfermeira ou fosse levado às pressas para o hospital mais próximo. Entretanto, todos gostavam e gostam da EsSa, ela tem um magnetismo ativo e o mesmo torna-se residual quando você a deixa.
Durante o período que por lá passei, enviei algumas cartas para minha princesa, eis algumas que selecionei. O mais engraçado é que algum tempo depois, ela, com toda a sua família, veio para o Rio de Janeiro e eu após o término do curso voltei a Recife e, até nos casarmos, a única alternativa foi a correspondência, a qual dava ao novo noivado um tom mais romântico e melódico.
Capítulo XIV
COMO CONHECI FLÁVIA
Eis que de repente, atravesso o Rio com o “short” azul e a camiseta branca e vou saracutiar pelo outro lado, lá ia eu à procura de emoção. Por quê? Eu não sei. Mas sei que gostava de ver diariamente uma pequena loira que morava do outro lado do rio, passava eu todas às tardes só para ter o prazer de vê-la, mas simplesmente nada acontecia de sua parte, porque era muito orgulhosa e eu muito tímido e não era possível conseguia romper aquela barreira, embora sabendo que havia uma atração recíproca. Porém, nos costumeiros passeios, notei que em determinada rua, sempre que passava ouvia alguém dizer: - um, dois, um, dois... A princípio não pensei que fosse comigo, entretanto aquilo foi tornando-se um hábito, toda a vez que passava naquela rua alguém dizia bem alto: - um, dois, um, dois... etc. Um dia, estava completamente aborrecido e querendo pelo menos vê-la, tinha certeza que meu mau humor iria embora. Então, fui até o outro lado do rio com aquela finalidade, quando passava pela citada rua, ouvi mais uma vez aquele famoso: - um, dois, um, dois... etc. Aí parei, aproximei-me da casa donde vinha aquela voz e iniciou-se um pequeno “rebu”, porque na época eu achava que um simples cabo do exército era grande autoridade! Aí logo veio a mãe de uma das meninas e formou-se um círculo em torno de mim e em volta do portão: - foi você; - não fui eu, - eu já disse que foi. Clara; aparentando seus quatorze anos ou pelo menos, dizendo sempre: - não fui eu que falei “um, dois...”. E à medida que ela falava, mais eu ficava invocado, entretanto eu me senti atraído pelo seu modo de falar e conversando nos entendemos e ficamos amigos.
Seu nome era Flávia, e por ser chamada por esse nome eu gostei pois, começava com a mesma letra do meu. Tornei-me amigo assíduo daquela “Pimentinha” moreninha.
Entretanto eu a via como mais uma irmã, jamais naquela época imaginava namorá-la e eu nem conseguia perceber que aquela formosura de pequena estivesse apaixonada por mim. Hoje, por incrível que pareça, 21 anos depois, ela está sentada ao meu lado conversando como bons amigos, disse-me como bons amigos, disse-me com aquela tranqüilidade que lhe é peculiar:
- Eu sempre fui e era apaixonada por você, Fábio, você para mim funcionava como termômetro. Quando estava perto, tudo bem, quando estava ausente não conseguia passar um instante sem pensar em você. Entretanto, você foi a Recife deixando um grande vazio penetrar em meu coração e foi quando eu estava no auge dessa situação que eu vim a conhecer Fernando, conheci-o em um baile na nossa Associação, nunca gostei dele, na época não gostava, simplesmente para deixar o tempo passar e esperar você voltar e poder fazer você ver o quanto eu o amava. De repente com sua chegada de surpresa, trouxe-me a felicidade completa naquele dia, mas, jamais eu poderia supor que somente você ter visto eu e Fernando juntos, isso iria fazer você sumir.
Ela seguiu narrando com minúcias o seu noivado, casamento e sempre reclamando da minha ausência nesses eventos, no crescente estado de antipatia e aversão que seu marido nutria e nutre por mim, apesar de eu tê-lo visto apenas uma vez. Falou-me de suas constantes brigas por minha causa, o ciúme louco que ele nutre por ela em relação à minha pessoa, sem justo motivo já que nunca houve nada entre nós dois.
Ela é sem sombra de dúvida, uma mulher sensacional, tem uma grande vitalidade, está sempre alegre, embora internamente não esteja. Quando fui à casa de sua mãe e disse-lhe que estava escrevendo um livro e desejava a colaboração de Flávia, sua mãe relutou muito em pegar o meu telefone, ela discou para mim. Então pedi-lhe que escrevesse alguma opinião sobre a minha pessoa. Ela prontamente aceitou e aqui está o que ela disse-me sobre mim:
... Um, dois, um, dois. Era como eu e minhas colegas o chamávamos. Era divertido vê-lo fazer ginástica todas às tardes no quintal de sua casa. Só não podíamos imaginar qual seria a sua reação ou a repercussão dessa brincadeira, até o dia em que ele foi à minha casa pedir explicação aos meus pais, pelo apelido que lhe fora colocado.
Após o “bate-papo” e algumas justificativas e desculpas, tudo ficou esclarecido e ele, muito educadamente, despediu-se de nós.
Estranha e curiosamente, a partir daquele dia ele passou a nos visitar quase que diariamente. Chegava do quartel (na época ele era cabo do Exército) e ia para minha casa conversar com meus pais. Conseqüentemente nos tornamos bons amigos.
Era época de provas na escola em que eu estudava e ele sabendo de minha dificuldade em Matemática, se prontificou a me ajudar. Gostei e agradeci muito pelo presente que ele me deu e pela aprovação no exame. Presente esse que guardo comigo até hoje.
Não era à-toa que eu o achava e ainda o acho muito inteligente e prestativo. No carnaval eu e minha família íamos ao baile do clube local. Ele, apesar da timidez e de não gostar de brincar, aceitou vestir a fantasia que havia improvisado. Desse dia tenho de recordação uma foto.
Um dia chegou do quartel e foi até minha casa me falar de uma viagem que iria fazer a Recife. Era uma viagem à serviço, sua grande oportunidade, a qual não podia perder. Confesso que a notícia me abalou, não pelo fato de não querer que ele viajasse, mas por não ter a companhia de um amigo, ao qual já havia me habituado. Compreendi e desejei-lhe sorte, afinal ele mereceu a oportunidade. Assim que chegou ele me enviou uma carta que também guardo comigo. Nesse ínterim de sua viagem, conheci meu marido. Ele não sabia, pois não havia lhe contado, quis fazê-lo na sua volta pessoalmente.
Numa daquelas noites em que eu aguardava no portão pelo namorado, tive uma grande surpresa; ele havia retornado de Recife. Conversamos muito, até meu namorado chegar e eu o apresentei ele o cumprimentou e foi embora. Fiquei algum tempo sem ter notícias dele. Quando o vi novamente já ia ficar noiva. O convidei para ir ao meu noivado e ele não apareceu.
Não sabia como encontrá-lo para dizer-lhe que ia me casar. De repente se tornou um hábito sua ausência ou seu afastamento. Não sabia como me comunicar com ele. Quando ressurgiu eu já estava grávida do segundo filho. Fiquei sabendo que ele havia casado também e que era pai. Foi engraçado, um dia estava em minha casa, distraidamente fazendo trabalhos de casa e de repente senti o cheiro do perfume que ele usava.
Pensei como seria possível se ele estava... não sabia onde. No entanto quando fui até a sala era ele quem estava lá. Veio me visitar e conversar como nos velhos tempos. Falamos dos nossos familiares, dos nossos planos. Foi bom rever o amigo.
Hoje, após muitos anos de ausência, ele reaparece e me pede para contar-lhe nossa história, porque está escrevendo um livro, foi boa a amizade, foi muito bonita na época e há muitas recordações.
Espero que seu livro seja um grande sucesso, que esse pequeno trecho que foi nossa amizade seja lembrado com carinho. Não sei se ajudei com esse depoimento, mas é como eu vivi naquela época.
Capítulo XV
REFLEXÕES
Como vocês podem ver muitos anos se passaram e hoje a encontrei, ela deu-me o que vocês acabaram de ler, entretanto ela não falou nada de sua imensa paixão, mas a riqueza dos detalhes que foi descrito é peculiar somente àqueles que trazem no seu âmago um grande Amor. Ela balança as minhas estruturas, penso toda hora naquela “Ed-pimentinha” como diz nosso querido “amendoim de Snoopy”. Ela sempre foi cheia de vida, com muita energia, ela conseguia contagiar a todos com seu sorriso. E até hoje continua a mesma, apesar de guardar dentro de si profunda melancolia proveniente de seu casamento forçado, mas por que forçado? Simplesmente porque sua mãe, paraibana que ainda não tinha evoluído, “encasquetou” que a menina teria que casar com o noivo “Fernando” e quando ela desmanchou faltando apenas um mês para o casório, Dona “Belô” deu-lhe uma tremenda surra, bateu-lhe tanto que Flávia ficou toda marcada. Então, disse-lhe, que casar-se-ia, porém,.Dona “Belô” seria a causadora de sua infelicidade. Então, mandaram chamar Fernando e ela informou-lhe que não gostava dele e sim de minha pessoa.
Casaram-se e logo na noite de núpcias, segundo ela, ele foi muito bruto, um perfeito “cavalo”, magoando-a completamente física e moralmente, segundo Flávia, então, a partir daí não houve mais condições para que o amor brotasse em seu coração, somente a ânsia de ver-me algum dia é que a deixava tranqüila.
Entretanto, eu também casara pouco tempo depois com Irinete, embora não vivesse uma vida completamente feliz, mas, ao meu ver e ao nosso modo de vida era bom e feliz.
Uma vez fui visitá-la, chegando eu por volta das 17 horas e só saindo de lá por volta das 20 horas, na época eu não entendia o porquê da felicidade dela em ver-me em sua casa. Eu era muito ingênuo, hoje posso compreender como ela deve ter sofrido todo esse tempo, principalmente, em nossa primavera da vida.
Hoje, sinceramente, não sei o que faço, estive com ela, duas vezes, almoçamos, fomos ao Corcovado, Pão-de-Açúcar, conversamos bastante e ainda não tomei uma decisão, só sei dizer que ela vem preenchendo todos meus momentos, porque estou sempre com os pensamentos sobre ela e, se continuar assim, eu bem sei o que inevitavelmente irá acontecer, porém não gostaria que ela fosse apenas um momento de amor em um quarto de motel.
Irinete, por outro lado, também não merece isso e vejo-me agora nesse conflito, eu penso que devo deixar o barco correr e deixar o vento do destino selar a sorte, porque sei bem sei que ele é sábio e traz sempre a melhor solução e então veremos o que poderá acontecer.
E aconteceu o inevitável, três dias após a nossa conversa no Pão-de-Açúcar nós fomos até a Quinta da Boa Vista, porque era um desejo meu rever alguns animais e a beleza dos pássaros e lá fomos ver de perto a majestade do “Rei da Selva”, a impetuosidade do “Tigre de Bengala”, a esperteza dos chimpanzés e muitos outros animais.
Após quase duas horas de completa curiosidade sobre os diversos tipos de pássaros e de vermos de perto a beleza de certos animais, era por demais natural que voltássemos às nossas observações sobre nós mesmos.
Então, começamos a conversar e, nesse jogo de palavras, ela disse-me que fazia 10 meses que não mantinha relações amorosas com o seu marido e com ninguém. Ela já tinha recebido inúmeras cantadas, não só no banco, como de alguns admiradores, entretanto, disse-me que sem amor para ela não tinha o mínimo prazer, em conseqüência soubera até a presente data negar e renegar a todos os seus admiradores. Falou-me que logo após as núpcias teve praticamente repugnância ao ato sexual, pois não o queria e ele a queria a todo custo, e ela não dava mínima... no auge de nossa conversa ela pôs sua cabeça sobre o meu ombro e eu a beijei, deixando-a completamente sufocada. Após breve suspiro, ela olhou-me e com lágrimas disse-me:
- Esperei 21 anos por esse momento, um sonho, um verdadeiro sonho, será que estou acordada?
Dei-lhe outro beijo sufocante impedindo que ela falasse por completo, o tempo urgia e eu tinha que voltar, pois estava se aproximando a hora de ir até à faculdade e não poderia chegar atrasado.
Eu a levei até seu bairro e fui à luta, cheguei à sala no exato momento em que deveria aplicar a prova e o rebuliço já era geral e em poucos minutos voltou ao normal.
O tempo passou e o meu envolvimento foi se tornando cada vez maior e o meu drama de consciência ficou por demais acentuado, porque a cada hora de puro envolvimento amoroso correspondia a um século de culpa. Então, resolvi dar um basta nisso tudo e levar a minha vida normal.
Esses meses, anos e séculos de delírio são uma outra história a qual eu contarei, oportunamente, para aqueles que por qualquer razão, gostaram destes fragmentos existenciais.
Capítulo XVI
OS AMIGOS VOLTAM
Foi durante a grande final entre as aquipes de futebol do Botafogo e Flamengo, em um Maracanã completamente cheio que reencontrei Leonardo.
Estava um jogo duríssimo para o Botafogo, o qual tinha uma equipe limitada em relação ao Flamengo, todavia, o sistema de marcação e o conjunto da equipe estava sendo suficiente para segurar a grande equipe do Flamengo.
No intervalo do jogo, fui até o bar a fim de beber uma cerveja, quando dei de cara com Leonardo.
Conversamos muito durante aqueles breves momentos, e como ele era Flamengo doente, marcamos de nos encontrar após os 45 minutos finais, e com a quebra de jejum do Botafogo após 21 anos, vibrei de emoção e alegria.
Após as emoções, fui ao seu encontro e partilhamos juntos, algumas firulas do passado.
Contudo, três meses após esse dia nós iríamos nos reencontrar em Brasília e lá, Leonardo confidenciou-me muitos fatos que ocorreram no seu dia-a-dia na Universidade de Brasília.
Escrevi conforme ele me relatou e como os fatos aconteceram.
Capítulo XVII
A INFÂNCIA DE LEONARDO
Quando Leonardo era muito pequeno, costumava ir brincar às sombras dos imensos pés de caju, no sítio de dona Socorro, o qual distava uns 500m de sua casa; sítio este já descrito na introdução deste manuscrito.
Porém, antes de ele e seus amigos chegarem lá, inclusive minha pessoa, tinham que atravessar um matagal que na época era por demais acentuado. De vez em quando costumavam matar alguma jararaca que aparecia no caminho deles. Ele sempre teve um grande medo de cobra. Seu medo era tanto, que às vezes, quando acontecia da turma deles matar uma cascavel ou surucucu, ele passava quase uma semana para poder voltar ao sítio, aí era aquela encarnação dos amigos de infância. E ele quase sempre, naquelas noites, não conseguia dormir devido a constantes pesadelos.
À noite, era inevitável que não sonhasse com uma situação em que não aparecesse uma maldita cobra para lhe atormentar os sonhos.
Era um pesadelo tão grande, que ele sempre acordava angustiado, às vezes, no momento em que uma terrível estava quase lhe picando, então não conseguia mais dormir. Ficava suado e sufocado, o medo era tanto que, às vezes, parecia ser real.
Os pesadelos sempre fizeram parte de seus sonhos, porém, com o passar dos tempos, já os administrava com bem mais tranqüilidade, e o medo já se dissipara por completo.
O tempo passou e foi morar em Belo Horizonte, perto da Pampulha, onde conheceu Sérgio, cuja timidez era por demais acentuada.
Passeando um dia pelas ruas da Pampulha, Sérgio veio a conhecer Luíza, uma bela descendente de espanhol, cuja beleza deixava-o completamente tonto. Ela sentia por ele um certo afeto e ele, por ser tímido, não conseguia captar aquela afeição.
Todos os dias ele passava à frente de sua casa para vê-la, entretanto, por ela morar numa casa muito rica e com bastante segurança, era difícil que ele conseguisse vê-la em suas tentativas, porém ele ficava rondando a rua a espera de que ela saísse ou chegasse à janela ou simplesmente quando ela ia para o colégio, então quando isso ocorria, ele ia conversando com ela e matava o seu imenso desejo de vê-la. O mais interessante é que ele sabia que ela estava a fim de namorá-lo, porém ele não conseguia de maneira alguma quebrar o gelo e dar o pontapé inicial sobre o assunto que tanto almejava.
E com isso, perdera sua futura primeira namorada, dias depois eu mudei de lá e nunca mais os vi. E não soube mais nada sobre a vida dela, quanto a ele, continuei tendo contato por algum tempo até que depois também perdi o contato e nunca mais o vi.
Dinorá era a filha do vereador mais votado de Irajá, ela era alta, loura, olhos esverdeados, simplesmente linda, no entanto não sabia distinguir um cateto de uma hipotenusa, uma função real de uma transcendente e por isso, ela se aproximou de Leonardo. Devido à necessidade de ela ter que passar de ano, ficaram amigos e três a quatro vezes por semana ela ia até sua casa a fim de absorver um pouco da simples matemática que para ela parecia tão complicada. Aos poucos e gradativamente foi havendo um envolvimento natural entre ambos, só que ele de imediato notará que ela só estava a fim de tirar partido da situação ele então aproveitou o máximo enquanto durava, parecia para ele um verdadeiro sonho, mas como era bom! Então veio a realidade e ele despertou do seu devaneio em ter aquele avião bem perto de si. Ficaram somente amigos e quando mudou de lá, não soube mais nada a respeito dela, suponho que tenha sido muito feliz, devido à sua posição social, beleza, carisma e um alto grau de sociabilidade, além de ser muito elegante.
Elizabeth era uma filha de descendentes italianos, também era bonita, com um sorriso lindo que encantava a todos que dela se aproximavam, Leonardo a tinha somente como amiga, entretanto depois de longos anos, ele veio a saber que ela era louca por ele e até hoje ele não sabe como ela conseguia disfarçar, já que ambos estudavam no mesmo colégio e faziam a mesma série, talvez fosse por causa de seu pouco senso de observação, que na época era por demais acentuado. Porém tanto eu quanto ele jamais percebemos tal fato. Hoje ela está casada, e bem casada, bem amada...
Mara foi e acho que é o carma de Adriano, um grande amigo meu de infância, o qual se formou em engenharia eletrônica e seu trabalho consistia em consertar antenas a fim de que o sinal de microondas fosse captado pelas emissoras de TV. Essa manutenção era feita mensalmente nas respectivas antenas da Embratel que ocasionasse avaria e quando ele veio a conhecer a Mara, ela imediatamente passou a ser o seu carma nessa vida, porque ele a amou desde aquele dia que ele a viu no shopping da cidade pela primeira vez em sua vida. Ela não era muito linda, porém aos seus olhos ela era exuberante, simplesmente linda, cabelos negros, os quais caíam sobre seus ombros, deixava-o totalmente exasperado, louco de desejo.
Mas, foi em fins de 1962, quando ele tinha se mudado de Irajá para Olinda, eu estava ajudando a fazer a mudança, eu, Adriano e minha família, quando de repente nós a vimos entrar na casa ao lado da que ele ia morar, uma jovem de aproximadamente 14 anos, alta, não muito magra, muito bonita, charmosa, eu a admirei e ele ficou completamente pasmado, como se tivesse sido magnetizado por aquele olhar, ela olhou-o sorrindo quase sem querer, disse-lhe bom dia, daí em diante Adriano não teve mais sossego em sua vida, porque ela passou a preencher todos os espaços em sua mente, só que ele nunca a teve como namorada, nessa época ele era excessivamente preocupado com os seus estudos e não conseguia externar toda a sua paixão por ela, o tempo passava e ele ia ficando com esse amor o atormentado e deixava-o completamente alheio a vida.
Foi no clímax dessa situação que nosso companheiro de velha guarda, Leonardo foi morar em Benfica, perto do centro, um bairro muito bonito da cidade.
Então, veio a conhecer várias meninas que achava interessante, porém não sentia qualquer atração para namoro, algumas chegaram até a forçar a barra, mas ele tinha sempre em mente um meigo rosto que não sabia quem era e nunca tinha visto e ele não esquecia.
Um dia, quando estava chegando a casa onde morava, deu de cara com uma linda morena, ainda muito menina, cerca de 17 anos que vinha saindo da avenida, seus olhares cruzaram-se e sentiu intuitivamente que aquela pequena faria parte do seu viver, sua intuição nunca falhara e dias depois ela já era sua namorada predileta.
Casou-se e foi morar em Botafogo, porém até chegar esse momento muita água rolou e passou por várias experiências que foram muito salutares para ele.
Viajou para a Espanha e lá viveu os melhores momentos de sua juventude.
Conheceu muitas pessoas que lhe ensinaram sobre o dia-a-dia de seu viver, porém jamais em tempo algum poderia esquecer de uma das mais lindas morenas que a Espanha já deu ao mundo. Seu nome era Quelma. Ela era de uma beleza estonteante, e ele apaixonou-se por ela de imediato, mas por ser ainda muito volúvel, ele não levou muito a sério o amor que ela lhe devotava e a perdeu.
Bem, de Leonardo já falei de sua juventude, agora vou falar de seus momentos em Brasília e de sua louca paixão.
Capítulo XVIII
LEONARDO EM BRASÍLIA
Quando Leonardo chegou a Brasília, DF, em 1989, pela primeira vez, sentiu um impacto muito forte e uma tremenda decepção em relação ao que pensava ser e o que via à sua frente.
A Rodoferroviária causava um estado de claustrofobia bem acentuado devido à inexistência de ar puro, para se poder respirar.
O barulho dos ônibus e a fumaça que deles exalava deixavam o ambiente escuro, aliado a má iluminação existente, causaram nele, de imediato, uma situação de absoluta rejeição à cidade, a qual imaginava ser uma primazia.
Quando subiu os degraus e caminhou sobre a estação em si, olhou à frente, teve então uma nova decepção foi como se ele estivesse chegando a um pequeno lugarejo e não a capital de um imenso país, ou como se estivesse chegado a um lugarejo do seu querido Ceará. Ele só via mato, à direita e à esquerda, então pegou um táxi, e lá vem outra decepção, o motorista não conhecia a cidade e ele desejava ir até Sobradinho e o motorista não sabia como chegar até lá.
Foi aí que Leonardo recordou que recebera uma carta com todos os pontos turísticos da cidade, orientou-se e lhe ensinou o caminho a seguir e chegaram lá sem qualquer imprevisto no pequeno percurso de 15 (quinze) minutos.
Foi pára o quartel a fim de fazer um excelente curso de guerra eletrônica, o qual lhe abriria as portas para uma nova função e conseqüentemente uma nova vida, em termos militares.
Dias depois, quando foi visitar a cidade propriamente dita, foi que pôde vislumbrar a sua beleza e desfazer o mal entendido a respeito de nossa capital "Brasília".
De imediato notou que existia um contraste em todos os lugares que visitava.
O progresso estava sempre junto com o verde a seu lado, não havendo qualquer predominância de um ou de outro.
Em Brasília, em qualquer local que você esteja, vai estar sempre com árvores por perto e um canteiro de grama perto de você.
Pôde sentir a beleza da catedral, o Teatro Nacional, o Museu JK, o prédio do Itamaraty, a Praça dos Três Poderes e muitos outros locais lindos da cidade.
Capítulo XIX
O CURSO DE GUERRA ELETRÔNICA
Durante o Curso, o qual teve a duração de 06 (seis) meses, quase não foi à cidade por falta de tempo, devido a forte necessidade de ter que passar no curso.
Era o último curso militar que estava fazendo e não podia sequer pensar em voltar para o Rio de Janeiro antes do tempo por falta de aproveitamento no mesmo. Porém, uma vez ou outra ele e os companheiros davam uma escapada até o centro, principalmente nos dias de pagamento, a fim de beberem uns chopes, porque afinal ninguém é de ferro.
Descontraíam-se um pouco, devido ao ritmo alucinante que eram as aulas das 8 h às 17h de segunda a sexta, com intervalo de 10 minutos entre cada aula.
Paravam às 12 h para o almoço, que por sinal na época era altamente deficitário, e recomeçavam às 13 h 15 min.
Todas às sextas-feiras havia exame e era uma tremenda competição porque ninguém queria obter grau inferior a 8,50 porque caso isso acontecesse, essa pessoa já era o último colocado naquela avaliação.
No decorrer do curso ele foi conhecendo cada companheiro e seu modo de proceder, bem como seu tipo de caráter.
Leonardo por ser o mais antigo, como se diz na gíria militar, era o xerife. Xerife de qualquer curso militar é aquele responsável por toda a turma e tem que estar à frente de todos os eventos referentes àquela turma.
Por ser uma pessoa muito comunicativa e ter uma boa cultura geral ele logo ganhou a simpatia de todos e o consideravam por demais, de modo que conseguiu terminar o curso sem ter que tomar qualquer medida militar por desrespeito ao xerife.
O Fernando era o seu sub xerife, inteligentíssimo, pessoa de um grau de inteligência aguçadíssima aprendia tudo com uma facilidade que fazia espanto aos outros.
Ficaram amigos, até hoje o são. Porém, o Fernando era militar por demais e toda vez que ele tinha que assumir o comando, Leonardo recebia reclamações por parte dos demais alunos, já que o Fernando gostava de enquadrar todos militarmente.
Aí Leonardo tinha que usar a sua diplomacia e aparar as arestas para que não houvesse nenhum ressentimento entre as pessoas envolvidas e pudessem terminar o curso harmoniosamente.
Hoje Fernando se encontra na Venezuela, por ter sido indicado pelo Sr. Ministro do Exército para ser auxiliar do Adido Militar devido aos seus conhecimentos da língua espanhola.
Sérgio era um gaúcho com uma inteligência também fora do comum, estava sempre de brincadeira, até em sala de aula, se pudesse fazia alguma.
Ele levava a vida toda na esportividade. Dois anos depois que ele terminou o curso, fez um novo concurso e passou no concurso para o Banco do Brasil. Porém antes ele teve que enfrentar uma situação que não desejo a quem quer que seja, principalmente a um amigo de turma.
Entretanto, devido ao imenso carinho e respeito que existia e que lhe devoto, deixo de narrar os fatos, bem sei que ele conseguiu superar por completo aquela fase ruim de sua vida.
Solicitou transferência para o seu querido Rio Grande do Sul e foi beber seu chimarrão e matar a saudade dos Pampas.
Flávio era um 2º Sgt da Aeronáutica que estava também fazendo o curso, pessoa fina, educada, muito ponderada, uma fineza de educação, media meticulosamente suas palavras em qualquer diálogo, como se ele estivesse sempre com medo de ofender a alguém.
Foi um grande companheiro para todos eles durante toda a estada deles em Brasília.
Jorge, o Jorjão, como todos eles o chamavam, era o companheiro inseparável do Flávio, só que tinha o comportamento completamente oposto do mesmo, estava sempre a sacanear alguém, saía todos os dias para à noite de Brasília e quase sempre voltava no carro de alguma mulher, ele era o perfeito malandro carioca, gostava sempre de estar na aba de algum chapéu que desse sopa, principalmente de uma mulher solitária e carente.
Mesmo que fosse uma coroa, muito velha, nova, ... etc ele não queria saber, só queria aproveitar a facilidade e a oportunidade que lhe estava sendo dada e lá ia o Jorjão atacando em qualquer lugar.
Batista, carioca fanático pelo Flamengo, Leonardo o conheceu no Rio de Janeiro, quando fez as provas do concurso para vir fazer o curso de Brasília, caso obtivesse êxito no mesmo, como de fato obteve.
Batista é uma pessoa muito metódica e prestativa, está sempre a ajudar a qualquer um que dele alguma coisa solicitar.
Ele se destacava muito nas peladas de futebol que eles faziam, principalmente no futebol de salão e nas corridas ele era uma verdadeira gazela, corria demais.
Em 1992 fez concurso para o Banco do Central do Brasil e foi aprovado, deixando o Exército em seguida.
Ximenes era um gaúcho muito inteligente, porém não gostava de ter qualquer contato com água. Uma vez eles tiveram que o obrigar a entrar debaixo do chuveiro, porque ele estava a mais de um mês sem ter contato com o precioso líquido no banho.
Lauser, gaúcho por demais brincalhão, durante o curso apaixonou-se por uma cinqüêntona e juntou-se com ela, embora na época ele estivesse apenas com 25 anos.
Ele está com ela até o presente momento, vivendo perfeitamente feliz no seu dia-a-dia a seu lado.
Lauser é uma pessoa que está sempre alegre, muito gozador e prestativo, é uma pessoa que qualquer um gostaria de ter como amigo.
Muitas vezes Leonardo teve que recorrer a lauser em seus momentos de dificuldade financeira e ele sempre estava ali prestativo, é uma excelente pessoa em todos os aspectos.
Jerônimo, o grande Cobrinha, como eles o chamavam, era o cozinheiro oficial deles.
Devido a ser uma pessoa excessivamente metódica, acordava às 5 h, tomava seu banho, fazia o seu chimarrão, aquecia a água e fazia todo santo dia um gostoso café para todos da turma.
Ficava ali matutando, estudando, esperando o sol raiar. Às vezes um pouco radical em suas opiniões, costumava angariar algumas antipatias por causa de sua franqueza. Ele sempre foi seu amigo e manteve contato com ele e sua família por longos anos até que ele foi para Boa Vista, sendo essa a época em que Leonardo comprou o seu carro.
Ernesto foi um dos primeiros companheiros que ele veio a ter contato mais estreito, durante o curso. Chegou a sair algumas vezes com ele, para conhecer os pontos turísticos da cidade.
Na época ele estava cursando o penúltimo semestre da faculdade de Direito, portanto, não levava muito a sério, dedicava-se com mais afinco às disciplinas da faculdade.
Entretanto, ao término do curso ele foi o 5º colocado com média 8,50. Hoje ele trabalha no Ministério Público da União e exerce a função de advogado, com muito brilho e sucesso.
Dentro do universo de colegas e amigos que Leonardo fez ao longo de sua estada em Brasília, pode-se ressaltar que Marcelo foi, e o é, o mais seleto deles.
Quando ele chegou a Brasília, teve inicialmente contato com Marcelo e aos poucos foi havendo uma aproximação e cooperação múltua.
Com o passar do tempo, essa amizade se fortaleceu e quando da estada de Marcelo no Egito, por mais de dois anos, como auxiliar da aditância militar do Brasil, Leonardo foi praticamente um dos poucos que manteve contato direto e ajudou em suas necessidades com referência às notícias do Brasil e outras coisas mais.
Positivamente, pode-se afirmar que hoje, Marcelo e sua esposa Sandra são os seus melhores amigos no universo de Brasília.
Ele é um gaúcho de Bento Gonçalves, porém não é aquele gaúcho tradicional, que põe o Rio Grande do Sul acima dos outros estados do Brasil.
Acostumado desde cedo a lutar pela vida ele foi cedo para o Rio de Janeiro, onde se radicou por muito tempo.
Com uma visão privilegiada a respeito do amanhã, procurou, desde cedo, fazer sua carreira. Passou nos exames de seleção para a Escola de Sargentos e, após o término do curso, aperfeiçoou-se em eletrônica linear e digital, o qual muito contribuiu para que ele ganhasse um capital extra e levasse uma vida mais tranqüila quando das fortes crises financeiras que ocorreram à família militar, motivadas pelas inflações que sempre assolaram o nosso país ao longo dos anos.
Devido a seu inegável senso profissional, ele foi enviado para os Estados Unidos a fim de estudar manutenção de equipamentos eletrônicos de Guerra Eletrônica.
Após sua volta, estudou com Leonardo a Gramática Inglesa com mais profundidade e passou no concurso do Centro de Ensino do Pessoal do Exército, o qual lhe ensejou poder logo após seis meses passar três anos no Egito.
De vez em quando eles se encontravam no clube e bebiam alguns chopps e aproveitavam a oportunidade colocando os assuntos em dia.
Em 27 de novembro de 1989, eles concluíram o curso; foi uma festa muito bonita, várias pessoas e autoridades estiveram presentes, muito salamaleques, inauguração da placa comemorativa dos pioneiros da guerra eletrônica, coquetel comemorativo à vontade com muita bebida de toda espécie e finalmente a volta de cada um para os seus respectivos estados.
A partir de sua estada em Brasília ele sentiu intuitivamente que sua vida estaria ligada a essa bela e enigmática cidade.
Em 15 de dezembro de 1989 publicou a sua transferência do Instituto militar de Engenharia - IME para o Centro de Instrução de Guerra Eletrônica - CIGE, entretanto, por causa de inexistência de Próprio Nacional disponível para ocupação, teve que esperar até outubro de 1980, quando de fato se efetuou realmente a transferência.
Capítulo XX
A VIDA NA NOVA CIDADE
A partir daquela data começou sua fase de adaptação à cidade, de imediato começou a sentir a diferença existente entre as duas cidades.
Transporte deficitário, o clima seco totalmente diferente do Rio de Janeiro, o povo em si, que parece muito frio e sofrido e muitas outras particularidades, tais como segurança, tranqüilidade, atração magnética, muitos locais místicos, etc.
Devido a sua sensibilidade que quase sempre está a aflorar e por causa de gostar de misticismo, começou a fazer um curso de Tarô Egípcio. Em seguida fez um curso de numerologia e Tarô Cigano.
Por muito tempo ficou completamente envolvido com essas atividades, até que despertou para o seu lado material e viu que o mesmo estava por demais desleixado e desequilibrado.
Ele sentiu que tinha que correr atrás, como se diz na gíria, por causa de dívidas que tinham se acumulado.
A situação estava realmente difícil, porém quando ela estava mais causticante, veio a solução. Ela lhe foi entregue de mão beijada. Como isso aconteceu?
Muito simples. Nos intervalos do almoço ele costumava jogar xadrez com um companheiro do quartel, o qual era professor de Português e Inglês. Naquele semestre estava a lecionar num dos melhores colégios e bem conceituado de Brasília, segundo a sua ótica e a de muita gente, o Colégio CIMAN.
Péricles, esse grande e memorável amigo, tinha sido convidado para lecionar em uma rede de Colégio cujo ensino é de máxima qualidade, o Objetivo, e os horários estavam se chocando. Considerando que o capital pago pelo Objetivo superava em cinco vezes o do CIMAN, ele optou obviamente pelo Colégio Objetivo.
Entretanto, ele queria sair numa boa, porque era por demais considerado e a melhor forma que ele vislumbrou foi deixar alguém no seu lugar e esse alguém foi Leonardo.
Foi lecionar Inglês e Matemática para o 1º, 2º graus e pré-vestibular.
Desde então sua vida material melhorou substancialmente e assim como a crise começou ela foi embora.
Durante os três anos que lecionou no Colégio CIMAN, fez inúmeras amizades, as quais até hoje guarda com imenso carinho.
Sua vida no CIGE teve dois momentos distintos: a primeira de outubro de 1990 a janeiro de 1993. E o outro de janeiro de 1993 a dezembro de 1994, quando de lá saiu. Nesse primeiro período ele estava na Companhia de Apoio ao Ensino, sendo subtenente e sargenteante ao mesmo tempo.
Todas as pessoas que a ela pertenciam eram de alto gabarito profissional e intelectual, e ele soube aproveitar ao máximo esse período para se aprimorar mais na Matemática, no Inglês e em outros campos da vida.
Fez um vestibular para Sociologia, entretanto, não gostou da faculdade e abandonou o curso. Não por causa do curso em si, o qual gostava muito, mas por causa de determinados professores que achava que não estavam à altura do curso.
O tempo passou e Leonardo entrou em sua segunda fase no CIGE, embora fosse o subtenente mais antigo e mais culto entre os demais, considerado por todos em cima e em baixo, de repente tudo começou a dar errado, nada do que ele fazia dava certo, em todos os aspectos: militar, sentimental, financeiro e espiritual.
Foi um sufoco total, até que chegou dezembro de 1994 e assim como a fase mal começou ela foi embora.
Já estava mais calmo, resolveu estudar. Fez quatro meses de pré-vestibular a fim de se atualizar em Geografia, Biologia, Química e História. As outras ele se garantia.
O mais interessante é que ele desejava cursar Geologia, passou quatro meses com a cabeça voltada para Geologia, porém na hora que ele pegou a ficha de inscrição veio em sua mente como se fosse uma ordem para que se inscrevesse em Administração.
Achou estranho, mas continuou preenchendo a ficha com sua mente voltada para Geologia, no momento em que ia colocar o número correspondente a Geologia, novamente ouviu nitidamente uma voz dizendo bem dentro de seu ser: Faça Administração.
Então, como o mistério era por demais intrigante, ele resolveu aceitar o conselho daquela voz que brotava dentro de si.
Marcou a opção que estava sendo ordenada e entregou a ficha. Sentiu uma espécie de alívio e interiormente uma satisfação, intuitivamente antes de fazer as provas ele já sabia que seria aprovado, algo lhe dizia isso.
Quando chegou a época das provas ele as fez normalmente e quando leu seu nome nos jornais, para ele não era surpresa, porque intuitivamente sabia que estaria entre os aprovados.
Capítulo XXI
UMA VOLTA AO PASSADO
Em Maio de 1994 Leonardo teve um sonho que foi muito significativo para ele, estava passeando por um bairro nos arredores de Brasília e de repente entrou em uma casa da qual não conhecia as pessoas. Não deu atenção para elas ou elas não o enxergavam.
Foi direto para um dos quartos e lá encontrou uma garota aparentando uns 18 anos, que se encontrava chorando, ele a abraçou e confortou-a dizendo que viera consolá-la. Ela não o ouvia, porém ele acariciava seus lindos cabelos confortando-a; então, ela parou de chorar. Começou a falar com ela, muito embora ela não percebesse também a sua presença e nem ouvisse a sua voz, disse-lhe que eles iriam se encontrar mais tarde e que seriam grandes amigos. Depois que lhe falou isso, talvez o sussurro de sua voz a fez parar de chorar e ela então esboçou um sorriso e não sei porque ela parou de chorar e ele foi embora.
De repente Leonardo acordou... ficou uma sensação de que aquele sonho fosse real e por muito tempo, naquele dia, o rosto daquela garota permaneceu em sua mente e também a lembrança daquele sonho ficou retido em seu ser.
Dias depois voltou a ter o mesmo sonho, só que desta vez foi ainda o mais real possível.
Leonardo estava quase consciente, deitara-se há pouco. Não havia cerca de dez minutos, quando ele se viu no mesmo local, mesma casa, atravessando a sala, onde havia duas crianças assistindo à TV, uma senhora já na casa dos 40 anos, ao lado delas.
Também viu um senhor ao sofá saboreando uma boa bebida, tudo reinava a paz.
Foi ao quarto e lá estava ela deitada com uma tristeza sem fim, o seu estado de melancolia era bem explícito em seu semblante.
Sentou-se na beirada de sua cama, ela parece que percebeu alguma coisa estranha, porque sentou-se também ao seu lado, sem perceber sua presença e olhou para os lados, como nada viu permaneceu sentada com as mãos sobre os olhos.
Sua expressão era a de quem ia começar a chorar, entretanto nesse exato momento Leonardo passou a mão sobre os seus lindos cabelos acariciando e dizendo-lhe que ela tivesse calma porque toda e qualquer dificuldade passava.
Muito embora ele não soubesse o mal que a atingia, disse-lhe mais para confortá-la e para ela não ver chorar. Ela não o ouvia, mas sentia a sensação de suas palavras.
Leonardo beijou suavemente seus olhos e parece que isso a acalmou. Acordou novamente com a mesma sensação de que essa pessoa existia e estava precisando dele, muito embora não a conhecesse.
Capítulo XXII
O INÍCIO DO SEMESTRE
As aulas já haviam começado há quase duas semanas, Contabilidade, Matemática, Ciências Políticas, Administração e Economia.
Tudo era novidade para Leonardo, exceto Matemática, que ele sabia até mais que a professora, que a muito custo, tentava explicar a equação de uma reta que passa por dois pontos.
Leonardo sentia que a grande maioria estava em Júpiter, com raríssima exceção alguns acompanhavam o ritmo das aulas.
No dia seguinte, era uma quinta-feira a noite se encontrava muito quente e estava todo o Curso de Administração na Faculdade de Estudos Sociais.
Todos estavam em aula com o professor Chacom. O assunto versava sobre Ciências Políticas e Leonardo estava muito interessado no assunto, perguntou, contestou etc., e lá estava o Mestre Chacom explanando sobre a teoria do Estado... De repente entra uma moça magrinha, cerca de 1,70m, uns 50 Kg, sentou-se à sua esquerda e olhou à frente a fim de ver o que estava escrito. Como não havia nada ela permaneceu com seu olhar um pouco para baixo, como quem estivesse com vergonha de alguma coisa.
Vestia calça jeans, cor azul, uma camisa branca com alguns desenhos, um diadema de pano colorido sobre seus lindos cabelos pretos, porém seu rosto era de uma pessoa triste, como se estivesse com grande melancolia.
Leonardo olhou para ela por alguns segundos e algo o tocou profundamente, de repente surgiu nele um sentimento que não soube explicar, era como se já a conhecesse de algum lugar, ao mesmo tempo era como se houvesse uma parte dentro de si dizendo-lhe para que ele a protegesse.
Ele continuava prestando atenção à retórica do mestre, porém sua mente estava concentrada somente naqueles tristes olhos, os quais permaneciam sempre em sua mente.
Toda aquela noite Leonardo permaneceu com a expressão do seu olhar em sua mente. Também passou a sexta à noite a esforçar-se em descobrir de onde conhecia aquela menina, porém foi infrutífera sua tentativa, porque por mais que ele tentasse mais e mais chegava a conclusão de que não descobriria.
Sexta-feira, teste de Matemática, Leonardo sentou bem à frente e ela estava sentada duas fileiras atrás dele, bem antes do teste havia 45 minutos para que os alunos tirassem qualquer dúvida com a professora, porém, a turma mal se cumprimentava e ninguém queria ter dúvidas.
Ela exercia sobre Leonardo embora fosse somente a segunda vez que ele a estava vendo, uma enorme atração e ao mesmo tempo surgia dentro dele um enorme desejo de estar perto dela protegendo-a, auxiliando--a.
Era como se fosse uma ordem a qual ele não poderia desobedecer, sob pena de se prejudicar, caso não obedecesse.
Era um desejo tão forte que ele se levantou, foi até onde ela estava sentada e perguntou-lhe se ela necessitava de algum auxílio para fazer uma boa prova. Ela então, lhe disse que estava tudo Ok, não tinha qualquer dúvida, perguntou-lhe então novamente: - Você tem certeza de que não quer nenhum auxílio? Ela sorriu assim meio com um ar de dúvidas se aceitava ou não, mas cortesmente disse não. Então, ele a deixou e foi sentar-se.
Leonardo fez o teste em 15 minutos e em seguida foi embora. Na segunda-feira ela faltou a aula de Economia. Então, Leonardo fez dois resumos: um para si e outro para ela, porque ele levou a sério algo que lhe dizia que devia protegê-la.
Na terça-feira, quando ela entrou novamente, Leonardo sentiu aquele desejo de estar perto dela e protegê-la. No intervalo, chegou junto a ela e a queima-roupa disse-lhe: - Você faltou ontem à aula de Economia. Ela assim sem jeito confirmou-lhe que teve problemas, aí ele lhe entregou um pequeno resumo da aula anterior e ela começou a copiar com muita pressa. Então, Leonardo disse-lhe: - Não há necessidade de copiar, porque eu fiz para você.
Ela agradeceu, porém, estava muito séria e Leonardo ficou sem jeito, devido ao seu estado de seriedade e a deixou. Porém o desejo de tê-la como amiga tornou-se muito mais acentuado e ele intuitivamente sentiu que ela faria parte do seu dia-a-dia.
Capítulo XXIII
A APROXIMAÇÃO
A partir daquele dia ele tentava de todas as maneiras se aproximar dela, mas nos intervalos ela sempre estava a telefonar ou ficava completamente isolada do grupo de alunos e Leonardo ficava sem jeito de se aproximar.
Assim passou-se mais uma semana, até que em uma sexta-feira ele perdeu a carona e teve que vir de ônibus. Quando ele desceu e deu alguns passos à frente a viu a cerca de três metros a sua frente, então, adiantou o passo alcançando-a começou a falar com ela.
O tempo estava muito quente e começou o diálogo falando sobre ele. Ela estava usando uma calça jeans e um blusão longo, cor marrom, de modo que com seus lindos cabelos negros e soltos parecia verdadeiramente uma linda cigana.
Foram conversando e em seguida perguntou-lhe como ela estava para a prova daquele dia.
Dessa vez ela admitiu que estava totalmente por fora do assunto e quando chegaram Leonardo ficou a lhe ensinar por trinta minutos, sobre declividade, equação da reta que passa por dois pontos, tangentes e outros tópicos da Matemática que ela encontrava verdadeira dificuldade de entender e aprender.
Depois desse dia ficaram relativamente amigos e Leonardo passou a fazer resumos de todas as matérias para ela e foi havendo um envolvimento de amizade entre os dois, só que de vez em quando ele a sentia em um profundo estado de tristeza e nesses dias fazia de tudo para torná-la alegre, sem entretanto alcançar êxito em sua investida.
Seu nome era Carolinne, é isso mesmo: com dois "nn", ela gostava que a chamassem de Carol, Leonardo também a chamava de Carol. Porém, depois de ficarem mais amigos ele passou a chamá-la, às vezes de “minha princesa”, “minha flor”. Sabe que ela não gosta, mas é uma forma carinhosa de chamá-la. Na época em que travou contato mais particular com ela, notou que ela tinha algum problema, porém, ela não se abria de maneira alguma.
No mês de outubro, sem querer, Leonardo descobriu que ela era aquela menina que ele tinha sonhado duas vezes, achou muita coincidência e a partir de então passou a dar-lhe mais e mais atenção, às vezes, chegando até a sufocá-la com excesso de atenção. Uma vez, ele foi com a garota mais bonita de sua turma ver um resultado de uma prova e ela lhe perguntou se ela era sua namorada. Ele disse-lhe que era somente uma grande amiga. Ela então, lhe disse: "- Se meu noivo me desse um décimo da atenção e proteção que você dá para ela eu faria tudo que ele me pedisse".
Então, Leonardo lhe disse: - Ela para mim, não sei realmente o motivo, mas, representa muito, porém, ainda vou descobri-lo.
Dias depois ele estava fazendo uma regressão ao passado, Leonardo descobriu que eles já tiveram uma vida na Espanha e que nessa época ela era uma pessoa famosa e ele estava sempre a protegê-la, quando ela se sentia fraca vinha sempre até a ele, em busca de proteção. Informou-lhe isso, porém ela não acreditava, então, ele respeitou a sua opinião.
Os meses foram passando e foi havendo uma espécie de uma luta interna dentro de Leonardo, porque ele desejava por demais ajudá-la, só que estava começando a gostar dela. Nessa época ele estava por demais carente e não queria que isso acontecesse. Mas, por mais que tentasse esquecê-la, mais e mais se via envolvido por ela.
Um dia os dois saíram para beber um chopp e nesse dia Leonardo conheceu a verdadeira causa da sua tristeza, porém, não vou contar neste livro e em qualquer outro que eu possa vir a fazer, a não ser que ela me dê autorização.
Ao longo desses meses em que ele esteve lado a lado com ela, fez inúmeras poesias para ela, porém ela nunca lhe deu qualquer opinião sobre as mesmas.
Aos poucos foi se envolvendo profundamente, e quando se deu conta estava por demais apaixonado por Carolinne. Fez de tudo para esquecê-la, porém, em vez disso ficava mais e mais dependente de querer estar ao lado dela confortando-a quando Carolinne estivesse triste ou simplesmente participando do seu dia-a-dia, e obviamente confortando a si próprio.
Capítulo XXIV
UMA NOITE ALEGRE PARA AMBOS
Na noite em que eles saíram pela primeira vez para saborear uns chopes, Carol estava em noite totalmente feliz, descontraída, alegre, sorridente, bemsucedida de vida no dia
Naquelaa noite conversaram sobre suas vidas e ele lhe disse que estava em seu destino ainda viver ou casar-se novamente com uma mulher de olhos verdes e que achava que era ela. Carol respondeu-lhe: - Quem sabe, o mundo dá muitas voltas.
Passaram cerca de duas horas de total descontração e contentamento, em que ambos relataram grande parte de suas vidas.
Depois voltaram e cada um seguiu o fluxo do trânsito para suas casas.
Naquela noite Leonardo soube realmente que ela estava por demais apaixonada, era sua primeira paixão e ele interpretou mal, quando ela lhe disse que estavam juntos há três meses.
Pensou que Carol estivesse vivendo um forte caso de amor com alguém e se achasse muito feliz. Entretanto, notava que pelo menos duas vezes por semana ela chegava calada, triste e quase não lhe dava atenção, apesar de fazer de tudo para deixá-la alegre nessas ocasiões.
Uma noite ela chegou com febre e resfriada, estava muito abatida e num certo momento ela saiu da sala e fora ao banheiro, na volta Carol passou mal, quase desmaiou, estava muito tonta, um amigo a levou até a rodoviária.
Leonardo confidenciou-me que se na época ele estivesse de carro a teria deixado em sua casa e não na rodoferroviária em si.
No dia seguinte era sábado e ela faltou. Como sempre, Leonardo fez um resumo e lhe entregou na segunda-feira. Conversaram sobre o fato passado naquela sexta-feira e devido ao fato dela estar com desejo de saborear um chocolate branco e ter falado duas vezes em gravidez, chegou a pensar mais uma vez erroneamente que ela estivesse grávida, porém era só uma brincadeira de sua parte e ele gemeniano sempre imaginando as coisas mais além, achou realmente que Carol estivesse grávida.
Leonardo sempre teve um enorme desejo de ser pai de uma menina e disse-lhe brincando que se fosse menina ele seria o padrinho, não a perdoaria se não o fosse.
Capítulo XXV
O QUE UMA FOTO PODE FAZER ÀS PESSOAS INSENSÍVEIS
Chegou fins de novembro e Carol ainda não havia feito o trabalho de Ciências Políticas, apesar de quase toda a semana Leonardo a estar alertando sobre a proximidade da data final de entrega do mesmo.
De modo que ele lhe emprestou um bom livro, a fim de que ela pudesse realizar o seu trabalho e não fosse prejudicada.
Ela o fez então, ele o digitou dando-lhe o layout final entregando-lhe logo em seguida.
Ela corrigiu alguns erros de digitação, ele o refez e ela entregou na data prevista.
Numa terça-feira eles estavam conversando fora da sala de aula, a espera do professor de Administração e ela como sempre, mexendo e remexendo em sua agenda. De repente ela pegou uma foto como se estivesse com muita raiva e a fez em picadinhos de pedaços de papel.
Continuaram conversando e ele não entrou no mérito da questão sobre a foto, porque notou que ela estava um pouco nervosa e que tinha havido algum problema com ela.
Nessa noite o professor chegou atrasado e dispensou a turma, eles ficaram a esperar a próxima aula que iniciava às 21 h.
Leonardo, então a convidou para beber um suco, comprou alguns bombons e ficaram sentados conversando. Conversa vai, conversa vem, e ele com muita cautela conseguiu fazer com que ela se abrisse, dizendo-lhe o que tinha ocorrido.
Ela tinha passado o fim de semana na Guariroba, e por causa de uma foto de um amigo que ela tinha muita consideração, o namorado tinha brigado com ela e não a tinha trazido até a UNB. Estava muito magoada por isso ter acontecido e principalmente com ele porque não tinha vindo com ela deixou-a vir sozinha com dois amigos, não lhe tinha dado qualquer atenção.
Carol estava muito triste, então, ele lhe disse que Jefferson realmente não a amava, queria apenas se aproveitar dela e lhe explicou que se ele realmente a amasse, já teria resolvido a toda a sua situação, fazendo-a feliz e por causa de uma foto de um amigo de estimação não era motivo para não lhe dar atenção e brigar com ela.
Ela ficou magoada por ele lhe ter dito isso e lhe disse: - Só porque estou com problemas você me deixa mais e mais por baixo. Estava quase chorando.
Disse-lhe que não tinha sido essa sua intenção, que era de opinião que iria fazer com que ela visse a realidade e abrir os seus olhos, porque realmente ele não gostava dela.
Carol, então, ficou mais triste e quase chorou. Leonardo sentiu que ela estava internamente chorando. Porém, em seguida desviou do assunto para coisas amenas, mais alegres que ela gostava e foram para a sala de aula, porque já estava a começar a aula de Economia.
Ao término da aula ele a levou até a rodoviária e cada um seguiu o seu destino para suas casas.
Na volta para casa, para ele foi muito triste porque absorvia a tristeza dela e ficou muito preocupado com sua princesa, não conseguiu dormir direito naquela noite de tanto pensar nela. Ele estava completamente amargurado e não conseguia entender como alguém podia ferir e magoar uma pessoa tão meiga e tão doce como Carol.
Pela manhã chegou no seu serviço e fez cinco poesias para sua princesa e nelas, de uma certa maneira, expressava todo o seu amor por ela. Porém um dos poemas era uma crítica específica ao seu namorado.
Somente fez e guardou-os porque não era sua intenção dar-lhe, já que pensava que se o fizesse perderia a sua amizade para sempre e não queria jamais que isso acontecesse.
Na semana seguinte ela lhe ligou e disse que ele tinha razão, e tinha alguma coisa para lhe dizer; porém, não poderia ser por telefone.
Quando Leonardo chegou à faculdade, conversaram novamente, porém, ele não tocou no assunto sobre o que ela queria dizer e assim passou-se terça, quarta e quinta, nesses três dias Carol estava numa frieza terrível e ele fazia de tudo para tentar mudar seu estado de humor.
Então, chegou a na sexta-feira, por volta das 14 h lhe telefonou e antes dela poder respirar, ele já a estava convidando para saírem.
Ela aceitou e combinaram de sair logo no final da aula de Matemática, terminou a aula eles saíram, perderam a aula de Economia, porém tinham alcançado um bom grau nessa matéria e poderiam faltar aquela aula sem problemas para eles.
Leonardo notou que ela ainda não tinha mudado o seu humor e percebeu que ela não estava a fim de sair. Perguntou se ela desejava sair realmente ou queria voltar e participar da aula.
Ela lhe disse: - Você faz tudo para me deixar alegre e por mim, é hora de eu fazer um pouco por você e tentar deixá-lo feliz.
Foram para um bar chamado Obelix, que tinha sido maravilhoso na sua primeira saída. Porém, naquele dia, não foi como eles esperavam ser, porque a música praticamente parou, quando chegaram para o intervalo dos músicos e só recomeçou uma hora depois.
A princípio ela estava fechada, mas depois foi se soltando e relatou tudo que ela estava sentindo, pediu-lhe então, que nunca mais tocasse ou falasse algo sobre o seu namorado.
Assim quando chegaram, logo no primeiro chopp ele lhe entregou as poesias, porque achou que ela gostaria de lê-las, muito embora pudesse ter um desfecho ruim para ele.
Ela leu, consultou sua famosa agenda para ver se a data de um evento estava correta e disse que não tinha sido em 12 setembro e sim em 15 de setembro que eles tinham saído pela primeira vez. Sobre a poesia que criticava seu namorado ela disse: - Sei que ele não tem sensibilidade para entender. Sobre as outras ela as leu, porém não teceu qualquer comentário, só disse-lhe que no último dia do semestre ela lhe daria uma opinião sobre todas elas. De certa forma, Leonardo ficou internamente um pouco chateado, mas não a deixou perceber isso, porque ele expunha todo o seu ser, todo o seu coração para uma pessoa e ela ficava fria, distante, não lhe dizendo absolutamente nada, não dava a mínima. Disfarçou bem sua insatisfação e continuou a noite.
Naquela noite ela chorou, ele sentiu muito, porém a animou e ela sorriu.
Foi uma noite muito especial, apesar de tudo, porque passou quase três horas com ela ao seu lado e isso para ele era por demais gratificante.
No outro dia foi a entrega das provas de contabilidade com o resultado final, ela passou com "MM" e Leonardo ficou com a terceira melhor média da turma e esse fato a fez parabenizá-lo.
Naquele dia eles saíram mais cedo e passearam bastante vendo as modas pela cidade. Foi maravilhoso aquele dia para ele.
Na segunda-feira seguinte foi prova final de Economia, na terça-feira, Administração e na quarta-feira foi o desafeto dela, a Matemática.
Ele fez de tudo para que ela pudesse passar, ficou na terça e na quarta até a hora da prova lhe explicando todas as possíveis questões, a aguardou terminar, quando encerrou era por volta das 23 h 15 min e ele estava ali esperando-a.
Carol estava muito preocupada a princípio, porém quando o viu, ele sentiu que ficara mais tranqüila e aliviada.
O ônibus só passou às 23 h 15 min e ela perdeu o outro ônibus que ela pegava na rodoviária. Ficou com ela até ter certeza de que não iria acontecer nenhum problema com ela. Na sexta-feira foi à faculdade a fim de saber se ela tinha sido aprovada em Matemática, porque se ela tivesse alcançado grau 7,0, 7,5 ou mais teria passado porém só alcançou 1,5 e foi uma grande decepção para ele ter que lhe dizer por telefone que ela não tinha passado.
Na segunda-feira seguinte seria conforme o calendário da UNB a entrega dos boletins finais e obviamente o último dia do semestre.
Leonardo, como gemeniano típico, esperava sair com ela para encerrar o semestre com muita alegria. Já havia convidado-a antes para jantar com ele, isto foi na sexta-feira da semana anterior, porém ela disse-lhe que iria encontrar um amigo que há muito tempo não o via e que se ela não se atrasasse ela iria.
Sabia que era uma desculpa sem lógica, porque já sabia muito sobre ela e também porque Carol, ao lhe responder, tinha movimentado os olhos para cima e para a esquerda o que caracterizava, segundo os estudos feitos por ele sobre Iridologia, que quando a pessoa faz isso está buscando imagens que não existem, ou seja, está faltando com a verdade e esse movimento dos olhos nos diz que a pessoa está imaginando para depois poder responder.
Na tarde de segunda-feira, quando ele lhe telefonou para marcar o horário de se encontrarem na UNB, tocou de novo no assunto, então, ela foi sincera e lhe disse que não estava com clima para comemorar nada, não queria sair para lugar nenhum, disse-lhe mais, que ela era assim, quando tinha que dizer alguma coisa, falava logo, não usava subterfúgio.
Foi uma decepção muito forte para Leonardo, foi como se tivesse levado uma paulada na cabeça, porque já tinha reservado uma mesa em uma cantina das mais famosas de Brasília, com música ao vivo. Ia ser realmente uma noite maravilhosa para ela e para ele também.
Dias antes ela tinha lhe dito que ele era uma pessoa gentil, um cavalheiro e de grande sensibilidade e, quando ela estava com ele, ela se sentia protegida e valorizada como ser humano e como mulher.
Aí Leonardo pensou que se Carol tivesse ido, ela teria realmente a oportunidade de sentir que embora alguém não a fizesse feliz, há outras pessoas que se preocupam muito com ela e fariam tudo para fazê-la feliz, o que a faz sentir-se por demais valorizada, e ele era uma dessas pessoas.
Realmente, foi uma grande decepção ela não ter ido com ele, deixado-o triste, muito sentido, porém quando viu seus olhos à noite, toda essa decepção caiu por terra.
Lá encontraram o "Renato", o "Gaúcho" de sua turma e viram que não havia saído qualquer boletim. Então, voltaram, mostrou-lhe o carro que havia comprado do seu grande amigo Jerônimo, ela gostou e foram até a Rodoviária.
Foram conversando, mas, tudo que ele almejava dizer-lhe, nada foi dito, porque não sabia a causa, contudo, quando Leonardo está junto dela, às vezes, se perde por completo, é como se ele se tornasse um adolescente diante da primeira namorada. Às vezes, as palavras lhe faltam, não sei realmente explicar o que ocorre com ele. Carol exercia uma influência muito forte sobre ele, era um magnetismo de atração tão forte que ele ficava inibido diante dela apesar de seus 48 e ela somente 18. Quando chegaram à rodoviária, Leonardo despediu-se dela e pela primeira vez perdeu um pouco de sua timidez e pediu-lhe para lhe dar um beijo na face, porque ela já ia saindo e não mais a veria naquele final de ano.
Deu-lhe os tradicionais três beijos e despediu-se dela. Ao sair ficou com uma sensação de vazio imenso. Era como se estivesse angustiado, não iria vê-la porque Carol iria viajar para Maranguape e por ter que passar muito tempo sem vê-la dava-lhe uma sensação de perda muito grande e, à medida que se aproximava de sua casa, o vazio tornava-se mais e mais acentuado.
Era realmente o fim do semestre para ele, não conseguiu dormir naquela noite. Carol preencheu os seus pensamentos durante toda noite. Quando seria que iria revê-la?
Capítulo XXVI
A GRANDE REALIDADE... O DESPERTAR
Leonardo desejava estar ao lado de Carol e principalmente porque achava que estava por demais apaixonado por ela, foi aí que vislumbrou a realidade e despertou desse estado de contemplação contínua que tinha por ela.
Simplesmente ele enxergou que o que mais o aproximava de Carol era o desejo intenso e nunca satisfeito de ter tido uma filha e ela representava para ele inconscientemente essa filha que ele sempre desejara. Por isso ele gostava demais dela e sentia um imenso desejo de ajudá-la e protegê-la, este foi o primeiro fator que o fez despertar para a realidade.
O segundo fator que o fez sair de seu devaneio foi ver que ele estava projetando a imagem de uma pessoa que amou demais há cerca de muito tempo.
Por parecer demais com ela inconscientemente ele achava talvez que fosse Quelma, porém sendo um ser humano logicamente é suscetível ao erro.
O mais importante fator que o fez ver esta realidade e despertar definitivamente foi que na noite do dia 11/12/95, quando foram buscar o resultado e que na volta ele ficou em estado de vazio completo, mais uma vez sentiu a presença de alguém muito especial que sempre o protege, ele acha que deve ser algum anjo que está sempre lhe guiando nos momentos mais difíceis de sua vida.
Ele não o via, mas sentia a sua presença em sua volta e podia ouvir o seu sussurrar, porque suas palavras pareciam sussurros, tornando-se audíveis para ele.
Você extrapolou, confundiu as coisas, eu te pedi somente que lhe desse apoio, sua proteção, porque ela necessitava e necessita. Você foi o escolhido para essa missão. Não a coloquei em teu destino por mero acaso ou para você se apaixonar por ela, acorde! Você ainda vai ser feliz, vou compensá-lo pelo que tem feito pelos outros e principalmente pelo que você possa vir a fazer em benefício dela também, minha protegida.
Carol ainda não despertou. Não sabe o potencial que tem; vive oprimida, triste, amargurada e quando deseja libertar-se disso pode, às vezes, cometer loucuras. Cabe a você despertá-la aos poucos.
E continuou a falar, você mais uma vez deu prova de sua percepção e argúcia, quando achou por bem não querer dizer-lhe que a amava, porque perderia com certeza sua amizade temporariamente, todavia, ela iria procurá-lo, porque não foi à toa que eu os aproximei.
A consideração que ela tem por você seria abalada e eu teria que amainá-la para reaproximá-la de você novamente.
Em seguida ele calou-se e assim como Leonardo sentiu a aproximação de sua presença, pressentiu a sua saída.
Ficou muito pensativo sobre tudo aquilo que ouvira e após uma longa reflexão viu que o anjo estava completamente certo, como sempre.
Este foi o terceiro e definitivo motivo que o fez acordar dessa ilusão.
Para ele seria por demais terrível, sentir que Carol estivesse se afastando de si, esperava que isso jamais ocorresse, principalmente porque não desejava falhar com "DEUS", que sempre esteve do seu lado dando-lhe tudo e alertando-o quando qualquer perigo o ameaçava e jamais poderia falhar na primeira vez que ele lhe pediu alguma coisa.
Seria realmente um verdadeiro absurdo de sua parte deixar de atendê-lo, por causa da interpretação errônea da parte de Leonardo.
Dias depois teve a oportunidade de confirmar suas suspeitas. Ela desejava fazer uma filmagem da UNB para levar a Maranguape, então convidou um colega de trabalho do CIGE, o Sgt César, o qual reside em Sobradinho, para fazer essa filmagem. Marcou com ele para chegar às 18 horas. Ficou tudo acertado, então, ligou para ela e marcou de se encontrarem no mesmo local.
No horário previsto Leonardo estava lá, antes passou na chefia da Administração e fez sua matrícula para o curso de verão, matriculou-se em Cálculo Financeiro e Gestão Organizacional.
Deu 18 horas, então, apareceu Carol, estava muito bonita, como sempre, porém estava acanhada com vergonha de fazer a filmagem, então ele começou a lhe dar forças para aquela atividade.
O tempo passava e César não aparecia, resolveram verificar os graus finais em suas matérias. Ela passou em quatro, exceto em Matemática, e ele tinha também passado em quatro, ficando somente em Contabilidade. Até nisto eles estavam empatados.
O tempo passava já eram 19 h e César não apareceu aí ele resolveram ir embora.
Conversando no carro Carolinne queria ir até a igreja, não sei se era para participar de alguma missa ou reunião, e a convidou para irem até a Tratoria Oviedo, ela então lhe perguntou o que era isso? Disse-lhe que era um pequeno restaurante na 306 Norte. Continuaram conversando e estavam indo a direção ao Conjunto Nacional para ver as modas... de repente ela lhe disse: - Leonardo, vamos lá, você já me fez muito feliz, hora de eu tentar fazer você um pouco feliz. Respondeu-lhe que não era seu desejo que ela fosse lá com ele por uma obrigação, ela retrucou, mas agora sou eu que quero. Disse-lhe: - Seu pedido é uma ordem.
Foram e quando lá chegaram ela gostou muito da tranqüilidade do local, conversaram muito e aquilo que ele não desejava que viesse à baila veio repentinamente, quando Carol lhe perguntou o que realmente sentia por ela. Se era carinho especial, amizade ou algo mais, amor.
Leonardo quis fugir do assunto, porém ela lhe disse: - Não fuja do assunto, eu quero saber realmente o que você sente por mim?
Ele lhe disse a verdade, que entre fins de outubro e início de novembro pensava que estava loucamente apaixonado por ela. Entretanto, tinha descoberto que nós não podíamos ser mais que amigos, porém não lhe disse o motivo porque sabia que ela não acreditaria. Então disse-lhe que seria para ela um grande amigo, seus destinos estariam sempre ligado, mas só em função de amizade. Até aquele momento tinha consciência que necessitava protegê-la e ajudá-la, porém do quê realmente, não sabia.
Carol perguntou-lhe se isso não era coisa de sua cabeça. E ela continuou... seriamente disse-lhe que ele tinha agido certo em não lhe ter falado nada, porque o que ela sentia por ele era um carinho de filha para pai e que jamais se envolveria com um homem que fosse casado, continuou falando que jamais amaria outro homem a não ser o seu atual namorado, embora estivessem brigados e ele a magoasse bastante e sempre a fizesse sofrer.
Se lhe tivesse dito qualquer coisa na citada data anterior, ela teria se afastado dele, como previra o anjo e que talvez perdesse a sua amizade, naquele momento perguntou-lhe se queria comer alguma coisa, ela disse que sim, chamou o garçom, aceitaram sua sugestão e passaram um início de noite realmente ótimo, como pai e filha ou como bons velhos amigos que se encontram, a única coisa que não estava muito boa eram as músicas, as quais estavam muito tristes e que lhe deixaram internamente triste, porque relembrava um passado distante em que lhe direi como Leonardo conheceu Carol em vidas passadas na Espanha.
Capítulo XXVII
UMA BREVE RETROSPECTIVA NO TEMPO
Os meus amigos leitores devem estar estranhando esta fixação da parte de Leonardo em tentar proteger Carolinne e estar disposto sempre a ajudá-la.
Todavia eu vos digo que a origem de todo esse imenso carinho que Leonardo lhe deve, transcende essa nossa atual existência.
Todo o seu caminhar vem de longínquas datas, desde os tempos áureos da Espanha, quando ela era uma bela e majestosa dançarina que encantava a corte espanhola.
Os homens a bajulavam e queriam ter a sua amizade, porque ela tinha livre acesso ao palácio real.
As mulheres a odiavam por causa de sua beleza e também devido ao seu prestígio junto à corte.
Foi durante essa vivência que eles vieram a se conhecer pela primeira vez.
Ele também a admirava, não pelos seus dotes físicos e pessoais, mas sim porque quando ela dançava, deixava-o magnetizado pela sua expressão corporal e pelo seu sorriso. Naquela época, Carolinne se chamava Graciele e Leonardo, Sanches.
A primeira vez que ele viu Graciele foi quando ele se apresentou ao Palácio do Governo.
Ele iria ser o chefe da guarda palaciana e teria sobre seus ombros a responsabilidade da segurança do Rei e de toda a sua família.
O Rei Carlos IV era uma pessoa rígida, governava com altivez e rigidez, porém gostava de ter contato com o povo e isso às vezes, dificultava as ações das pessoas envolvidas com sua segurança.
Haveria uma dança folclórica da Região de Andaluzia e de Catalunha e o povo estava agitado durante aquela semana.
Muitas pessoas desejavam adquirir uma vaga para poderem assistir com tranqüilidade o evento.
No citado dia o palácio estava repleto, era um vaivém constante de pessoas na área palaciana.
Sanches e seu pessoal tinham que estar atentos, devido a pequenos furtos que eram comuns ocorrer naquelas ocasiões.
Ele estava passeando pelo jardim, quando de repente deu de cara com uma majestosa mulher, que estava sentada junto a um banco de pedras, bem próximo a uma árvore, cuja fragrância deixava inebriado a quem aspirasse com mais profundidade seu perfume por muito tempo.
A árvore não recordo seu nome no momento, porém sei que no Brasil existem árvores semelhantes.
Ficou estarrecido com a expressão de seu olhar, que era uma mistura de angelical com brandura. Ela aparentava ter uns 23 anos, alta, com uns 54 quilos, loura com os olhos esverdeados, pareciam duas lindas esmeraldas puras de grande valor.
Trajava uma roupa que logo notava-se a sua descendência cigana, porém o seu sorriso era por demais encantador, aliado à calma que o irradiava.
Aproximou-se mais e lhe perguntou:
- Que faz aqui tão solitária, oh linda cigana?
- O mesmo que você, vim ver as apresentações de dança.
- Ah! Então você gosta de dança?
- É meu mundo, eu vivo disso. Dançar é a minha vida.
- E você dança onde?
- Em qualquer lugar, desde que eu seja recompensada, nestes tempos difíceis, não podemos trabalhar de graça, certo?
Obviamente o lado cigano estava sempre ativo para qualquer transação em qualquer ocasião
Perguntou-lhe por qual motivo não se inscrevia para o corpo de dançarinas do Palácio, que ocorria todas às quartas-feiras. Ela respondeu:
- Eles não aceitam ciganas, e também não sei escrever, como poderei assinar minha inscrição?
Então, ele lhe disse:
- Isso é fácil de se arranjar. Se você quiser realmente, eu lhe ensino a escrever e depois lhe arranjo a ficha de inscrição. Sou o segurança do palácio e a mim ninguém aqui tem coragem de me negar nada. Depois que você estiver dançando e se você tiver realmente qualidades, o fato de você ser cigana eles vão esquecer por completo, certamente.
Ela sorriu-lhe e disse-lhe pegando na mão esquerda:
- Você é um homem de bom coração. Ao longo de sua vida amarás uma única mulher, viverás com ela, mas não terás o seu coração por completo e sacrificarás a sua vida por esse amor. Viverás muito tempo fora da Espanha e quando voltares, morrerás por causa dessa mulher. Ela não resistirá a sua perda e também morrerá de tristeza. Porém antes que isso ocorra farás muito outras pessoas felizes, e por causa dessa mulher angariarás muitos inimigos poderosos. Uma pessoa poderosa da corte será o teu algoz.
Quando ela disse isso, estremeceu-se por completo! E ele também.
Ela lhe sorriu e continuou - porém agora sem ler a sua mão.
- Aceito a sua proposta, porque li em seu coração que você é uma ótima pessoa. Se tudo der certo eu lhe pagarei dobrado, certo?
Continuaram a conversar e Sanches marcou para todos os dias ensinar-lhe os fundamentos da Língua Espanhola, de modo que Graciele, esse era o seu nome, chegava por volta das sete horas a sua casa e só de lá saia em torno das nove horas e trinta.
Ela era uma mulher muito inteligente, tinha uma queda especial pela Ciência, achava magnífica a Biologia, principalmente o estudo das células. Quanto à Gramática espanhola, ela também aprendia, porém não com facilidade.
Depois de três meses de aulas diárias, Graciele estava ótima, já escrevia normalmente uma carta, lia qualquer livro de leitura compreensível e já fazia soma, multiplicação, divisão, etc.
Fora um passo muito grande que ela dera em direção ao caminho das ciências – deixara de ser analfabeta e as trevas da ignorância já não lhe ofuscavam os seus olhos.
Ele a levou ao Palácio na quarta-feira, no dia das inscrições. Apresentou ao Agente de Cerimonial do Palácio, dizendo-lhe que ela era uma grande amiga e queria que ela dançasse naquele dia. Ele então lhe respondeu:
- É impossível, porque hoje já está esgotada a quantidade de pessoas inscritas para o evento.
Disse-lhe:
- Você não entendeu, Gonzales. Eu quero que ela se apresente hoje! É um pedido especial meu, certo?
Aí ele o olhou seriamente e falou-lhe:
- É sua protegida, Sanches? Por que você não me disse logo? Aqui está a sua ficha de inscrição e boa sorte logo mais à noite.
Quando chegou a hora da verdade, o salão estava repleto e não havia praticamente lugar para ninguém. A Corte estava toda presente e o mestre de cerimônias e solicitou ao Rei permissão para dar inicio as apresentações daquela noite.
Primeiramente, apresentaram-se os artistas do Circo de Cadiz, que fizeram uma grande apresentação e foram muito aplaudidos.
Em seguida vieram as apresentações de danças bascas e flamengas que encantaram bastante. Logo depois começaram as apresentações individuais.
Os três primeiros colocados ganhavam prêmios e tinham já um lugar garantido para a próxima quarta-feira.
A comissão julgadora geralmente tinha pouco trabalho em comunicar o seu veredicto, já que ela atribuía as primeiras colocações conforme a quantidade de aplausos que as dançarinas recebiam.
Graciele foi a última a se apresentar, e quando o fez deslumbrou a todos, inclusive a Sanches, que ficou completamente magnetizado pela sua expressão corporal. Ao dançar, Graciele se tornava radiante, ela dava vida à música quando dançava e todos ficavam em êxtase ao vê-la dançar.
Sua apresentação foi tão magnífica que as pessoas a aplaudiram de pé, inclusive o Rei Carlos IV.
Ela ganhou o prêmio principal e foi chamada automaticamente para a próxima semana. Após receber o seu prêmio, ela veio em direção a ele e o convidou para ceiar em sua casa. Disse-lhe que só estaria liberado após às 22 h e ela lhe respondeu que estava o esperando para comemorar a sua vitória.
Sanches ficou envaidecido e aguardou com muita ansiedade que o tempo passasse para que pudesse estar junto dela.
Quando lá chegou ela o estava esperando com flores à mesa e com variedades de iguarias feitas por ela. Sanches esperava ter uma noite especial de amor, porém o que houve foi somente uma noite de chá especial que ela fez, juntamente com as diversas iguarias, que por sinal estavam muito gostosas.
Passaram um fim de noite agradável. Conversaram muito, porém nada aconteceu entre eles.
Saiu de sua casa por volta da meia noite e foi dormir.
Na quarta-feira seguinte, coincidiu com a festa de San Isidro e sendo uma das festas mais populares na Espanha, as touradas e as danças, de um modo geral, teriam destaque na semana.
A quarta-feira foi realmente especial, começou com uma alvorada festiva com salva de tiros de artilharia, fogos à vontade e banda de música acordando o povo. A alegria estava constante em todos os pontos da cidade de Madrid.
Lá pelas 10 h, houve uma corrida rústica em torno da cidade e em seguida a corrida dos touros, com o povo indo à frente, os touros atrás, uma loucura geral. À tarde houve uma tourada com a participação dos melhores toureiros da época. A arena estava repleta e o povo encontrava-se feliz.
À noite foi aquele verdadeiro corre-corre para se conseguir ter vaga no salão. Ninguém queria ficar de fora. Todos queriam ver as apresentações dos artistas. A festa começou e cada um dos artistas foi dando o seu recado. Os mágicos, os palhaços, os músicos e finalmente os dançarinos.
Todos fizeram a festa, a qual terminou por volta das 23h, já que em seguida iria haver um baile, somente para a Corte e convidados.
Novamente Graciele fez uma excelente apresentação, conquistando com galhardia a primeira colocação.
Por causa disso, ela foi convidada a participar do baile, e nesse baile conheceu o Conde Juan Diego, o qual foi a causa de muitos dissabores para ela ao longo de sua vida e, como conseqüência, para Sanches também.
O Conde Juan era uma figura de importância na Corte, devido a sua fortuna, sua habilidade nas armas e principalmente a posição que ocupava na Corte, que era de Vice-primeiro Ministro, ou seja, era ele a terceira pessoa depois do Rei.
Após as apresentações começou o grande baile de San Isidro e Graciele estava sentada com os demais escolhidos à mesa do Rei e todos os olhares se voltavam para aquela mesa, porque as pessoas mais importantes do Reinado estavam lá.
O Conde a convidou para dançar e durante a dança conversaram. Após a mesma eles foram ao jardim e quando de lá voltaram ele já tinha conquistado o seu coração. Isso ocasionou uma inveja muito grande entre as mulheres na Corte, porque o Conde era solteiro e as mulheres da Corte disputavam a sua preferência almejando tornarem-se Condessas.
Após aquela noite Graciele passou a freqüentar o Palácio diariamente e paulatinamente foi se apaixonando pelo Conde, e obviamente aconteceu o que o Conde não esperava.
Graciele engravidou e após isso, o Conde a deixou.
Porém, antes que isso acontecesse, ela se tornou a primazia da Corte. Foi conquistando a todos com sua dança e seu jeito simples de falar. Angariou muitos amigos e também fez muitos inimigos, devido à inveja que as mulheres tinham de sua beleza e de seu caso de amor com o Conde.
Durante muito tempo ela foi o encanto da Corte e deixava a todos deslumbrados.
Porém, quando Graciele engravidou começaram os dissabores, porque, primeiramente, o Conde a deixou, segundo, ela não pôde mais dançar na Corte e teve que arranjar dinheiro da forma que toda cigana faz: ler o destino das pessoas nas ruas de Madrid.
Durante o período de gestação e após o nascimento da pequena Consuelo, Sanches esteve lado-a-lado com ela dando-lhe forças e a apoiando moralmente, e às vezes, financeiramente, quando a situação estava por demais periclitante.
Quando a criança nasceu, houve uma reaproximação do Conde Juan Diego, porém durou pouco, porque o Conde Juan estava de namoro com a Marquesa dos Anjos, a qual era sobrinha do Rei de Portugal.
A Marquesa era poderosíssima, tinha uma influência muito forte na Corte e tinha muitos aliados.
Durante muito tempo ela ficou à mercê das visitas do Conde, porém quando houve o casamento dele com a Marquesa a sua situação piorou.
O Conde Juan deixou automaticamente de visitá-la e sua vida foi se tornando mais e mais difícil.
Para piorar a situação, Consuelo ficou muito doente, pegou pneumonia e quase veio a falecer.
Por essa época Sanches ficou mais e mais amigo dela, não lhe deixando faltar nada, porém ela vivia muito triste, o que o deixava também.
Ela desejava ir para Cadiz, onde tinha família, porém as condições no momento não eram propícias e ela teve que se ater à realidade presente.
O tempo foi passando e a situação permaneceu sem evoluir, tanto no aspecto financeiro quanto no aspecto sentimental e familiar, e após a pequena Consuelo completar cinco anos, foi que a situação se agravou.
... Corria o ano de 1788, Carlos IV governava com muita rigidez, havia uma insatisfação reinante e o povo estava nervoso, devido à falta de trabalho, inflação e fome. Além desses aspectos cabe ressaltar que havia muitas intrigas na Corte e de vez em quando vinha à tona algum plano de conspiração que era devassado com todo o vigor.
O Estado espanhol vivia coberto por uma rede de intrigas, falsidades e complôs e, por causa disso, ele arrochava e controlava tudo que lhe pudesse julgar oposição.
A perseguição ao credo religioso era por demais acentuada, principalmente aos protestantes, aos templários e ao povo cigano.
Nesta época Sanches, assim o chamavam, era o principal arqueiro da guarda real "palaciana", uma espécie de chefe da segurança, portanto, conhecia com profundidade algumas figurinha da corte e tinha acesso, a quase que totalmente, a qualquer área do palácio real.
Neste período difícil que passou a Espanha e seu povo que era muito sacrificado. O vinho, a dança e a música faziam esquecer as mazelas da vida cotidiana.
Graciele dançava todas às quartas-feiras no palácio e numa dessas ocasiões ele travou contato com ela e ficaram amigos, muito embora o seu círculo de amizades fosse completamente diferente dos seus, porque ela era a alegria da corte e os fidalgos estavam sempre a cortejá-la e um deles, Juan Diego, ganhou o seu coração. Juan era um conde que tinha muito prestígio na corte devido a sua fortuna e sua habilidade de lidar com qualquer tipo de espada ou esgrima, portanto era muito temido e respeitado.
Entretanto, o Visconde Juan Diego era uma pessoa amarga e Graciele não vivia feliz porque Juan tinha várias mulheres na corte e quando ela ficou grávida de Consuelo ele a deixou.
Foi um período difícil para Graciele, porque teve que parar de dançar e se afastou da corte palaciana, de modo que naquele ano fatídico de 1791, quando Consuelo esteve seriamente doente, Sanches esteve presente em todos os momentos importantes por que Graciele passou.
Sua intenção era casar-se, porém Juan Diego ocupava o coração da linda cigana dançarina, às vezes, ele a visitava e quando saía, Graciele ficava com um duplo sentimento: ter passado uma noite exuberante de amor e contentamento e uma profunda tristeza de saber que Juan a usava somente como brinquedo que podia pegar e largar a hora que bem desejasse. Portanto, Juan não tinha por ela a mínima consideração.
Isto deixava Sanches totalmente desolado, porém não podia fazer nada para sanar esta situação, porque Graciele não o aceitava para viver ao seu lado (casar-se) nem podia tirar qualquer espécie de satisfação com o conde Juan, devido à sua perícia nas armas, era loucura alguém desafiar o conde.
Sua mágoa contra ele era imensa e ele tinha que saber conviver com ela a fim de ele mesmo não ser destruído.
Outra coisa que o deixava inebriado quando estava com sua amada era a fala de sua fada. Graciela tinha uma voz suave e magnetizante. Ele adorava o seu timbre de voz. Até hoje Leonardo quando sente o passado voltar bruscamente ao está a conversar com Carol. Sua voz linda e suave, com seu modo específico de falar, faz com que ele se recorde da Graciele de outrora.
... Quando Consuelo completou dez anos, Graciele estava um pouco abatida devido às últimas notícias que corriam na corte. O Visconde Juan tinha casado pela segunda vez com uma Marquesa dos Anjos, que tinha grande influência na corte, a Marquesa era sobrinha do rei D. João VI de Portugal, soberano por demais poderoso na Europa da época.
Se ela já não vivia bem, a partir desse período começaram os seus infortúnios, porque a Marquesa dos Anjos dominava politicamente a corte e seu marido, o Visconde Juan não tinha forças para se opor aos projetos e ordens que a Marquesa, sua mulher, lhe solicitasse.
Sabendo que o Visconde Juan Diego tivera um caso de amor com a "bela cigana", como era chamada Graciele, a primeira providência dela foi conseguir com a rainha uma proibição para que não houvesse mais dança na praça e isso foi terrível para Graciele, que teve que arranjar dinheiro de outro forma, lendo destino das outras pessoas, coisa que ela não fazia há muito tempo.
Existia um ódio exacerbado da Marquesa dos Anjos por algumas mulheres da corte que tinham sido namoradas do conde Juan e por Graciele, por ser a mais bonita, talentosa e carismática, ela sentia um ódio terrível.
... Estava havendo na corte espanhola uma conspiração muito forte a fim de assassinar a Marquesa dos Anjos e o 1º Ministro, Conde dos Arcos, o qual se submetera às ordens da Marquesa dos Anjos.
Porém, os conspiradores não obtiveram êxito e quando terminou, tiveram a forca como resultado. Graciele teve seu nome envolvido na conspiração puramente, porque a Marquesa se sentia ameaçada por sua beleza e não teve dúvidas em aproveitar aquela oportunidade ímpar que se apresentara para se livrar dela.
Graciele foi presa, julgada e condenada sumariamente. Estava já a cinco dias de sua execução, quando Sanches resolveu empregar todo o seu conhecimento e diplomacia para libertá-la. Solicitou audiência ao 1º Ministro, Conde dos Arcos, porém foi infrutífera a sua tentativa. Então, foi direto à Marquesa dos Anjos e quase também foi preso.
Ficou desesperado, não sabia o que fazer e não lhe vinha à cabeça a menor das idéias.
... De repente lembrou-se de que a corte estava envolvida em corrupção profunda e que todos de alguma maneira queriam dinheiro para fazer alguma coisa.
O grande problema para ele era ter pouco dinheiro e para livrar um preso seria necessário corromper muita gente: comandante do presídio, guardas, carcereiros etc.
Isso custava muito dinheiro e ele realmente não tinha. Era um simples sargento arqueiro da guarda palaciana, mas seu amor por Graciele era intenso e não admitia que ela viesse a morrer enforcada por causa de um simples capricho de uma mulher vingativa e fútil.
A primeira questão resumia-se portanto como arranjar dinheiro naqueles tempos difíceis, porque de posse do vil metal tudo se tornaria mais fácil.
Vendeu algumas jóias de sua propriedade, alguns carneiros e vacas que tinha, porém, devido a escassez de capital o pouco que conseguiu era insuficiente para se aventurar em uma jornada tão perigosa, porque se desse errado seria a morte certa para ele também e logicamente ele queria viver bastante, de preferência ao lado de sua amada..
Então pensou, pensou, pensou... e achou a fórmula de conseguir muito dinheiro em outra jogada arriscada, porém já tinha começado e não podia mais recuar, era tudo ou nada.
Comprou dois dados novos, os limou preparando-os para tornarem-se viciados, só dariam 12 pontos, conforme o jeito especial de se jogar. A partir daquele momento que foram limados e chumbados, isso se fossem jogados para ficarem rodando até pararem.
Foi para o grande Cassino de Madrid e lá encontrou Conchita, que tinha uma queda por ele, embora soubesse de sua predileção por Graciele. Contou-lhe que estava necessitando de muito dinheiro para poder mandar Consuelo para Cadiz, onde morava a mãe de Graciele e que estava desprovido por completo de capital. Aí ela perguntou, de supetão, sobre as jóias e animais que ele tinha vendido, o que tinha feito com esse dinheiro. Disse-lhe que enviara todo para um irmão que estava em dificuldade na Inglaterra e que o mesmo estava em situação terrível com muitas dívidas e ameaçado de morte pelos seus credores e para ele era mais importante não ter nada do que ver um irmão morto, podendo eu sanar essa situação.
Então, ela lhe disse: - Desculpe-me, não sabia que as coisas estavam tão ruins para você. Por que você não tenta a sorte no cassino?
Disse isso dando a entender que faria jogo mole para ele com os dados. Disse-lhe "Adios, mi herrmano", e saiu sorrateiramente balançando os quadris.
Sanches gritou-lhe: - Vejo você logo mais no Cassino, depois nós passaremos bons momentos, caso dê certo.
Era Conchita que passava à noite a jogar os dados no Cassino pela banca.
De modo que quem fizesse doze pontos ficava com a banca ou ganhava todas as outras jogadas.
Conchita deixou bem claro que se Sanches a levasse por duas noites em alguma casa de dança distante de Madri, onde ela poderia tê-lo por completo, ela faria vista grossa logo mais no Cassino, e amoleceria a cada três jogadas. De modo que o que ele tinha de fazer para ganhar todas as partidas era jogar somente em todas as terceira vez. Porém o que Conchita não sabia era que ele estava com dados chumbados e iria lhe pedir para trocar os mesmos no início do jogo.
O Cassino cheio, as mesas repletas de pessoas, todas jogando cartas, roletas e outros tipos de jogos, e Sanches lá nos dados.
Conchita ia lançar os dados e ele antes que ela o fizesse gritou 400 pesetas para matar o ponto da banca. Todos olharam para ele, porque 400 pesetas era um capital relativamente grande, outro gritou de seu lado, 400 pesetas como você não mata o ponto da banca, novamente ele gritou: - Alguém mais?
Aí apareceram quatro pessoas, de modo que ele fez numa só jogada uma aposta de 1600 pesetas.
Era todo o seu dinheiro, caso falhasse sua previsão, estaria totalmente arruinado, logo na primeira jogada. Então, Conchita gritou: - Jogo feito. Lançou os dados não de maneira especial como ele lhe tinha mostrado. Os dados rolaram e quando pararam estava 10 pontos. Foi uma alegria geral, porque 10 pontos dificilmente alguém consegue superar.
Eles estavam vibrando de emoção, todos esperavam só o lançar dos dados para poderem pegar o dinheiro que estava com o Crupier.
Sanches pegou os dados e os lançou de sua maneira; quando os mesmos pararam, lá estavam 12 pontos, suspirando aliviado já que estava suando frio durante aqueles breves segundos em que os dados estavam rolando.
Houve um murmúrio geral de espanto, porque eles já estavam considerando a jogada como perdida para ele.
Pegou de uma só tacada 1600 pesetas com mais 1600 que tinha jogado já contabilizavam 3200 pesetas.
Ele gritou novamente: - 1000 pesetas como matava o ponto da banca. Aproximou-se um Conde e foi logo sacando do bolso uma enorme quantia de dinheiro e disse confiar na mão de Conchita.
De modo que foram feitas várias apostas com ele, com a banca e entre todos.
Conchita lançou os dados e novamente 10 pontos. Foi novamente um murmúrio geral, estavam confiantes na vitória. O Conde não se conteve e beijou Conchita, que meio encabulada ficou vermelha, o Conde gritou: - Bebida para todos.
Sanches bebeu um gole de rum, em seguida pegou os dados, e lançou da maneira que ele tinha estudado e quando o mesmo parou, lá estavam os 12 pontos. Alguém gritou: - Que buena suerte tiene este ombre!
Pegou novamente o capital ganho e Conchita mais que depressa pegou os dados. Havia um murmúrio geral.
Para que não houvesse qualquer espécie de suspeita, disse para que todos ouvissem: - Vou beber uma cerveja e esfriar a cabeça, porque nem sempre si tinie una buena suerte.
Estava com 6.400 pesetas, já dava para o seu propósito, mas ele não queria ter qualquer espécie de dúvidas a respeito de sua empreitada. E quando se vê a possibilidade certa de se ganhar mais dinheiro, sempre se esquece da segurança e continua-se arriscando, foi o caso de Sanches.
Passou meia hora pelo salão, e quando voltou, o jogo estava a todo vapor. Ficou observando o jogo durante mais de quinze minutos para ver quem estava apostando forte contra a banca, que quase sempre vencia e quando queria perdia.
De repente ele gritou 3.100 pesetas como matava o ponto da banca, porque na jogada anterior Conchita tinha lançado os dados para que os mesmos saíssem com poucos pontos, o que fez com que somente saíssem 5 pontos nos dois dados.
Aí o Crupier gritou: - A banca aceita a aposta e aposta mais 500 pesetas como você não consegue.
Sanches aceitou o desafio e outros também, de modo que numa só jogada houve uma aposta de mais de 8.000 pesetas, juntando tudo.
Conchita lançou os dados e quando pararam lá estavam sete pontos.
Houve um murmúrio geral; então Sanches pegou os dados e todos ficaram na expectativa de ele não conseguir mais que sete pontos.
Nesse lance ele tinha que tirar menos que doze para não se obter qualquer suspeita.
Então perguntou se podia lançar um por um, ao que todos responderam que sim.
Lançou o primeiro, saiu 4, a possibilidade de o outro dado sair menos de 4 era grande. Havia uma agitação muito grande a espera do segundo ponto, de modo que quando o lançou, os olhos deles ficaram grudados no dado a espera de que o mesmo parasse de girar e quando mesmo o fez, lá estava novamente 4 pontos. 4 + 4 = 8, ele ganhara de novo.
Então o Conde gritou: 5.000 pesetas como você não mata meu ponto. Sanches aceitou a oferta e perguntou se alguém mais aceitava a oferta do Conde. Alguns aceitaram e ele apostou tudo que já tinha ganho, ficando somente com os seus 1.600 iniciais.
O Conde lançou os dados e quando os mesmos pararam, lá estavam nove pontos, número grande que dá uma certa tranqüilidade a quem está apostando.
Sanches pegou os dados e lançou de sua maneira. Quando os mesmos pararam, lá estavam 12 pontos. Foi um grito geral: - Que buena suerte!
Pegou todo o capital e saiu, porém antes piscou para Conchita que imediatamente pegou os dados e enquanto eles faziam as novas apostas ela trocava os dados sem eles perceberem.
Foi embora com aproximadamente 38 mil pesetas. Era uma grande fortuna naquela época em que havia uma grande falta de dinheiro. Só os nobres, os burgueses, banqueiros e alguns políticos podiam gastar muito dinheiros nos salões de Cassino de Madrid, porque exploravam o povo e o dinheiro lhes chegava fácil.
Capítulo XXVIII
A FUGA
Sanches trocou as fichas ganhas nos dados por dinheiro, colocou em uma bolsa e saiu rapidamente daquele local. Eram aproximadamente 20h. Foi direto para uma estação de trem, comprou uma passagem para Oviedo e fez com que todos que o encontravam pensassem que ele estava a viajar para Oviedo. Quando o trem deu a partida, ele estava no último vagão e saltou no lado oposto da Estação, saindo em seguida do mesmo sem ser visto por qualquer pessoa.
Foi então, para o porto de Madrid, procurou um armador cujo nome era Carlos, e sondou com ele quanto custaria um barco que estivesse a venda que pudesse chegar até Barcelona. Carlos, o armador disse-lhe que havia vários armadores que estavam a vender seus barcos. Pediu-lhe então que o levasse até um deles e ele o levou. No caminho perguntou-lhe quanto ganhava por mês com a pescaria, ao que ele respondeu que ganhava cerca de 70 pesetas.
Fez-lhe um proposta: Daria-lhe 500 pesetas se ele o levasse até Barcelona. Ele pensou e perguntou a quem Sanches tinha matado e que não queria se meter em confusão.
Sanches informou-lhe que não havia matado ninguém, mas tinha necessidade de deixar Madrid no dia seguinte, o mais rápido possível, e que levaria consigo uma mulher e uma criança. Ele aceitou a proposta e marcou com ele que chegaria às sete horas no ancoradouro do porto de Madrid. Deu-lhe então 250 pesetas e dar-lhe-ia as 250 pesetas restantes quando estivessem em Barcelona.
Continuaram andando e chegaram até a casa de um armador amigo dele, cujo nome era Manolo, sujeito rude, desafinado e ambicioso. Perguntou-lhe então por quanto ele estava a vender o seu barco e ele pediu 200 pesetas. Disse-lhe: Dou-lhe 100 pesetas agora e mais 130 pesetas amanhã às 19 h, desde que o barco esteja com provisões completas para chegar até Barcelona sem qualquer possibilidade de perigo durante a viagem. Manolo outra vez assegurou-me que o barco estaria com todas as provisões necessárias para a viagem. Despediram-se e foram embora.
Saindo dali Sanches foi direto para casa, colocou sua farda e foi até a cadeia, onde havia uma concentração muito grande de pessoas, devido a última conspiração reinante, os calabouços estavam abarrotados de presos. Sanches tinha livre acesso às prisões, porém não tinha qualquer autoridade em transferir ou soltar presos.
Chamou um dos guardas que ele já tinha flagrado por várias vezes em atitude corrupta e começou um diálogo com ele, perguntando-lhe como estava.
-? Paco, como estás usted? - Muy bien, señor. E usted, que haces aqui, neste horário?
Disse-lhe estar interessado em uma prisioneira. Ele pensou que Sanches estivesse a fim de transar com uma prisioneira e disse-lhe:
- Meu sargento, são somente 10 pesetas por meia hora e conforme o grau de beleza são 15 pesetas.
Então, Sanches alimentou o ego dele e começou a contar histórias fictícias sobre fantasias eróticas e ele ficava quase louco de excitação, à medida que ia lhe falando o carcereiro delirava de prazer, porém a ambição financeira falava mais alta e ele disse:
- Senhor, mostre-me à prisioneira que trago agora mesmo.
Paco, o carcereiro, queria trazer logo a prisioneira que ele escolhesse, para que pudessem manter relações sexuais. Paco, hoje já tive muitas emoções fortes. Só quero amanhã. Traga-me a prisioneira dançarina, a "Graciele", desejo que você me traga em minha casa às 18 h de amanhã.
Paco então disse:
- Mas, senhor, não posso levar. A prisioneira não pode sair daqui, o senhor bem sabe disso.
Sanches falou-lhe que subornasse quem fosse preciso, mas a queria amanhã às 18 h. Ele então, lhe disse:
- Serão 30 pesetas por cada hora que passares com ela e mais 40 pesetas por cada pessoa que terei que subornar, que são os homens da guarda principal.
Para que ele ficasse excitado por dinheiro, puxou algumas cédulas de pesetas e seus olhos, quando as viram, arregalaram-se.
Deu-lhe então 120 pesetas, que equivaleriam a 4 horas de amor e prometeu-lhe dar mais 60 pesetas pelo seu silêncio assim que ele lhe desse a prisioneira.
Ficou tudo acertado, o plano de fuga estava funcionando como tinha meticulosamente planejado.
Passava da meia noite, quando chegou a casa e lá estava Conchita a esperá-lo, estava ansiosa, queria a sua recompensa. Perguntou-lhe se o jogo havia continuado normalmente. Disse-lhe que o comentário foi geral e que houve alguma desconfiança no início, porém como logo a seguir alguém ganhou da banca três vezes consecutiva, logo as atenções voltaram-se para o novo ganhador, porém ela tivera que fazer isso para que o esquecessem logo de você.
Ele lhe deu então 1.000 pesetas que era dinheiro que ela ganharia trabalhando por cerca de 10 anos de trabalho.
Ela lhe disse que não tinha vindo por dinheiro, e sim por amor a ele.
Não queria despertar nenhuma espécie de suspeita de sua fuga para Conchita e principalmente que levaria Graciele e sua linda filha Consuelo consigo. Se seu plano falhasse, seria de imediato fuzilado ou garroteado por ter desertado do exército e por alta traição ao Rei Carlos IV.
De modo que bebeu um pouco com Conchita, a fez dançar e depois a levou para a cama, já que era isso que ela desejava ardentemente. Fizeram amor por três vezes durante aquela noite e ela ficou esgotada de tanto amar, desmaiou várias vezes durante os seus inúmeros orgasmos.
Às 06 horas ele se levantou, a acordou, ela fez café, beberam e saíram. Disse-lhe que não o procurasse naquele dia, principalmente à noite, a fim de evitar especulações a respeito de sua façanha no Cassino.
Após despedir-se de Conchita ele voltou e dormiu até às 14 h. O tempo estava nublando, era ótimo para o seu propósito.
Faltava somente um dia para a execução de vários condenados, e entre eles estava a sua linda cigana, a sua Graciele. Foi até a casa de um dos guardas de sua total confiança e de relação de amizade, já que era padrinho de um dos seus nove filhos. Sebastian era um dos seus guardas palacianos e já habitava o palácio do Rei Carlos IV por mais de 20 anos e demonstrava muita dignidade e honestidade no seu serviço.
Disse-lhe:
- Compadre Sebastian, necessito de um favor seu e nenhum dinheiro neste mundo pagará este favor que você me fará.
Ele se assustou e perguntou-lhe:
- Que de tão grave usted estás a me pedir?
Disse-lhe que ele deveria ir ao calabouço e localizar a dançarina Graciele, falar-lhe ao ouvido de forma que somente ela pudesse ouvir, e dizer-lhe que por volta das 17 h 30 min um dos soldados iria lhe pegar para ser levada por alguém e que esse alguém era ele. Que ela não pusesse qualquer resistência.
Ele também pensou que Graciele viesse para passar algumas horas de amor, que era um costume das pessoas poderosas, escolher determinadas prisioneiras para ter algumas horas de livre prazer. Quando alguma delas se recusasse, sua pena era agravada ou conforme a ira do poderoso palaciano era executada no dia seguinte.
Sanches deixou então a imaginação dele pensar neste sentido e deu-lhe algum dinheiro para melhorar sua vida. Ele saiu e Sanches ficou a esperar a confirmação do seu pedido.
Duas horas depois, ele estava de volta. Havia falado com ela e contou-lhe o estado de nervosismo em que ele se encontrava. Trouxe uma carta dela, em que ela lhe pedia desesperadamente para tomar conta de sua filha Consuelo.
Despediu-se dele e foi até o orfanato em que Consuelo se encontrava. Pegou Consuelo e foi para casa, estava já caindo uma neblina fina, havia pouca gente nas ruas e ele disfarçado para que ninguém o reconhecesse. Passou despercebido por uns poucos que se encontravam nas ruas de Madrid.
Chegou a casa, arrumou rapidamente algumas roupas para si e pegou alguns pertences pessoais e ficou a espera de Paco.
Já eram cerca de 17 h e ele começava a ficar nervoso, porque se algo desse errado seu destino seria a forca com toda certeza, mas, para salvar sua Graciele ele morreria mil vezes, se necessário fosse.
Deu 17h 15 min, 17 h 50 min, nada de Paco, seu coração estava a explodir de ansiedade e nervosismo.
... De repente lá vem uma carruagem e pára em frente a casa onde ele morava e desce Paco, trazendo Graciele com as mãos amarradas e com o rosto vendado.
Com um sorriso irônico ele lhe deu a prisioneira e disse:
- Sargento, tenha uma noite de prazer, e não se esqueça de que esta é a última noite desta prisioneira, de modo que deve aproveitar ao máximo, porque amanhã neste horário o carrasco já lhe terá cortado a cabeça.
Sanches agradeceu-lhe, deu-lhe as 60 pesetas que tinha combinado dar-lhe e ele se foi rindo, porém, antes pediu-lhe que deixasse a carruagem, que ele mesmo levaria a prisioneira. Ele então maliciosamente perguntou se o Sargento estava querendo levar a prisioneira para algum lugar. Respondeu-lhe:
- Esquece que sou da guarda palaciana e também sou seu superior?
Ele então se desculpou e disse que precisava da prisioneira às 08 h da manhã do outro dia, ao que Sanches respondeu-lhe que antes disso ela estaria lá, caso não estivesse, se a noite fosse realmente boa, pagaria pelas horas extras.
Paco, então, abriu um sorriso grande e foi-se embora. Entraram casa adentro e Sanches deu-lhe a filha para que ela abraçasse, enquanto ela abraçava a filha desesperadamente e chorando ele olhava por entre as cortinas da janela para ver se realmente Pablo já havia se afastado do local ou se rondava por ali.
Graciele dirigiu-se a Sanches e disse-lhe:
- Se eu tivesse dado atenção a sua voz, não estaria nesta situação. Você comprou minha última noite de liberdade, meu último desejo é que você tome conta de minha filha, já que o conde Juan Diego não a quis reconhecer como filha por causa de sua atual mulher, e não desejo que ela pereça logo após a minha morte, ou seja, perseguida por essa maléfica mulher, nem venha a perecer nos porões podres das prisões de Madrid.
- Meu coração sangra, não poderei fazer amor com você... Você foi realmente o homem que sempre me amou de verdade e eu estava cega por nunca ter enxergado isso.
- Se eu tivesse ouvido a voz da razão não estaria nesta agonia à porta da morte.
Sanches gritou:
- Graciele, pare de falar em morte! Pegue alguma coisa que sirva para você e entre rápido naquela carruagem. Ela ficou estática e disse-lhe:
- Você não pagou uma grande soma só para passear comigo.
Então, ele lhe disse: - É isso aí, nós vamos dar um grande passeio e Consuelo irá conosco. Só temos cinco minutos. Em seguida ele a fez entrar na carruagem do jeito que ela estava e foram correndo muito rápido em direção ao ancoradouro do porto de Madrid.
Chegaram lá por volta das 18h 20min, no local previamente combinado encontraram Carlos e Manolo. Sanches deu o restante do dinheiro para Manolo e ele foi-se embora rapidamente.
Sanches, Graciele e Consuelo entraram no barco o mais breve possível. Quando eles já estavam há três horas de mar adentro foi que Sanches lhe disse que não desejava mais ir para Barcelona e sim para Cadiz. Desejava que todos pensassem que viajara primeiro de trem para Oviedo e segundo, caso Manolo soltasse a língua todos pensassem que ele teria ido para Barcelona, jamais para Cadiz.
Carlos sorriu e disse:
- Você pensou em tudo. É muito inteligente, é um verdadeiro estrategista.
Respondeu-lhe sorrindo que não era questão de estratégia, e sim amor, muito amor que sentia por aquelas duas, sua princesa e sua filha.
Cinco dias depois chegaram a Cadiz, porém como havia o perigo de serem presos na chegada ficaram escondidos até chegar a noite como forma pura de precaução, muito embora se alguém tivesse desconfiado, o porto de vigilância total seria Barcelona, jamais Cadiz. Porém, ele queria segurança total para Graciele, sua filha e, logicamente, para ele próprio.
À noite despediu-se de Carlos, deu o barco para ele e o aconselhou a demorar sua volta a Madrid e que esperasse as coisas esfriarem.
Ele tinha duas alternativas, vender o barco e voltar à Madrid ou ficar um tempo pescando em Cadiz até as coisas esfriarem em Madrid.
Não sei qual a opção que ele escolheu, porque na madrugada do dia seguinte Sanches e suas duas protegidas partiram para Portugal.
A fuga tinha sido um sucesso total.
Chegaram à Lisboa depois de alguns dias e Sanches procurou de imediato sondar notícias nos jornais velhos sobre Madrid.
Os mesmos comentavam sobre a fuga espetacular promovida por um sargento da guarda palaciana de nome Sanches, o qual havia levado consigo uma prisioneira que estava condenada a ser executada por ter participado de um golpe contra o 1º Ministro do Governo Espanhol.
Havia também comentários sobre as execuções e nelas constava o nome de Paco, que tinha permitido a fuga.
Era notória a execução de Paco, já que todos sabiam de sua rede de corrupção. De maneira que ele foi o principal suspeito e como não teve álibi, foi executado sumariamente.
Em Lisboa a situação estava em imensa calma. Dona Maria José I governava Portugal com sapiência e o povo a estimava muito. Era uma verdadeira Rainha, embora houvesse corrupção por trás das cortinas palacianas e fosse do seu conhecimento.
Sanches trocou todas as suas pesetas por escudos, alugou uma boa casa e mobiliou conforme o gosto de Graciele. Comprou também uma casa de vendas de roupas de tecidos de seda, a qual deixou sobre a supervisão de Graciele.
O capital com que ele tinha chegado à Lisboa, praticamente ficou dez vezes maior, porque a moeda portuguesa estava desvalorizada em relação à espanhola na relação de 1/10, ou seja, uma peseta equivalia a 10 escudos.
Ficou praticamente rico, mas era uma riqueza que não lhe dava satisfação, porque não tinha o amor de sua princesa, Graciele.
Após se estabelecer na cidade, colocou um anúncio no jornal solicitando uma babá para a sua Consuelo. Embora ela fosse filha do conde, ele a considerava mais que uma filha e existia uma verdadeira relação de pai para filha entre os dois.
Apareceram cerca de oito pessoas, de modo que ele escolheu a que melhor se destacava, segundo os desejos de Graciele e Augusta, a escolhida, começou a trabalhar naquele mesmo dia com eles.
Na semana seguinte Sanches procurou arranjar uma ocupação, a qual foi muito difícil, porque Lisboa era uma cidade sem muitas perspectivas na época, mas, conseguiu depois de muita procura uma ocupação em uma destiladora de vinho, artigo que Portugal produzia e produz com grande eficiência.
Suas vidas seguiam o curso sem problemas, porém ele sempre estava ligadíssimo nos jornais vindos de Madri haja vista que Portugal faz fronteira com a Espanha. No seu dia-a-dia ele não mantinha nenhum contato físico com Graciele. Só ela estar ao seu lado, para ele já era um motivo de prazer, algo mais, se houvesse seria o êxtase.
Ele respeitava por completo os sentimentos dela que ainda não havia esquecido o seu grande amor, o conde dos Arcos, porém o mesmo era a causa de suas desventuras. Graciele não conseguia ter olhos para mais ninguém e isso a prejudicava fisicamente porque ela tinha um corpo exuberante e cheio de saúde, e como não praticava sexo com quem quer que seja, essa ausência de desgaste físico a deixava, quando estava em "TPM" (tensão pré-menstrual), totalmente nervosa e durante esses dias lhe ocorria terríveis dores de cabeça, que às vezes o preocupava por demais.
Um dia, Sanches chegou até a levá-la ao hospital a fim de que fosse examinada com mais profundidade.
Foi na volta que descobriu que todo o mal que ela tinha era causado pela famosa "TPM" e ausência de sexo, porém ele nada poderia fazer, já que não havia uma relação amorosa entre os dois e sim uma relação de grande amizade e respeito mútuo, embora ele a amasse em profundidade.
O tempo passava e esse problema com ela foi se agravando mensalmente. À medida que os meses passavam Graciele ficava mais e mais nervosa, até agressiva e quando terminava o seu estado de TPM, ela ficava quase sempre em depressão, como acontece nos dias de hoje com o Carol, quando briga com seu namorado ou ele a faz sofrer.
Capítulo XXIX
UMA NOITE ESPECIAL DE AMOR
Já ia fazer dois anos que eles estavam em Lisboa e estava se aproximando a data de aniversário de Graciele, o qual era em 13 de novembro, e Sanches desejava tornar esse dia para ela um maravilhoso dia. Então, tomou as suas providências de modo que ela não percebesse nada.
Ele já conhecia Graciele profundamente, quanto ao seu lado emocional, suas mudanças de estado brusco e seu modo de proceder de acordo com seu humor ou estado de saúde.
Na semana em que ela estava a aniversariar coincidiu com o seu famoso estado de "TPM", ela se encontrava muito nervosa e ele estava fazendo de tudo para deixá-la à vontade.
Dois dias antes, ele passeando pelas ruas de Lisboa, foi até a uma confeitaria de nome Colombo e encomendou uma linda cesta de café da manhã, com tudo presumível que Graciele gostasse, além de inúmeras coisas que vinham na cesta e mandou que entregasse às 9 h do outro dia. Deu o endereço e foi embora.
Depois foi a uma loja de roupas e comprou um lindo vestido, o qual, há cerca de uma semana antes, em um de seus passeios, ela olhara com atenção. Comprou também um para sua pequena Consuelo e deixou o endereço para que fosse entregue às 10 h do dia seguinte.
Em seguida foi até aos Correios e passou um telegrama para ser entregue às 09:30 h do dia seguinte, que continha os seguintes dizeres:
"Que o Sol a iluminar a terra traga os raios da saúde e sucesso pra você e sua linda Consuelo. Hoje e nas novas primaveras que virão. Seu amigo Sanches."
Enviou-lhe também um poema cujo teor era o seguinte:
Se Você deixasse,
Se você estivesse num reino encantado,
E se você deixasse...
Eu te daria hoje: o mais belo dos sonhos meus,
para dar vida, a esse precioso encanto;
Nesse teu aniversário.
Se você estivesse em uma noite de lua nova e
Se você deixasse... Eu te daria hoje...
As mais belas estrelas do céu,
para embelezar a noite desse teu aniversário.
Se você estivesse num mar revolto e,
Se você deixasse... Eu te daria hoje...
Os peixes e as algas mais belas para,
Acalmar a fúria de mar, no teu aniversário.
Se você estivesse numa floresta densa e,
Se você deixasse... eu te daria hoje...
As árvores mais belas de grande fragrância,
para perfumar o teu caminho nesse teu aniversário.
Se você estivesse alheia ao tempo e,
Se você deixasse... eu voltaria no tempo... e,
Eu te daria hoje, todo o meu tempo para
Preencher o teu lindo dia.
Sanches
Naquele dia ela estava de mau humor e ele fez de tudo para que ela esquecesse que no dia seguinte era seu aniversário.
Quando chegou à noite, antes de deitar-se foi até seu quarto para lhe dar boa noite e comunicou-lhe que passaria o dia fora no dia seguinte, porque iria até a cidade do Porto verificar uma encomenda muito grande de vinho que a firma tinha feito e era preciso supervisionar pessoalmente o evento.
De modo que ela não o esperasse para almoçar e talvez chegasse tarde para o jantar.
Deu-lhe então três beijos na face e pôde sentir que seu corpo estava exalando calor, não só porque estava quente, mas também por ela estar no máximo do seu famoso TPM.
Voltou ao seu quarto e foi dormir.
Na manhã seguinte, 13/11, dia do seu aniversário, ele saiu mais cedo, antes de ela acordar.
Foi para a fábrica normalmente, já que sua ida ao Porto era pura invenção para que ela não tocasse no assunto de seu aniversário. Ele desejava que a surpresa fosse total.
Quando deu por volta das 18 h, Sanches enviou-lhe um outro telegrama informando que chegaria em casa no horário do jantar, o qual era servido fielmente às 20 h 10 min.
Quando chegou, Graciele estava para morrer de tanta felicidade.
Foi logo o abraçando e dizendo-lhe: - Obrigada, Sanches. Obrigada, você é o melhor homem do mundo, como é que eu não consigo enxergar isso? E mais uma vez abraçou-o e chorou em seu ombro, porém estava chorando de alegria.
Contou-lhe que acordou por volta das 8 h 10 min e que estava no banho quando parou uma charrete em sua casa. Augusta foi atender e as duas moças foram entrando e arrumando a mesa para o café sem que ela soubesse. Quando saiu do banheiro com seu tradicional roupão, Augusta a chamou e todos cantaram parabéns para você... Ela ainda estava à mesa, quando chegou o carteiro com o telegrama, foi mais outra grande surpresa para ela.
Só deu tempo de ela trocar de roupa, quando chegou a emissária da boutique para lhe dar o vestido que ele comprara como presente.
Graciele estava radiante de alegria, havia dispensado a babá e a empregada naquela noite. Sanches perguntou e ela lhe disse que queria aquela noite só para os três. Ela, ele e sua Consuelo.
Tinha feito um jantar especial para eles, havia dois castiçais, com velas acesas sobre a mesa e dois jarros de flores também sobre ela.
O prato do dia que ela ou Augusta tinha feito para o jantar era bife à milanesa que ela sabia que Sanches gostava muito, arroz à grega, batata ao molho, couve-flor à milanesa. Além da tradicional salada e maionese.
Havia duas garrafas de excelente vinho do Porto e eles brindaram à mesa seu aniversário e jantaram satisfatoriamente.
Graciele estava muito elegante, não sei se foi por puro gosto ou para alegrar ao Sanches, mas ela estava vestindo o vestido que ele lhe dera de presente e durante o jantar ela se excedeu no vinho e o mesmo já estava a fazer efeito, já era por volta de 22 h e ele a levou ao seu quarto e quando lá chegaram aconteceu o que ele mais desejava desde a primeira vez que vira Graciele: fez amor com ela.
Não sei se foi por causa do efeito do vinho ou o vinho acelerou o desejo dela que estava no auge ou os dois juntos, só sei que quando Sanches foi dar o seu beijo de boa noite, ela pediu-lhe que ele a abraçasse.
Ele a abraçou e começou a acariciar os seus lindos cabelos e à medida que ele sentia o calor de seu corpo irradiando-se no seu, obviamente o seu desejo foi paulatinamente aumentando e foi acariciando e em fração de segundos, o seu pescoço, rosto, seu busto, e ela sentindo também o desejo de abraçá-lo mais fortemente; então, ele a beijou pela primeira vez nos lábios. Sanches deu-lhe um beijo primeiramente com imensa ternura, depois com ardor e novamente com ternura. Ela ficou sufocada porque há muito que não beijava e ele estava louco de desejo, de modo que quando ele a beijou novamente ela disse-lhe aos sussurros: - Você está me matando de desejos.
Neste momento ele foi suavemente tirando-lhe a roupa, tomou-a nos braços e deitou-a na cama.
Graciele estava com tanta energia acumulada que quando Sanches colocou sua boca em seus seios beijando-os, ela começou a ter o seu primeiro orgasmo naquela noite.
Graciele gemia de prazer e quando ele estava acariciando seu clitóris, ela novamente chegou ao orgasmo.
Nesse momento Sanches achou por bem penetrá-la para que ela sentisse mais prazer, sua maior preocupação era não decepcioná-la ou desapontá-la.
Sanches demorou mais de uma hora para atingir orgasmo e durante este período Graciele teve múltiplos orgasmos.
Lá pela meia noite, quando ele chegou ao seu segundo orgasmo, ela se levantou e alguns uns instantes depois, trouxe-lhe um suco gostoso de abacate e para ela trouxe vinho que ainda estava na mesa.
Após ele descansar um pouco e depois de ela já ter bebido todo o conteúdo do copo de vinho, novamente o abraçou e começaram de novo. Era por volta da 1 h da manhã quando esta primeira noite de amor acabou, ela estava esgotada de tantos orgasmos, e ele também.
Naquele dia Sanches não voltou para o seu quarto, adormeceu nos braços de Graciele.
No pouco espaço de tempo que ele dormiu, sonhou com alguém lhe dizendo: - O perigo ronda a sua casa! O perigo ronda a sua casa! Previna-se!
Acordou com uma sensação estranha dentro de si e, quando se lembrou do sonho, começou a pensar o que poderia prejudicá-lo ou a sua família, porque, agora depois daquela memorável noite ele considerava que elas eram uma família totalmente.
No dia seguinte era sábado. Sanches levantou-se bem cedo e foi caminhar pela cidade. Deixou Graciele dormindo, ainda profundamente. Quando passou pela primeira vez na banca de jornal viu a seguinte Manchete: Rei Carlos IV abdica em favor de seu filho, que passa a reinar na Espanha com o título de Fernando VII, e escolhe para seu primeiro-ministro a mulher que mais detestava Graciele, a mulher que a tinha mandado para a cadeia e para a morte, a Marquesa dos Anjos.
Porém, o pior era que os jornais falavam de uma visita da corte espanhola à Lisboa e que ela viria juntamente com o rei para negociar importação de azeite de oliva e vinho para a Espanha.
Portugal importava em troca, jazidas de minério. Ele ficou muito apreensivo porque Lisboa era uma cidade pequena, embora houvesse uma vida muito ativa e social nela. Realmente era um perigo esta visita da corte espanhola.
De modo que a partir daquele instante Sanches ficou na defensiva e não poderia estar na fábrica de vinho nos dias de visita, porque estava prevista uma visita da corte na fábrica, e, se por acaso, alguém o visse por lá, todo o seu esforço teria sido em vão.
Voltou a casa por volta das 11h50min; Graciele ainda continuava dormindo, então pegou Consuelo e pediu para Augusta deixar a patroa dormir o tempo que ela desejasse, ao que ela achou estranha, porque Graciele não costumava dormir até tão tarde. Sanches notou que ela ficara preocupada, então lhe disse:
- Não há motivo para ficar apreensiva, ela somente dormiu muito tarde, portanto necessita descansar.
Sanches saiu com Consuelo e foi passear com ela pelos arredores de Lisboa, voltando somente por volta das 13 h, era a hora do almoço.
Quando chegaram a casa, Graciele estava muito feliz e veio logo lhe beijando a face, dando-lhe bom dia e dizendo-lhe que havia dormido como uma pedra, que há muito tempo não dormia tão bem. Que ele havia dado a ela o melhor remédio para que pudesse alcançar a paz. Completou dizendo-lhe:
- Gostaria de poder amá-lo de todo o coração, você que é para mim o verdadeiro pai de Consuelo e o melhor homem que uma mulher deseja ter como marido.
- Sanches, apesar disso estou envergonhada, o vinho fez um efeito que me fez ficar totalmente desarmada, e eu estava por demais carente, sei bem sei que o desejei e que você não fez amor somente porque eu estava tonta, mas porque eu o provoquei. Você foi maravilhoso para mim, você me deixou nas nuvens, você deu-me o melhor remédio que há muito tempo eu precisava.
Neste momento ele a abraçou e como estavam no quarto, mais uma vez se amaram, porém desta vez foi rápido, porque ele teria que voltar ao trabalho.
Augusta veio bater à porta do quarto perguntando se eles não iam descer para o almoço. Desceram, almoçaram e como ela sentiu que ele estava com ar de preocupação argüiu-lhe sobre o que estava deixando-o tenso. Sanches relatou-lhe sobre as notícias e ela também ficou apreensiva.
Então lhe disse:
- Não se preocupe. Nada nem ninguém poderá lhe fazer mal, porque eu jamais permitirei, mesmo que eu tenha que morrer para que isso aconteça.
Nesse momento ela o abraçou. O seu corpo estava tremendo de medo.
A semana passou-se sem que houvesse qualquer problema de ordem médica, veio a fase menstrual de Graciele no domingo anterior e ela não teve qualquer espécie de dor de cabeça, nem ficou nervosa.
A partir daquela memorável sexta-feira, toda vez que ela queria fazer amor ela o convidava durante o jantar para beber um cálice de vinho no seu quarto e nessas noites o mundo se tornava um verdadeiro sonho para ele. Já para Graciele penso que ela fazia amor como espécie de remédio que ela tinha que tomar para curar-se do seu mal, porém ela correspondia com todo ardor e ela fazia amor com grande alegria para que fosse o homem mais feliz do mundo, o que realmente o era, quando estava em seus braços.
Dois meses depois, o inevitável acontecia, ela ficara grávida, para Sanches fora a maior felicidade do mundo. Ter um filho de Graciele.
Ela recebeu a notícia sorridente e disse-lhe:
- Este é o melhor e maior presente que eu posso dar a você em toda a minha vida, porque ele vem de dentro de mim, vem de dentro do meu ser e você jamais conseguirá um presente melhor.
- Sei bem sei que não o amo, porém eu gosto de você como a um irmão e todo irmão quer sempre o melhor.
- Ele ou ela quando nascer, será a maior lembrança viva que você terá sempre de mim.
- Você já me deu o melhor de si, seu profundo amor.
Capítulo XXX
OS DIAS FELIZES EM LISBOA
Na semana seguinte todas as principais figuras da Corte espanhola estavam em Lisboa. Nesses dias de visita, que foram três dias, Sanches não foi trabalhar e Graciele também não foi à loja de tecidos.
Foram três dias de reclusão total porque havia sempre o perigo de alguém da Corte, passeando pela cidade, querer comprar algum tecido e aí iria reconhecer Graciele.
Quanto a ele, havia uma programação de uma visita às instalações da fábrica de vinho, e ele era uma pessoa procurada em toda a Espanha por deserção e por ter raptado uma prisioneira do Estado Espanhol, de modo que era uma insensatez ir trabalhar naqueles três dias. Com o grau de aproximação e amizade existente entre os dois países era praticamente certa a extradição se ele fosse reconhecido.
Após os três dias a tormenta da expectativa e angústia passou e puderam voltar a viver livremente, sem medo por certo tempo.
Graciele estava feliz por estar grávida e por lhe dar um(a) filho(a). Ele sentia que ela esperava ardentemente pela chegada da criança. O nascimento da criança representava para ela uma espécie de paga por tudo que ele tinha feito por ela. Por isso ela desejava lhe dar este(a) filho(a) para alegrá-lo.
Porém, ao seu ver, só em ela poder estar ao seu lado, já era para si um motivo de grande alegria e satisfação.
O tempo correu o seu curso normal e na véspera de Consuelo completar 5 anos, nasceu uma linda menina, a qual lhe deram o nome de Fátima, que significa em árabe, a que deixou de mamar.
Ela nasceu com 3,5 Kg, muito gordinha e com boa saúde, não chorava muito durante à noite. Deu muito pouco trabalho nos meses subseqüentes para sua mãe e sua babá Augusta, que ainda estava com eles.
A fim de que não houvesse ciúmes por parte de Consuelo à nova criança ou para que ela não pensasse que a recém nascida fosse destroná-la, Sanches colocava a neném em seu colo para que ela ficasse com a criança e sentisse que ela estava sendo importante, cuidando também de sua recém chegada irmã e logo em seguida ele a levava ao parque para brincar com ela, de modo que não houve rejeição por parte dela à nova criança.
Por muito tempo desfrutaram de relativa felicidade, Graciele não tinha ainda esquecido o Conde Juan, às vezes, ela ficava distante e nesses momentos ele sabia que ela estava recordando os seus momentos na Espanha, sua dança na corte e principalmente seu Conde, porém, as notícias que chegavam de lá não eram boas. Napoleão mandou tropas para a Espanha, colocou seu irmão D. José Bonaparte como Rei da Espanha, havia uma descrença total no Rei estrangeiro, muita guerrilhas, muitas lutas e corrupção, como sempre.
Napoleão Bonaparte havia decretado o bloqueio continental a fim de atingir e arruinar economicamente a Inglaterra. Portugal que nesta época era governado por D. João VI, porque sua mãe D. Maria I, havia ficado insane, não aceitou o bloqueio e Sanches, de imediato anteviu o que poderia vir a acontecer, porque Napoleão era o Imperador mais temido da Europa. Com exceção da Inglaterra, todos que o combatiam eram derrotados.
Em um dos dias que Graciele convidou-o a entrar em seu quarto, logo após fazerem amor, ele lhe fez ver o perigo que Lisboa estava correndo porque o Rei D. João VI estava se recusando a aceitar o Bloqueio continental.
Avisou-lhe do perigo iminente que as pessoas de posse iriam passar caso essa previsão se confirmasse.
Disse-lhe que a melhor e mais rápida solução era vender tudo e ir para outro país.
... Foi o que fizeram, em alguns dias se desfizeram de tudo o que possuíam, vendendo a preço de oferta, e foram morar na Itália.
Quinze dias depois de sua partida, Lisboa foi invadida pela esquadra do Almirante Junot e a Família Real, juntamente com toda a Corte, teve que abandonar Lisboa correndo, deixando tudo o que tinham para trás.
Todas as pessoas que não puderam fugir e que tinham posses, perderam praticamente tudo, porque Junot confiscava para as tropas.
Os pressentimentos de Sanches nunca falharam e por se adiantar no tempo, conseguiu se livrar de mais uma dificuldade.
Demoraram cerca de 36 dias para chegarem a Nápoles, as crianças enjoaram bastante, Graciele perdeu uns 6 Kg durante a viagem, porque detestava o cheiro de maresia e o barco que estavam viajando não havia conforto nenhum.
Consuelo já havia completado os seus 7 anos, mas deu muito trabalho porque vomitava muito e não absorvia quase nada de alimentos. Deram graças a Deus, quando chegaram a Nápoles.
Ficaram maravilhados com a cidade, principalmente seu povo e seu folclore.
Nápoles era na época a principal cidade da província de Nápoles e da grande região de Campanha.
Ela estava e está situada na parte meridional da Itália, bem à margem da baía que tem o seu nome "Baía de Nápoles".
A cidade cresceu sobre as colinas, o que de certa forma lhe dá um brilho a mais.
O seu clima é o mediterrâneo e apresenta uma temperatura anual, numa média de aproximadamente 16º C.
A cidade de Nápoles foi fundada pelos gregos no século oito Antes de Cristo (VIII a. C.) e teve uma conquista do povo romano no ano de 328 a.C. Ela foi uma das principais cidades do Império Romano. Na época ela continha as mais belas residências e competia com Florença e Veneza a primazia de ser a mais próspera cidade da Itália. No ano de 1805, governava Nápoles, José de Bonaparte, que tinha sido expulso da Espanha, ele aboliu o sistema de feudalismo existente no local e introduziu inúmeras reformas administrativas que resultaram em melhoria para o povo.
O seu sucessor, o General Murat, deu continuidade às reformas até a derrota dos franceses na Europa e conseqüentemente a queda de Napoleão Bonaparte.
Durante os três anos que eles lá viveram - conviveram lado a lado com uma sociedade napolitana. Como não estava a fim de trabalhar - Sanches resolveu dar uma atenção maior às suas duas filhas Consuelo e Fátima e pela manhã ele ensinava na Corte o espanhol e o português.
Angariou um grande número de amigos durante as aulas.
Ficaram inicialmente, por dois dias, em uma pensão muito sofisticada para a época, depois Sanches comprou uma casa, talvez melhor do que a que tinham em Lisboa e tratou logo de por a vida em dia.
Arranjou colégio para as crianças, alugou um salão para que Graciele pudesse dar aula de danças flamengas e espanholas, era uma forma dela matar as saudades da Espanha, ele fazia de tudo para alegrar o seu coração.
Num dia de grande nostalgia, ela lhe disse que daria tudo para voltar à Espanha. Sua principal oponente, a mulher do Conde Juan, a Marquesa dos Anjos, havia falecido do coração.
Sanches lhe disse: - Se é esse o seu desejo, eu posso vender tudo e iremos para a Espanha, lá você será totalmente feliz, porém verá minha cabeça ser decepada. Talvez seja uma cena que você sempre recordará quando se lembrar de mim.
Ela brincando disse que isso jamais aconteceria, porque o já Visconde Juan Diego não tinha a ele como inimigo e que não guardava ódio de ninguém.
Então Sanches lhe perguntou: - Você quer mesmo arriscar? Por você sou capaz de tudo, até de morrer para fazer você feliz.
Ela então disse que no final do ano voltariam para a sua pátria.
O plano inicial era de voltarem à Espanha no final do ano, porém a situação política na Europa não era das melhores e havia muitas guerras e contra-guerras, muita pirataria no mar, movida pela Inglaterra contra os barcos que iam para Espanha e principalmente na tentativa de furar o bloqueio e destruir tudo que estivesse de acordo com a França, o que era o caso do reino de Nápoles. Era uma jogada arriscada e Sanches preferiu não tentar.
Outro motivo que o fez adiar esta decisão foi que Graciele começou a ter as famosas crises de dor de cabeça. Eram crises terríveis, que a deixava inerte por completo.
Após passar a crise, ela entrava em profundo estado de melancolia. Era uma depressão muito forte, somente o que a tirava, às vezes, deste estado era o sorriso de Fátima e o conforto da família reunida.
Aos poucos ela voltava ao seu estado normal, até se aproximar novamente o seu período de TPM.
O motivo principal era excesso de energia é ausência de sexo. Até Consuelo percebeu esta mudança e comentou, mamãe tem andado muito triste, o que será que ela tem? Não podia lhe dizer a verdade, então lhe disse que era por causa de saudades de nossa pátria, aí Consuelo quis saber quando ela poderia ver seus avós.
Isto deixava Sanches atormentado, porque ele não sabia quem eram os pais do Visconde Juan Diego e só conhecia de nome os pais de Graciele, portanto era sempre difícil para ele trazer à baila este assunto.
Fazia mais de um ano que Sanches não tinha contato íntimo com sua princesa, não que ele não desejasse, mas porque respeitava profundamente os sentimentos dela.
Ele a amava profundamente e ela estando perto de si já era motivo suficiente para seu contentamento, além do mais ela já tinha lhe dado um presente que todo homem deseja, uma linda filha, embora naquele ano, não mantivesse relações sexuais com ela, porém ele a tinha espiritualmente ligada a si, principalmente porque havia algo mais profundo os ligando que, obviamente, eram suas filhas.
Capítulo XXXI
UM ANIVERSÁRIO ESPECIAL
O tempo foi passando e a situação continuava como sempre, sem evolução, Graciele já praticamente não dava mais aulas de dança, só administrava a escola, Sanches continuava firme com os seus alunos, Consuelo fazia ballet, francês e canto lírico. Já com seus treze anos, estava sendo olhada pelos gaviões da Corte, que como abutres disputavam a sua companhia quando ela comparecia a qualquer festa, porém ela tinha muita personalidade e afastava polidamente os figurões da Corte que a incomodavam.
Era aniversário de Sanches, 8 de maio de 1810, o qual foi o seu último ano em Nápoles, ele não estava com muito ânimo para qualquer tipo de festa. Ao acordar foi surpreendido pelo tradicional parabéns pra você, estavam em volta de sua cama Graciele, Consuelo, Fátima e a governanta Augusta, a qual não os tinha deixado.
Sanches recebeu o café da manhã no quarto e um terno beijo das três. Agradeceu muito emocionado, Fátima com seis anos leu uns versos que o deixaram fortemente emocionado. Nesse dia Graciele cuidou pessoalmente da refeição do dia. Fez um prato especial: uma excelente macarronada, uma galinha a molho pardo, um purê especial de batata, couve-flor à milanesa e uma salada de verduras e um pudim de leite condensado como sobremesa.
Foi um dia muito especial, há muito tempo ele não comemorava um aniversário com tanta alegria, estava entrando na casa dos 40 e Consuelo na casa dos 32, portanto existia uma diferença de oito anos entre eles.
Pela manhã, quando ela o abraçou e deu-lhe o beijo de aniversário, ele sentiu que seu corpo estava quente, muito quente, portanto ele já a conhecia profundamente e percebeu que ela estava em "TPM" tensão pré-menstrual, possivelmente faltando uns três dias para se concretizar.
No início da noite ela por ter trabalhado muito durante o dia, ficou atacada por crises de dor de cabeça. Então Sanches foi ao seu quarto, colocou uma compressa de água fria sobre a sua cabeça que ardia como fogo e utilizando técnica Rosacruz de cura, ele foi suavemente acariciando a sua nuca, ele fazia inspiração, sustentava o ar nos pulmões e deslizava suavemente os dedos indicador e médio da mão direita sobre a sua nuca, então ele soltava a respiração, sua energia passava diretamente para a sua nuca e conseqüentemente para o seu corpo. Aos poucos a dor foi passando e ela sentindo-se melhor.
Nesse momento, Sanches chamou Augusta e pediu que ela providenciasse um suco de laranja, que Graciele gostava muito e também trouxesse um pouco de óleos aromáticos para que ele pudesse fazer uma massagem relaxante em Graciele. Disse-lhe que a patroa estava muito indisposta e só a incomodasse se fosse algo de urgência. Disse-lhe também para não vir chamá-la para o jantar, caso ela não estivesse lá no horário previsto. Quanto a ele não precisava se preocupar, porque ele iria fazer companhia à patroa e se precisasse de algo a chamaria.
Portanto, deu ordens explícitas para não serem incomodados. Uns 10 (dez) minutos depois Augusta trouxe-lhe um jarro com suco de laranja, alguns biscoitos e óleos aromáticos, como ele havia pedido. Isso foi por volta das 19h 15 min.
Sanches deu um copo de suco e ela com muita resistência começou a beber suavemente.
Graciele disse-lhe logo em seguida:
- Sanches, você é o melhor médico do mundo, minha terrível dor já foi praticamente embora. Se você fosse realmente um médico, nenhuma paciente sua iria sofrer, você é uma pessoa mais que especial. Só uma louca como eu não consegue transferir um amor doentio em amor real para você. Ela começou a sentir o cheiro das essências e perguntou-lhe para que era aquilo. Disse-lhe que já que era o médico e começaria a tratar de sua paciente. Sorriu para ela e lhe disse em seguida: - Isto aqui é para dar uma massagem para você poder dormir tranqüila.
Ela então lhe respondeu, “há muito tempo que não tenho um sono profundo e que não dormo bem”; sorrindo em seguida com uma mistura de tristeza e malícia que não passou despercebida por Sanches.
Ele começou então a lhe massagear a nuca com muita delicadeza e suavidade, alias, como sempre fazia em Graciele.
Suas mãos deslizavam suavemente sobre o pescoço dela, aplicando a técnica de mermerismo, e logo depois sobre suas costas. Ela estava usando uma camisola de seda, cor branca que deixava seu corpo totalmente visível. Sua calcinha também de seda e na mesma cor, expunha o seu sexo, deixando o seu monte de Vênus transparecer bem toda a forma anatômica e inspirando-lhe um desejo ardente. Embora estivesse a explodir de desejo, porque continuava a massagear suas costas. Ela se encontrava sentada, de repente ela deitou-se e pediu-lhe que lhe massageasse todo o seu corpo, isso seria uma verdadeira tortura para ele.
Sanches tirou-lhe a camisola e começou pela sua barriga, suas pernas, e levemente tocou em seu monte de Vênus, sentiu que neste momento ela estremeceu. Então, suavemente foi deslizando suas mãos sobre suas coxas, tocando novamente em sua abertura de prazer para ver se realmente fora impressão de sua parte ou se ela realmente estremecera, o que de fato aconteceu de novo. Subiu as mãos sobre sua barriga acariciando seus seios, aí ela gemeu, ficou a lhe acariciar e massagear os bicos dos seios e Graciele atingiu o primeiro orgasmo e agarrou-lhe retirando sua roupa com grande volúpia.
Aí ele deixou de ser o médico e passou a ser o homem, o homem que ela estava precisando.
Foi beijando todo o seu corpo e à medida que lhe acariciava e beijava-lhe, conforme o local ela urrava de prazer. Graciele tinha os seios pequenos, um pouco maior que uma laranja lima e o bico de seus seios era como se fosse um broto de uma rosa.
Ele lhe beijava o bico dos seus seios e ela ia à loucura. Aos poucos foi sugando seus seios e ela atingia mais um orgasmo. Sua calcinha já estava toda molhada, como se ela tivesse urinado, mas era somente o líquido resultante dos orgasmos múltiplos que ela estava obtendo.
Sanches tirou-lhe a calcinha suavemente, aí ela pensou que ele a fosse penetrar, porém não o fez de imediato, queria que ela atingisse mais um orgasmo antes que isso acontecesse. Ela abriu as pernas esperando a penetração, estava lânguida, de olhos fechados. Sanches começou novamente a lhe massagear suas coxas, e foi direto para o seu clitóris, quando tocou nele, atingindo o famoso ponto "G", ela desmaiou pela primeira vez. Aproveitou seu momento de desmaio, desceu e bebeu dois goles fortes de rum misturados com uma aguardente e pegou uns cravos e começou a mascar os cravos para poder cortar o efeito do hálito forte que fica após o uso de bebida. Sanches pegou um pouco de amônia e subiu, ela ainda estava desmaiada porque não havia ainda recobrado a consciência.
Sanches aproximou o vidro de amônia sobre seu nariz e ela voltou a si imediatamente. Não lhe deu tempo para falar qualquer coisa, foi beijando-lhe os lábios, os seios, o clitóris e avidamente ela teve outro orgasmo desmaiando novamente.
Deu-lhe uma tapinha no rosto e ela voltou rapidamente a si.
Em seguida ele a penetrou já que ele também estava a ponto de explodir, o que de fato aconteceu logo a seguir. Não chegou a passar nem mais que 12 minutos sobre ela. Porém Graciele, nesse pouco espaço de tempo, chegou a outro orgasmo e chegaram juntos no seguinte dela. Sanches ficou após isso ter acontecido por cerca de 5 minutos sobre ela, até que tanto ele quanto ela voltasse a calma, por completo.
Sanches levantou-se, deu-lhe um copo de suco de laranja e disse que iria beber um gole de rum. Desceu e subiu o mais rápido que pôde. O rum começou a fazer um efeito completo e deu-lhe um princípio de priapismo, ou seja, o pênis fica ereto por um bocado de tempo e só volta ao normal, por força de algum medicamento.
Voltaram a fazer amor novamente e por causa do princípio do priapismo ele ficou mais de duas horas seguidas fazendo amor com ela até atingir mais um orgasmo e ela já tinha atingido vários.
Já era por volta das três horas da madrugada quando resolveram parar, ele já tinha atingido o sexto orgasmo desde que começaram a se amar e ambos estavam totalmente esgotados.
Sanches desceu e foi tomar um gostoso banho frio, contudo, ainda estava de “circo armado”, porém, não com vontade. Após a água fria e uma aplicação de sobre o pênis de éter ele voltou ao normal. Subiu novamente pára o quarto e Graciele já estava num sono profundo. Amanheceu, ela estava em seus braços.
Sanches deixou-a dormindo, foi fazer o seu desjejum. todos estavam à mesa fazendo o seu desjejum. Beijou suas filhas e agradeceu pela surpresa do dia anterior. Não perguntaram por sua mãe porque elas sabiam que eles não dormiam no mesmo quarto, porém ele disse para a Governanta Augusta que deixasse a patroa dormir até a hora em que ela bem desejasse, que ela havia melhorado com as massagens e que não a perturbassem. Augusta compreendeu o que tinha se passado e sorriu para ele, porém a filha mais velha Consuelo não percebeu, primeiro porque a educação na época era muito rígida e segundo eles não dormiam no mesmo quarto.
Graciele acordou por volta das 13h e quando desceu para o desjejum e almoço ao mesmo tempo, Sanches não estava na casa, tinha saído com as crianças para passear com elas no parque da cidade.
Quando voltaram ela estava radiante de felicidade, abraçou e beijou as filhas, abraçou Sanches e disse-lhe ao ouvido: - Obrigado meu doce médico, meu anjo e verdadeiro homem. Nunca mais esquecerei esta noite que você me deu pela segunda vez.
Jantaram todos juntos e foram jogar xadrez, depois do xadrez foram direto para a cama para mais uma sessão de terapia, que por sinal nem se comparou, nem de longe, a noite anterior, porque ela já estava farta.
A semana terminou e iniciou a outra sem qualquer espécie de novidade. A menstruação de Graciele não veio e ela comunicou a Sanches sua alegria porque se não viesse até o final do mês significava que a noite de amor tinha sido mais do que sessão de cura, ela lhe daria um novo (a) filho (a). Isso o deixou por demais alegre, então beberam um excelente vinho para comemorar um possível evento e mais uma vez fizeram amor.
A partir daquela famosa noite ela disse a Sanches que tinha acordado de um longo pesadelo e que o queria todos os dias em seu quarto não só para lhe dar amor, mas também para protegê-la.
Ela disse a ele que faria de tudo para fazê-lo feliz, amá-lo-ia ao seu modo. Disse-lhe que homem como ele, a seu ver não existia e não poderia perdê-lo ou deixá-lo a mercê de nenhuma mulher.
Sanches falou-lhe que este perigo ela não corria, porque ele não tinha olhos para nenhuma mulher, por mais bonita que fosse ou por mais rica ou posição social que tivesse.
- Graciele, você é o meu sonho louco, é a mulher de minha vida, ninguém jamais ocupará o espaço do meu coração que você ocupou.
Ela respondeu-lhe: - Quisera jamais sair dele e preenchê-lo totalmente.
Passou-se o mês e ela teve a certeza de que estava grávida emeses depois vinha a nascer Rodolfo, e a partir de então Graciele nunca mais teve problema de dor de cabeça, também praticava sexo normalmente com o seu médico predileto: Sanches.
Durante aquele semestre eles tiveram a sua lua de mel, sem nunca terem sido casado e ao longo do dia-a-dia daquele ano planejaram com minudencias a sua volta à Espanha e especialmente para Cadiz.
Cadiz é uma cidade que está situada na parte meridional da Espanha, e é capital da província do mesmo nome. Na época e nos dias atuais Cadiz é considerada por todos como a princesa espanhola, por ser a mais linda cidade daquele país e que utilizava com mais freqüência as tradições da Espanha. Possuía na época citada e hoje belos edifícios em estilos dos mouros, um excelente porto e sua indústria já era bem desenvolvida.
Cadiz foi a cidade que lutou mais bravamente para a libertação da Espanha do julgo napoleônico. E foi durante este período de lutas contra as tropas francesas que eles chegaram a Cadiz.
A fim de evitar qualquer surpresa planejaram todos os aspectos de sua volta, primeiramente nomearam Augusta como tutora das duas crianças e da Consuelo que já era uma adolescente, Depois passaram todas as posses e ações que adquiriram para o nome dos três filhos.
De modo que chegaram a Cadiz desprovidos legalmente de qualquer posse, embora estivessem ricos.
Como ninguém os conhecia em Cadiz, puderam por muito tempo viver tranqüilos, sem serem perturbados pela ameaça de serem presos.
As crianças não conheciam seus avós, teriam agora a oportunidade de vê-los e conhecê-los pessoalmente.
Exceto Consuelo, porque não poderia saber quem eram seus avós, nem vir a manter contato com eles, porque esse contato significava ameaça para toda a família e ela tinha conhecimento disto.
No bairo que eles foram morar foi uma surpresa geral a chegada deles e todos queriam saber quem era aquele casal com três lindos filhos. Soraia, mãe de Graciele era uma mulher na casa dos sessenta, porém de uma saúde e um vigor fantástico, sem sombra de dúvidas que Graciele tinha puxado a sua mãe.
Recebeu Sanches com muita alegria e contentamento e abraçou as crianças como se estivesse se despedindo e chorou de emoção ao rever a filha.
Na semana seguinte Sanches tratou de se integrar à cidade juntamente com Graciele, que voltou com toda garra a ensinar dança flamenga e ritmos latinos para as moças e rapazes de Cadiz.
Sua vida, alegria, garra espanhola voltaram e ela parecia ser novamente uma cigana linda.
Embora fosse espanhol Sanches se passava por português, já que falava fluentemente aquela língua, e foi aceito normalmente como tal por aquele povo extraordinário.
Porém, a bomba se aproximava dele prestes a explodir, sem que o mesmo percebesse ou imaginasse como iria explodir.
Capítulo XXXII
A PRISÃO E MORTE
Depois de muitas lutas, emboscadas, muitas mortes de ambas as partes, os franceses finalmente foram expulsos da Espanha. Isso ocorreu no ano de 1808, com Fernando VII sendo aclamado Rei da Espanha.
O Rei Fernando VII desentendeu-se com os liberais e houve uma revolta em Cadiz, isto em 1812. Porém, logo após a libertação houve uma fase de confraternização geral pelo feito e o rei determinou que cada província mandasse uma representação de jovens para mostrar o que tivesse de melhor em seu folclore.
Cadiz mandou um grupo de jovens bailarinos treinados por Graciele, cujo sucesso foi esplendoroso. Quando foi anunciada a província vencedora, que foi Cadiz, a Comissão julgadora, que era presidida pelo Visconde D. Juan Diego, o qual já havia se tornado Duque e gozava de todo o poder, por ser primeiro Ministro e Conselheiro-mor do Rei Fernando VII.
Na hora da premiação o Duque solicitou ao chefe da equipe que a professora se apresentasse para receber o seu presente.
O chefe da equipe disse então que a professora não pôde comparecer por motivo de doença, ele tinha sido instruído a esse respeito, porém no momento em que o Duque fazia a entrega do prêmio, uma aluna disse sem querer que Graciele iria adorar.
Ao ouvir este nome o Duque perguntou:
- Como é mesmo o nome de sua professora?
A menina foi descrevendo todas as características físicas de Graciele. Então, o Duque sorriu e disse:
- É muita coincidência! Parece possível, porém, é apenas mera coincidência.
Ninguém entendera o porquê da observação do Duque.
A delegação voltou coroada de êxito e três dias depois de sua chegada, todos eles estavam almoçando, quando bateram à porta, Consuelo foi atender, era o Duque em pessoa com sua escolta particular.
Entrou sem ser anunciado e disse: - Enfim, depois de longos 14 anos de fuga, você voltou à casa.
Graciele ficou completamente pálida, não sabia o que fazer, quase desmaiou, Consuelo olhava para o Duque vestido a caráter e para sua escolta e perguntou-lhe gentilmente se queria sentar-se.
Ele sorriu e permaneceu em pé sem lhe dar resposta.
Disse em seguida:
- Guardas, recolham este homem à masmorra.
Sanches foi imediatamente agarrado, amarrado e levado para a carruagem. As pessoas olhavam sem entender o que estava se passando.
Graciele também foi levada presa, Consuelo foi levada à força para a casa do Duque, porque ela era sua filha. Porém o fez em crise de choro constante.
Augusta ficou com as duas crianças, já era oficialmente a tutora.
Durante o interrogatório, o Duque quis barganhar a liberdade de Sanches em troca de Consuelo e de parte da fortuna, porque ele tinha sabido da proeza de Sanches no Cassino, quando de sua fuga.
Quanto a Consuelo, ela jamais poderia querer passar a viver em sua casa, principalmente porque estava registrada em nome de Sanches, segundo porque caso ele fizesse isto à força só a faria sofrer, já que depois de 17 anos é muito difícil se aceitar um novo pai. E que, na realidade, o que o Sr Duque está querendo é o dote de um casamento que o Sr iria arrumar para ela, e esse é o motivo principal em querer levar a menina para sua casa, não é desejo de um pai. Ele então, ficou enraivecido e condenou Sanches a morrer fuzilado três dias depois.
No dia da execução ele foi até a sua cela e disse que Sanches tinha a última oportunidade para salvar a sua pele, caso quisesse renunciar a paternidade de Consuelo e as ações que tinha no Banco, as quais estavam no nome das crianças e ele não pode confiscar porque estavam na Itália.
Sanches disse-lhe então que era tempo perdido e ele mais uma vez saiu aborrecido, chamando-o de louco.
Sanches mandou um recado pelo carcereiro para Augusta comparecer à prisão. Ela veio com todas as três crianças, ele as abraçou e falou a realidade para Consuelo, que chorou muito e pediu que eles voltassem logo no outro dia para a Itália. Consuelo já estava encaminhada na vida, apesar dos seus 17 anos, já falava fluentemente o francês e o italiano, bem como cantava lindamente, poderia trabalhar no teatro como cantora lírica. Quanto aos dois menores, tinham dinheiro suficiente para chegarem à maioridade com uma ótima educação e com segurança.
Chegou o fatídico dia, tudo transcorreu como em todas as execuções, primeiro chegou o padre para o preso poder se confessar, depois o mesmo foi levado para o pátio da prisão, até chegar o pelotão com 8 soldados armados. Somente 4 têm suas armas municiadas, a fim de eles não saberem que arma matou o preso.
Vem o carrasco, venda os olhos do preso, o padre continua ali ao seu lado rezando, encomendando a sua alma. Então, o comandante da execução pergunta se ele tem alguma coisa a dizer e em seguida afasta-se juntamente com o padre e manda que sejam apontadas às armas em direção ao prisioneiro, depois manda carregar e finalmente disparar.
Sanches assistiu a tudo isso friamente, quando lhe perguntaram se tinha alguma coisa a dizer, respondeu que enviassem seu corpo para seus filhos, para que pudesse ser enterrado com dignidade.
Após os disparos, Sanches foi atingido por três projeteis e de repente tudo começou a ficar escuro ao seu redor, não enxergava nada. Aí veio uma sensação de leveza no seu corpo e ele pôde ver seu corpo sendo carregado pelos soldados para outro local. Percebeu que já não pertencia a este mundo. O que ele previra anteriormente acontecera. Essa foi a primeira vez que morrera por esta mulher.
Cerca de 127 anos depois os dois se encontraram mais uma vez, quando de suas outras vidas. Novamente em sua querida Espanha, em plena guerra civil espanhola.
Graciele foi posta em liberdade no dia do enterro de Sanches, porém caiu em profundo estado de melancolia e morreu um ano depois de desgosto.
Augusta voltou com as crianças para a Itália e depois de muitos anos após a morte do Duque voltaram para a Espanha e lá viveram normalmente.
Rodolfo dedicou-se à vida marítima tornando-se um destacado armador. Fátima preferiu a vida religiosa tornando-se madre do Convento das Freiras Beneditinas e Consuelo galgou uma carreira brilhante na ópera de Milão. Era muito cortejada, casou-se com um nobre italiano e foi feliz. Augusta, a eterna babá, continuou com a família até sua morte, porém antes teve o prazer de conhecer os filhos de Consuelo, que foram somente dois, já que sua gravidez era difícil e também não tinha tempo para se dedicar aos filhos, devido à imensa atividade no teatro.
Capítulo XXXIII
O PRIMEIRO REENCONTRO
Corria o final do ano de 1930. O Rei Alfonso VII, havia com muito custo, conseguido pacificar o Marrocos Espanhol, o que logo em seguida acarretou uma profunda crise social e econômica em toda a Espanha.
A dívida externa elevou-se num patamar nunca alcançado e agravou-se a tal ponto que o Governo ficou sem poder lutar para conseguir renovar as principais cadeiras no Parlamento.
Como conseqüência, nas eleições de 1931, os republicanos conseguiram uma vitória esmagadora, o partido republicano obteve 90% das cadeiras disponíveis e isso teve tremenda repercussão positiva em toda a Espanha, porque o povo estava descontente e o Governo totalmente desacreditado. O rei completamente imobilizado em termos políticos teve que deixar o país.
A oficialidade das Forças Armadas também foi grandemente atingida. Os oficiais que eram monarquistas ou de berço monarquista, tiveram que passar para a reserva, o que de um certo modo contribuiu para agravar a crise que se aproximava.
A região da Catalunha, por ter alguns deputados monarquistas, ficou fazendo oposição à nova forma de governo e teve que ganhar sua autonomia.
Para piorar e precipitar a crise, os mineiros entram e greve, o Governo envia o seu exército comandado pelo General Francisco Franco, o qual reprime por completo a greve dos mineiros.
Logo depois Franco ameaça liderar um movimento de oposição ao Governo, juntamente com os generais Calvos Sotelo e Sanjurjo. Explode a guerra civil na Espanha, guerra que ceifou mais de 1.000.000 de pessoas.
Foi um confronto direto entre as seguintes forças: Exército regular, grande parte da marinha, uma falange, a Igreja Católica, os ditadores Mussolini da Itália e Hitler da Alemanha dando apoio para uma das facções beligerantes, no caso, aos franquistas. Todos os revolucionários, os quais eram comandados pelos generais Calvos Sotelo, Sanjurjo e Franco como líder deles.
A força legalista era formada pelas seguintes facções : socialistas, comunistas, anarquistas, alguns sindicatos, vários partidos políticos, nacionalistas bascos, catalães, muitos mercenários, vindos de várias partes do mundo, inclusive do Brasil e tropas da União Soviética.
Em 1936 inicia-se a Guerra, que foi motivada pela rebelião de uma guarnição Militar das Ilhas Canárias, onde tinha como governador o General Franco.
Nesta época um belo jovem chamado Victor (assim se chamava Shances nesta fase de vida), estava em Barcelona, e por ser sempre a favor da Justiça, apoiava amplamente o Governo e lutou bravamente contra os revolucionários. A Guerra em si teve alguns momentos ou estágios que podemos assim dividir:
I) estabelecimento de uma frente ampla e continuada, fato ocorrido em 1936 quando explodiu a Guerra.
II) Liquidação total dos bolsões Norte e Sul pelas tropas dos generais Franco e Sanjurjo, que ocorreu em 1937.
III) Marcha dos revoltosos para o mar e, finalmente, uma ofensiva final que resultou na derrota das tropas legalistas.
Em 1937, fazia já um ano que começava a Guerra e Victor obtivera uma licença de 10 dias, porque estava em época natalina e tinha sido designado para cumprir uma Missão de inteligência em Madrid, porque estava havendo desconfiança que os planos estavam sendo todos sabotados por alguma pessoa que estava infiltrada no seu meio.
Victor saiu de Barcelona com destino a Málaga e quando lá chegou, tinha como missão entrar em contato com o Gen Miaju, que havia vindo de Madrid, especialmente para obter esse diálogo com ele. Desceu do trem e caminhou vagarosamente para uma pensão local chamada "LA PEPA".
Eram 30 pesetas a diária, muito caro para um local que não tinha qualquer espécie de conforto, fora as tradicionais refeições e cama. Estava sendo a era de explosão inflacionária, portanto, mais que lógico tudo estar pela hora da morte.
D. Joanita recebeu-o solícita, uma característica do povo de Málaga, ser gentil e cortês com seus convidados. Mostrou-lhe seu quarto, deu-lhe o horário de funcionamento da pensão, as regras da mesma, rigidez por completo.
Lá pela hora do jantar, já de banho tomado, Victor desceu para ouvir as notícias da guerra e conversar com os demais hóspedes.
De repente passou por ele uma garota com cerca de 18 anos, simplesmente linda! Uma verdadeira representante da Nação Espanhola.
Olhos verdes, duas puras esmeraldas, cabelos longos, busto pequeno, um olhar calmo, sereno, como as noites de luar estrelado. Veio até ao seu encontro e disse-lhe: - Buena Noch, Sr. ?De donde eres tu?
Sua voz era linda, tão linda que sua pronúncia parecia como o canto do uirapuru de nossa Amazônia.
Victor ficou de imediato magnetizado pelo seu olhar, voz e por algo que anteriormente o alertava de que a conhecia, naquele pequeno espaço de tempo em que buscava algo para lhe poder responder, passaram-se séculos de segundos, até que ele lhe disse:
- Yo soy de Barcelona, pero lá no hay ninguna pequeñita muy guapa como usted es.
Ela sorriu e ficou vermelha e de imediato fez-lhe uma nova pergunta:
?Eres usted mercenario?
A pergunta dela tinha sentido, porque toda a Espanha estava infectada de mercenários combatendo contra os revolucionários, a favor dos legalistas.
- No, no soy mercenario, yo soy militar, pero me gusta mucho la poesía e escribir e no momento estou em férias.
Ela achou estranha, porque não era comum um homem de cerca de 23 anos não estar lutando em qualquer das frentes de batalha.
- Que faz um poeta para sobreviver nestes tempos ?
Victor Disse-lhe: - Alimento o coração do povo, conforto os lutadores com poesias para suas amadas e para as suas famílias e tal ilusão se torna seu alento nesta época embrutecida.
Disse-lhe então: - Por que não traz de volta a vida àqueles que amamos e que partiram?
Respondeu-lhe que quem parte vive em outra vida, talvez melhor do que esta.
- E você, já perdeu alguém nesta louca guerra? Disse-me: - Não tenho ninguém importante em batalha.
Conversaram por quase trinta minutos, porém seu cérebro continuava constantemente buscando no mar dos tempos de onde conhecia aquela menina. Ele tinha certeza absoluta de que ela não lhe era estranha, porém a realidade negava uma confirmação. Mercedes ficou sua amiga e quase sempre pela noite vinha até a sala de jantar para ficarem conversando.
Pela manhã ela estava sempre a lhe servir o café. Naquela época, como já foi descrito, o povo o chamava de Victor e este nome lhe deu muita sorte, a começar pela primeira letra "V" de Vitória. Pelas vitórias na vida que ele conseguiu naquele memorável tempo, juntamente com essa piquetita muy guapa.
Os dias passaram-se rapidamente durante sua estada em Málaga, porque teve que manter contato quase que diário com os líderes militares, já que era oficial de inteligência e estava ali com a árdua missão de colher subsídios que lhe pudessem levantar os possíveis agentes que estavam infiltrados em suas forças.
Os generais Calvo Sotelo e Sanjurjo eram excessivamente rígidos e não lhe davam abertura para que subordinados parlamentassem com eles. Por isso sua missão ali se tornou cheia de óbices.
Porém, ele conseguia, de uma maneira ou de outra, chegar às salas em que se processavam as principais reuniões de Comando e fazer ver suas observações e ponto de vista.
Por ser muito convincente em seus argumentos lógico, ao final dos trabalhos deles, foi designado para servir no Estado-Maior do Gen Calvo Sotelo, fato este que o desagradou, porque não desejava sair de Barcelona.
... Dias antes ele estava em um sono profundo, as imagens vinham surgindo em sua mente como se os fatos estivessem ali acontecendo.
Ele via claramente uma linda mulher dançando e encantando a todos em um palácio. Seu sorriso era majestoso e ele, como todos os presentes, também estava magnetizado por ela.
Naqueles breves momentos ele sentiu que tinha uma amizade mais profunda com aquela mulher que estava encantando a todos com sua dança.
Quando ela terminou sua excelente apresentação, todos a aplaudiram e muitas pessoas do palácio em que ele se encontrava pensavam disputar a primazia de estar ao seu lado. Ele se via fardado e percorria o palácio, entrando em todos aqueles aposentos, os quais eram por demais familiares para si.
Quando deu meia volta, cruzou com esta elegante mulher, seus olhos cruzaram-se e pôde ver claramente como brilhavam suas duas esmeraldas, e foi neste momento que alguém tocou seu corpo chamando-o de volta à realidade daquela atual existência.
Era Mercedes que estava a avisá-lo de que estava já a encerrar o horário do café.
Quando Victor despertou por completo e a viu com os seus cabelos louros soltos, e quando ela sorriu-lhe dando-lhe bom dia; aí ele descobriu que Mercedes era a mesma dançarina de outrora, ou seja, ela era a sua querida Graciele, que havia lhe dado tanta alegria em tempos distantes daquela atual situação.
Ele então Disse: - Bom dia, acabo de descobrir de onde eu te conheço.
Ela sem entender lhe respondeu: - Senhor, só puede ser daqui.
Disse-lhe: - Olhe bem nos meus olhos e veja se você não se lembra de mim.
Ela respondeu-lhe: Sr, só vos conheço há poucos dias, de donde posso ter-vos conhecido?
Victor sorriu e disse-lhe novamente: Você tem certeza que não me conhecia antes de outro lugar, por exemplo Cadiz, Lisboa, Nápoles e Madrid?
- Senhor, jamais estive nestas cidades. Nunca saí de Málaga.
Então, ele compreendeu que ela tinha pouca sensibilidade, como outrora, e não podia captar o aflorar por menos que fosse, alguns lampejos de uma vida de outrora.
...Hoje, Carol também continua sem essa percepção, muito embora ela já tenha evoluído quanto a acreditar que exista uma outra vida além desta, porém absolutamente acha ser impossível existências passadas.
... aproximava-se o retorno de Victor à Barcelona e ele já estava se preparando psicologicamente para sua nova vida em Madrid.
Tinha recolhido todas as mensagens enviadas de Barcelona e iria estudar todas elas a fim de analisar se havia em alguma delas, algo que lhe proporcionasse chegar ao(s) envolvido(s) em traição à causa dos revolucionários de sua Espanhola.
Estavam vivendo intensamente a segunda fase da Guerra e os revoltosos republicanos defendiam Madrid com vitórias surpreendentes.
Victor deveria partir na manhã seguinte, porém devido a um ataque surpresa das tropas de pára-quedistas que foram lançados sobre a cidade, teve que refazer seus planos e aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
Essa foi uma decisão que o fez arrepender-se muito por muito tempo.
Durante à noite houve um bombardeio maciço à cidade e a pensão "LA PEPA" foi profundamente atingida, com destruição parcial das instalações e alguns mortos e feridos; dentre os feridos Victor se encontrava em profundamente afetado.
Foi seriamente atingido por estilhaços de bombas que explodiram continuamente sobre o local. Provavelmente os aviadores confundiram a pensão com o quartel, um quartel de infantaria que ficava em uma rua paralela à pensão. O motivo do erro procedeu, porque a cor da pensão era a mesma, além disso havia casas ao redor do quartel e estava uma noite um pouco chuvosa e escura, o que pode ter sido um fator preponderante no erro.
Quando ele foi atingido o mundo girou a seu redor e apagou por completo.
Alguns estilhaços penetraram em sua cabeça ferindo-o seriamente e matando e ferindo algumas pessoas da pensão.
Ficou cerca de 45 dias completamente fora de si. Nesses dias que ficou inconsciente, ele via o esforço de médicos tentando salvá-lo e a outros. Por vezes ele sentia que eles queriam desistir. De modo que foi uma luta árdua entre o desejo da equipe médica em salvá-lo e a morte que queria levá-lo mais cedo. Embora alguns dias depois ela tenha desistido - indo embora, passando a querer levar outra pessoa.
Para sua surpresa, quando saiu da UTI do hospital, a primeira pessoa que viu se aproximando de si foi Mercedes. Aí ela relatou-lhe a loucura que tinha ocorrido na pensão, devido ao bombardeamento da área. Sua mãe, D. Joanita, não resistiu aos ferimentos, e veio a falecer nas primeiras horas da manhã seguinte. A pensão tinha ficado completamente destruída.
Mercedes estava completamente só, a única pessoa próxima que ela tinha era uma tia em Burgos, uma pequena cidade da Espanha, porém ela no momento estava esperando a retirada total dos escombros para ver se podia aproveitar alguma coisa e arrecadar algum dinheiro, e desse modo poder seguir à Burgos.
Dias depois ela veio visitá-lo novamente e Victor mal podia falar, porque havia se agravado o seu quadro clínico. Então, perguntou a ela se não queria ser sua enfermeira até a época de sua partida.
Mercedes pensou, pensou e aceitou. A partir daquele dia ela tornou-se sua enfermeira particular e algumas vezes de muitas pessoas do hospital.
Foram dois meses de total dedicação por parte dela a Victor e devido a esta dedicação contínua da parte dela, se tornaram mais que amigos e passaram a namorar. Ele era o seu primeiro namorado, já que ela tinha entrado recentemente nos seus 18 anos, entretanto Mercedes tinha um corpo que podia passar por qualquer mulher de 20 anos ou mais.
Logo após sair do hospital, Victor teve a primeira preocupação: o que fazer?, para onde ir? e como ir?; porque as principais estradas estavam sob domínio dos Franquistas, então, resolveu entrar em ligação com o Andrés Nem, líder dos sindicatos que havia dominado as tropas franquistas, em Barcelona
Ele então solicitou a Victor que entrasse em contato com várias pessoas que ele lhe deu o respectivo endereço e fosse ser o líder deles em guerra de emboscada contra as tropas alemãs que estavam fazendo muitas atrocidades na Guerra.
Victor não poderia aceitar porque era militar e não podia ser comandado por um civil, relutou de imediato com a idéia, porém ele o fez ver que os legalistas estavam sem suas principais forças e que grande parte dos militares da região haviam falecido em combate. Ficou decidido então que Victor seria o responsável em reunir o pessoal militar que estava disperso pela região e levá-los para as montanhas a fim de que pudessem ser treinados para combater as tropas alemãs em emboscadas.
Nesse dia, Victor pediu Mercedes em casamento, porque não suportava a idéia de ficar sem ela.
Ele estava vivendo em termos amorosos a melhor fase de sua vida. Ela correspondia a todas as suas expectativas, embora fosse desprovida de cultura geral, mas cabia-lhe orientá-la e ensiná-la paulatinamente.
De modo que quando ele a pediu em casamento ela de imediato, assustou-se porque não estava preparada para esse pedido. Depois de alguns momentos de surpresa e excitação, Mercedes resolveu aceitar.
Nesse momento ele a abraçou e a beijou pela primeira vez então, Victor constatou que Mercedes ainda não sabia beijar e ele teve que ensiná-la. Primeiramente com suavidade e depois com muito ardor.
Casaram-se uma semana depois sem qualquer espécie de pompa. Só havia o juiz, o escrivão que lavrou a ata no livro e as duas testemunhas que Victor arranjou. Passaram a sua primeira noite em uma pensão de 2ª categoria, porque após aquele bombardeio pouca coisa havia sobrado intacta na área.
Mercedes ficou toda sem jeito quando chegou a hora de dormirem.
Ela por ser uma menina muito simples, e por não ter recebido educação sexual, não tinha nenhum conhecimento sobre sexo.
Todavia, após passar os momentos iniciais ela portou-se como a Graciele de outrora, muito embora ela jamais sonhasse a possibilidade de ter sido uma excelente dançarina nessa mesma Espanha. Após os momentos iniciais o seu ardor explodiu e Mercedes amou com toda a força de sua juventude.
Após três horas de amor, Victor estava inerte e caiu em sono profundo, só acordando lá pelas dez da manhã, aí novamente ele a tomou nos braços e beijando-a suavemente foi preparando-a para fazer amor novamente, já que estavam em Lua-de-mel.
À tarde Victor começou a contatar os militares que estavam dispersos e três dias depois ele já tinha um contingente de mais de 25 pessoas.
Foram para as montanhas e começaram a combater as tropas franquistas, as italianas de Mussolini e principalmente, as alemãs que estavam fazendo muitas atrocidades.
Mercedes não foi com ele para as montanhas. Decidiram de comum acordo que ela ficaria na cidade à procura de informações sobre os possíveis movimentos, e duas vezes por semana eles se encontravam.
Nesses dias Victor sabia de tudo que era importante à sua causa e nessa por hora de folga, quando faziam amor ela o deixava inerte na cama, como conseqüência, dois meses depois Mercedes ficou grávida o que foi para eles mais uma grande fonte de felicidade.
Capítulo XXXIV
OS DIAS DIFÍCEIS
Corria o ano de 1937, a Guerra estava no seu auge e indefinida. Os rebeldes de Franco tomaram Málaga no Sul e vencem os centros de resistências dos Bascos. A aviação alemã estava cada vez mais terrível. Não havia cidade que ela não bombardeasse e em um de seus bombardeios ela arrasou a cidade de Guarnica, pouquíssimas pessoas salvaram-se. Nada restou em pé que fosse importante na cidade. Até as igrejas foram derrubadas no terrível bombardeio. Foi no dia deste bombardeio que veio nascer Alfonso, o primeiro filho, só que ele veio ao mundo em Gijón, uma cidade pertencente à província basca e que tinha sido tomada pelas tropas franquistas.
Mercedes ficou radiante de alegria, embora Victor não tivesse estado com ela quando da chegada do primogênito, porque estava lutando arduamente em Barcelona.
À medida que o tempo foi passando a situação militar das tropas leais ao Governo foi se tornando cada dia mais e mais difícil. Havia fome até nas frentes de batalha, nas cidades os alimentos estavam escassos, a fome era uma constante em todos os lugares. O Mercado negro funcionava a todo vapor, muitas moças se prostituíam em troca de alimentos para poderem sobreviver. Era o caos total. O país estava chegando ao fundo do poço.
Veio a fase final da Guerra com a captura de Barcelona pelos revoltosos e o exército estava muito debilitado, fatigado pela fome, sem motivação para continuar a luta, embrenhou-se pelo interior da França.
Ficaram lá aguardando o andar da carruagem, Franco ajudado por muitos traidores, juntamente com o General Mola tomam Madrid e desfilam com os traidores da pátria.
Esses traidores eram pessoas que não tinham caráter e com a fome reinante eles se vendiam a quem lhes desse qualquer coisa que lhes pudesse matar a fome ardente.
Franco por ser o líder dos revoltosos, assume o poder na Espanha, impondo um regime ditatorial completamente rígido.
Com o término da Guerra Civil, Franco passou a apaziguar o país e tratou de reconstruir a Nação, que se encontrava mutilada por completo, obtendo grandes êxitos.
Uma grande jogada estratégica foi ele ter conseguido deixar a Espanha fora do conflito da Segunda Guerra Mundial.
Victor abandonou o exército e permaneceu na França, de modo que, quando explodiu a Segunda Guerra Mundial ele se encontrava em Paris e sofreu muito com a ocupação nazista e tornou-se logo um dos agentes da resistência francesa.
Mercedes veio ao seu encontro e arranjou trabalho na cidade, porque apesar de ocupada, vivia sua vida normal.
Eles tinham agora mais um lindo garoto de nome Garcia, que era o xodó de Mercedes, e a deixava radiante.
Capítulo XXXV
UMA OPÇÃO ACEITA
A Guerra tinha explodido na Europa, a Polônia e a Tchecoslováquia tinham sido tomadas, assim como a França. Os alemães entraram solenemente em Paris e o Gen Vichy teve que fazer um acordo para que a cidade permanecesse com sua vida normal.
O governo francês ficou com o general Petain e o Gen Degaule diretamente do seu exílio, na Inglaterra, comandava a resistência dos franceses à ocupação da cidade.
A resistência era composta por toda espécie de pessoas, que ia desde engenheiros em explosivos, políticos, jardineiros, garçonetes, pedreiros, até coveiros faziam parte do movimento contra os nazistas. Eles explodiam pontes, a fim de bloquear as estradas e dificultar o acesso das tropas. Destruíam ferrovias com a mesma finalidade, emboscavam as tropas e faziam toda espécie de boicote.
Às vezes, saía errado o planejamento, então, quem era pego sofria bastante as conseqüências, normalmente era a morte. Porém, antes de ela chegar o prisioneiro passava por uma série de torturas para que respondesse a todas as perguntas.
Quando isso acontecia, toda a estrutura da organização tinha que ser trocada imediatamente porque havia o perigo iminente de toda a resistência cair em mãos do inimigo.
Victor apesar de pertencer à resistência, trabalhava num clube de golfe em Paris e lá ensinava também um dos mais belos jogos, o xadrez. Ensinava com muita desenvoltura a técnica deste jogo, de modo que ficou muito respeitado e admirado pelos sócios, e lá funcionava um dos pontos da resistência.
Durante as atividades de final de semana do Clube, eles se reuniam e traçavam os planos para as ações a serem feitas na semana seguinte.
Alguns oficiais do Estado-Maior Alemão também freqüentavam o Clube para beberem e ser divertirem e em uma tarde de sábado em que o Clube estava cheio, Victor travou conhecimento com Hans Muller que era oficial S.S. Ele estava jogando xadrez, quando Victor entrou na sala de jogos, Hans Müller venceu seu oponente, venceu o segundo, o terceiro; aí chegou a vez de Victor jogar.
Ele notara durante as três partidas anteriores que o alemão utilizara a defesa índia da dama. Coube a ele iniciar com as brancas, aí Victor fez o fianqueto da dama, partindo depois para a defesa nizo-índia que são excelentes estilos de defesas no jogo de xadrex. Fizeram um jogo inicialmente equilibrado, mas depois do meio do jogo o espanhol dominava por completo e venceu a partida garbosamente.
Por ser oficial da S.S. ele se julgava no direito de jogar novamente na frente dos outros.
Jogou novamente e perdeu, mais uma vez e perdeu. Levantou-se e cedeu lugar para outro, com muita raiva, por ter perdido três vezes seguidas para um oponente. Hans Müller ficara por demais revoltado.
Victor estava cansado e levantou-se também e foi ver se contatava com alguém da resistência. Foi ao bar, bebeu alguns goles de cerveja e quando estava saindo deu de cara com Hans Müller, que o cumprimentou e por ser cortês, Victor o cumprimentou também, e daí ficaram amigos, até certo ponto, porque o alemão queria de qualquer modo vencê-lo em uma partida de xadrez porque seu ego estava ferido por completo e jamais acontecera até aquele momento de Hans Muller ter perdido uma partida entre a jovem oficialidade alemã e em relação a qualquer pessoa em Paris, desde que havia chegado àquela cidade e sobre Victor, ele ainda não conseguira quebrar a resistência psíquica, como ele sempre dizia em suas vitórias e isso era um fato por demais terrível para um oficial nazista da S.S.
O tempo foi passando, a Guerra explodindo em profundidade e a França lutando desesperadamente contra a ocupação alemã.
Um dia, a resistência bolou um plano para fazer uma grande emboscada em um trem que partiria levando uma companhia alemã. Todos os planos foram traçados, como sempre no Clube, mas quem ficou de levar a ordem de execução final foi Mercedes, que a recebeu no restaurante em que trabalhava.
A emboscada foi um sucesso total, muitos vagões desencarquilharam e com o tiroteio e explosões das granadas morreram mais de 80 alemães.
O Alto Comando Alemão ficou louco de raiva e Hitler exigiu uma vingança. Foi determinado que para cada soldado morto, cinco franceses teriam que morrer.
Muitas pessoas suspeitas foram presas e se não tivessem álibi iriam para a prisão do quartel alemão, e quando completavam dez pessoas, após as sessões de tortura eram sumariamente fuziladas sem qualquer explicação.
Foi uma semana de muitas execuções, e isso motivou mais ainda o ódio dos líderes da resistência aos alemães, principalmente os da S.S.
Mercedes salvou-se por pouco porque solicitou por telefone que um dos geurrilheiros viesse até sua casa e ele foi o resposnsável pela transmissão da ordem de ataque.Em seguida Mercedes contactou com um agente do Clube a fim de que fosse enviado um médico a sua residência. Ela nesse dia fatídico, estava de cama com um resfriado terrível e teve um álibi forte, que foi sem sombra de dúvida a visita de um médico alemão à sua casa.
Muitas pessoas que freqüentavam habitualmente o restaurante tiveram suas vidas ceifadas e a resistência tinha um novo problema, que era de substituir os agentes que tinham perecido. Mercedes estava sob suspeita e não podia receber temporariamente qualquer espécie de missão, porque poderia ser pega na primeira delas. Estava sendo muito vigiada.
Apesar disso, ela foi encarregada de levantar dados sobre a próxima saída de comboio alemão, já que ela trabalhava num restaurante que era frequentadíssimo pelo Estado-Maior Alemão e depois de muita bebida, com muita atenção, sempre se ouvia alguma coisa interessante.
Após 12 dias de compasso de espera ela conseguiu captar a saída de um comboio que se dirigia para Berlim e destino final Sobibor, o qual era um dos mais famosos campos de concentração na Polônia.
A finalidade do comboio era levar mantimentos para a tropa presente no Campo e substituição dos mesmos pelo pessoal mais recruta.
Planejaram a emboscada e ficaram à espera do dia previsto. O fato dar-se-ia à noite, o que era melhor, por questão de segurança.
No entanto, na véspera do evento acontecer, os oficiais S.S. responsáveis pela segurança do comboio prenderam todas as pessoas suspeitas no atentado anterior e Mercedes foi uma dessas pessoas.
Victor ficou desesperado porque sabia como eram feitos os interrogatórios e poucos eram os que resistiam, além de ser um perigo total para a organização.
Não havia saída, era só esperar os fatos acontecerem, mas Victor, por ser insistente naquilo que achava poder fazer, lembrou-se de que Hans Müller era oficial S.S. e Victor tinha aparentemente um certo grau de relacionamento com ele, devido aos jogos no clube.
Victor foi até ele e pediu-lhe que intercedesse por ela. Ele não quis saber dizendo que a mesma era suspeita em potencial de envolvimento no atentado anterior, embora houvesse escapado por ter apresentado um hálibe prefeito.
Victor para tentar sensibilizá-lo, havia levado o pequeno Garcia, para que pudesse ver a mãe, se fosse autorizado a vê-la.
Conversaram bastante e ele sempre tentando persuadi-lo a liberá-la, já que não havia qualquer prova conclusiva sobre a participação dela na emboscada anterior.
Depois de muito relutar o alemão disse: - Vamos jogar uma série de 10 partidas de xadrez, você sempre vai jogar com as pretas e se eu vencer pelo menos duas partidas, ela morrerá, caso contrário eu mando libertá-la.
Era uma jogada muito arriscada, porque quem sai jogando com as brancas tem logo a iniciativa de jogo. Outro fator importante era que Victor não podia colocar em cima de uma mesa de xadrez a vida de uma pessoa, principalmente da mulher que ele amava. Porém, era tudo ou nada, porque eles iriam torturar os presos até eles realmente confessarem suas participações no atentado anterior.
Victor tentou uma nova barganha: dar-lhe-ia sua coleção completa de livros sobre xadrez e uma análise de grandes finais de partidas dos melhores mestres, mais uma boa quantia em dinheiro. Ele ficou irredutível e disse-lhe que não havia outra saída, porque os prisioneiros estavam marcados para morrerem, e ele estava lhe fazendo uma concessão em consideração ao que tinha aprendido nos jogos de finais de semana. Era pegar ou largar.
Victor solicitou um prazo de 24 horas para pensar, porque uma decisão como essa não podia ser tomada assim repentinamente.
A bem da verdade, Victor solicitou o adiamento da decisão para poder estudar os finais de partidas e as grandes armadilhas de xadrez, do livro do Nilder Wilder, e os grandes meios de jogo, de Ferdinand Marca. Passou a noite e o dia seguinte estudando exaustivamente cada jogo, chegou a quase decorar as partidas, porque sabia intuitivamente que Hans Muller deveria estar fazendo o mesmo.
Quando deu 20h, Victor ligou para ele, disse-lhe que tinha refletido bastante e que aceitara sua proposta, porém somente no dia seguinte é que começariam as séries de partidas.
Hans Muller já estava com o regulamento pronto.
Caso vencesse a primeira partida ou duas intercaladas, independente do resultado geral Victor já teria perdido a competição. Era uma jogada por demais arriscada. Pediu-lhe então que deixasse a prisioneira em condições de ser liberta. Aí ele retrucou que não era preciso porque só iriam jogar duas partidas por noite.
Quando ele falou isso, internamente Victor deu um sorriso enorme, porque seria bem mais fácil do que imaginava.
Jogaram as duas primeiras partidas, Victor ganhou as duas, só faltava ganhar mais sete, obviamente porque ele poderia perder uma.
Quando Victor chegou a casa, encontrou a casa toda revirada. Era uma bagunça total e generalizada, principalmente em sua estante.
O objetivo ele sabia obviamente qual era, nada mais, nada menos do que os livros mencionados anteriormente.
Sua sorte foi que os principais livros de xadrez, ele os tinha trancado em um pequeno vaso sanitário do quarto de empregada e deixado por cima alguns entulhos insignificantes. Eles jamais iriam ali procurar.
No outro dia começaram a 3ª e 4ª partidas e novamente Victor as ganhou. Quando voltou a bagunça estava cada vez pior.
Pegou os livros e colocou-os num plástico, os amarrou e deixou dentro do poço em que tiravam água. Ninguém iria jamais supor uma idéia dessa.
Faltavam só seis partidas e Hans Muller iria fazer de tudo para ganhar as duas partidas.
Ele sabia que Victor detestava cigarro, então colocava dois sargentos fumando charuto havaiano bem perto dele, a fim de tirar a sua concentração.
Porém, quanto mais ele fazia isso, mais e mais Victor se direcionava no tabuleiro. Ele fixava o rosto de Mercedes no tabuleiro e no lugar da fumaça via o rosto de suas crianças e imaginava os cabelos louros dela.
Victor ganhou mais duas partidas. Hans ficou desesperado, porque se perdesse as 10 partidas ou as nove seria uma humilhação total para a oficialidade alemã, principalmente para os oficiais S.S.
Ele já estava sendo pressionado pelos oficiais de maior patente que a dele, porque, caso ele não conseguisse ganhar pelo menos as duas, seria deportado para servir na frente russa.
Ele começou a brincadeira e agora estavam as coisas se voltando contra ele, caso não conseguisse, o que era mais provável.
No dia seguinte, após Victor ter ganho a sétima partida, Hans Muller suspendeu a oitava para o dia seguinte e no meio da noite foi à casa do espanhol sugerir uma nova proposta.
Victor deixaria que ele vencesse as três últimas partidas e em troca ele facilitaria a fuga da presa que, segundo ele, faria uma transferência de local e no ato da transferência ele a libertaria. Também Victor deveria lhe dar os livros que ele tanto procurava. Além disso, lhe facilitaria a fuga para qualquer país que estivesse neutro no conflito, isso incluía a Espanha.
Era realmente uma proposta perigosa, porém muito tentadora, porque proporcionava a eles voltarem à Espanha.
Depois de muito pensar, Victor resolveu aceitar e a primeira coisa que fez foi lhe dar os livros que ele tanto desejava.
À noite jogaram e Hans ganhou. A platéia presente, que de nada sabia, bateu palmas entusiasticamente. Se ele vencesse mais uma partida, Mercedes estaria por completo a mercê da palavra dele. Era uma decisão terrível e difícil para Victor, porque ele, deixando-o vencer mais uma partida, não saberia o que Hans Mëller faria realmente.
Então, para pressioná-lo, Victor venceu. Faltava agora somente uma partida. Era tudo ou nada. Hans Muller novamente sentiu-se pressionado pelos seus superiores e disse-lhes que tinha estudado uma variante na qual ganharia do espanhol com muita facilidade, já que, segundo ele, Victor desconhecia aquela abertura.
Quando Victor chegou para jogar a última partida, o auditório estava completo, todos estavam aguardando o desenlace final. Um ou outro sairia dali em péssima situação.
Quando Victor sentou-se no seu local, Hans Müller disse-lhe em espanhol que a prisioneira tinha sido transferida e, possivelmente, já estava em liberdade, sorrindo em seguida.
Victor sorriu também e todos os presentes ficaram sem entender absolutamente nada.
Jogaram e em 40 minutos Hans venceu. Houve uma salva de palmas e muitas felicitações pela vitória conquistada.
Agora era Victor quem estava preocupado em saber o destino de Mercedes.
Após dar os livros para Hans ele ficou maravilhado com o teor das jogadas e profundamente sensibilizado agradeceu-lhe, informando que agora ele seria um adversário à altura para qualquer oponente.
Depois o chamou em uma sala reservada e contou-lhe detalhes do seu plano de fuga para Mercedes. Na manhã do dia seguinte, partiria um trem com destino a Lion e destino fina Barcelona (Espanha) e ela iria ficar no último vagão, com outros prisioneiros, e somente com cinco guardas, de modo que quando estivesse se aproximando dos campos que pronunciam a cidade, o trem pararia e neste momento o oficial comandante do vagão chamaria os guardas. Após eles saírem do vagão para um lado ela e os três prisioneiros pulariam do trem para o outro. Em seguida ele daria umas três rajadas de metralhadora para cima, simulando fuga de presos e daria partida no trem. De modo que seriam dados como mortos em tentativa de fuga.
Após saltarem em território espanhol eles estariam totalmente livres, e o que viesse a acontecer depois, seria por conta exclusiva de cada um deles.
Disse a Victor que viesse pela manhã para ver sua mulher, porque à noite seria isso impossível.
Em seguida voltaram para a sala de jogos, onde todos se divertiam com gamão, dama, bilhar e, logicamente, o mais nobre, o xadrez.
Pelo nascer da noite, Victor foi ver Mercedes o mais cedo possível e disse-lhe do plano de fuga e como ela deveria proceder com os outros três prisioneiros que estariam com ela no vagão.
Ficou acertado que na semana seguinte Victor iria para Barcelona também e voltariam a ter uma vida normal em seu país.
Os olhos dela brilharam quando Victor aventou voltar a viver em Barcelona.
A Espanha estava neutra no conflito e a França, apesar da linha duríssima de Franco, ele estava conseguindo apaziguar o país e socialmente as coisas já estavam entrando nos eixos.
O plano transcorreu normalmente como Hans tinha estabelecido, só que o pessoal ficou perdido por quase três dias nas florestas dos Pirineus, e quase foram fuzilados pelos bascos, porque eles acharam que eram alemães.
Mercedes os salvou com seu lindo sotaque oviedino. Os bascos lhes deram alimentação, pousada por uma semana, até eles se recuperarem completamente da fase ruim da floresta.
Capítulo XXXVI
O ÚLTIMO COMBATE
Chegou ao conhecimento da resistência que iria partir um comboio com grande quantidade de material, tais como obras de arte de grande valor, jóias, ouro, pedras preciosas, livros raros e muitas outras coisas previstas para ir também no respectivo comboio.
A segurança seria reforçada para evitar qualquer ingerência não só da Real Força Aérea, bem como do movimento das "Parquisans", resistência que atuava nas florestas francesas.
Victor e seus amigos entraram em contato com as Parquisans e fizeram uma mobilização geral, em todos os níveis da resistência.
Esse carregamento não poderia sair da França. Eram divisas do país que estavam sendo sugadas e era dever da resistência tentar obstruir a todo custo essa ida.
Traçaram em nível gerencial os detalhes de sua estratégia, e aguardaram os acontecimentos para não serem surpreendidos como na vez anterior, em que foi a grande maioria presa.
No dia previsto toda a organização já estava bem acionada nos pontos estratégicos e ficaram à espera.
Numa das curvas sobre a área da floresta densa que o trem teria que atravessar.Eles arrancaram os grampos que sustentavam os trilhos e os deixaram soltos e a cada vinte metros havia uma equipe bem armada com metralhadoras. Além de metralhadoras "INA" e vários explosivos que fariam o efeito psicológico quando explodissem. Quando o trem se aproximou e estava fazendo a curva, os vagões começaram a se desencarrilharem simultâneamente. Enquanto as explosões se sucediam continuadamente sobre os trilhos do trem, o tiroteio rolou solto de ambas as partes, entretanto, os soldados alemães estavam em posições inferiores devido ao fato dos vagões estarem em completa desorganização e virados.
Após uns dez minutos de cerrado tiroteio, os poucos alemães resistentes se renderam.
O problema agora se resumia em o que fazer com os prisioneiros vivos? Para onde seria levado o carregamento de ouro, jóias, obras de artes e pedras preciosas, bem como os caixotes de livros raros?
Chegaram a conclusão de que a única rota possível de chegar com probabilidade de sucesso era Madrid, já que a Espanha estava neutra na guerra.
Victor, por ser espanhol e mais dois franceses, foram encarregados de chegar à Espanha com sucesso levando o carregamento.
Quanto aos poucos prisioneiros, eles os despiram, levaram suas armas e os deixaram livres. Dez dias depois Victor e seus dois companheiros chegaram a Madrid, a qual na época era uma cidade cheia de todo o tipo de espião.
Venderam todo o ouro e pedras preciosas e depositaram no Banco de Madrid e os quadros ficaram sob a guarda do Banco de Madrid Quanto ao capital arrecadado, a finalidade principal era financiar a resistência.
Dias depois Victor foi para sua querida Barcelona e lá encontrou-se com Mercedes e seus dois filhos.
Na semana seguinte, leu pelos jornais que seus dois companheiros tinham sido assassinados. Ele já sabia o motivo óbvio, que era sem sombra de dúvidas a procura do ouro.
Portanto, Victor passou a se cuidar mais, porque só ele sabia onde tinha sido depositado e o número da conta. No outro dia foi ao banco e passou todo o capital existente nele para Mercedes com a incubência de ir repassando paulatinamente para os principais líderes da resistência> Sua idéia seria vir pra o Brasil, por isso ele mandou-a com as crianças para a nossa terra. Era previsto vir logo a seguir, porém não obteve o desejado, porque o avião em que ele fazia a viagem Madrid - Barcelona caiu e ele passou para o outro lado repentinamente.
Isso ocorreu no início de 1942. Mercedes chegou bem à nova terra e três anos depois eles se encontraram mais uma vez no outro plano.
Victor voltaria cinco anos depois e ela só voltaria 30 anos depois, porque ela fez uma passagem súbita e ficou muito atormentada, sendo necessário ter que fazer um longo estágio nos hospitais de recuperação espiritual.
Cinqüenta e três anos depois eles se encontraram pela segunda vez, agora em Brasília. Não sei absolutamente qual é a sua missão dessa vez em relação a ela, que agora chama-se Carolinne, como já foi descrito anteriormente.
Entretanto, nesta fase atual de vida está sendo totalmente diferente das duas outras anteriores, porque agora eles vivem num país em que a paz é uma constante e nas suas vidas anteriores a guerra era o principal tema.
Hoje estão próximos e distantes ao mesmo tempo. Próximos porque convivem quase que diariamente por cerca de 4 horas nos bancos escolares da querida "UnB".
Distantes porque ela não faz parte do viver diário dele. Existem três grandes barreiras que os separam nesta atual existência, porém sei que haverá sempre uma grande amizade entre eles. Ela precisará muito dele e ele estará sempre pronto para ajudá-la no que for possível.
Talvez eles ainda farão uma volta à Espanha. Se tudo der certo, pelo ano de 1998 estarão se formando e com certeza trabalharão juntos.
Quanto aos seus filhos de outrora, foram bem sucedidos e não sei se ainda estão neste plano ou no outro.
Capítulo XXXVII
A ESPANHA DE OUTRORA
A etimologia da palavra Espanha vem do português Espanha, do espanhol España, do grego Spania, francês Espagne e do inglês Spain.
A Espanha teve esse nome vinculado no país, a partir da união dos reinos de Castela e Aragão, cujos os reis foram conhecidos com os nomes de Fernando de Aragão e Isabel de Castela.
A Espanha, por ser a entrada para o Mediterrâneo, tornou-se o ponto de partida para muitos navegadores dos séculos passados.
Em época anterior aos romanos, ela se chamava Ibérica, nome por sinal oriundo do rio Iber, que significa corrente de água.
Habitaram a nossa querida Espanha os fenícios, entre 1000 e 800 a.C., os quais fundaram entreportos comerciais na pequena cidade de Cádiz.
Nessa época o comércio fundamental era baseado na agricultura e os habitantes de Cadiz também exploravam os metais, os quais eram extraídos da Serra Morena.
Após 900 a.C., chegaram os invasores celtas, os quais se fixaram na região de Catalunha, Ebro e na nuesta castelhana.
Alguns desses segmentos estabeleceram-se nas regiões montanhosas de Andaluzia. Eles construíram suas habitações no alto das colinas, dominaram as populações silvícolas existentes, mas foram submetidos à cultura local e fundiu-se com ela, dando origem à Cultibéria.
Por volta do fim do século VI, houve o crescimento dos navegadores gregos no Mar Mediterrâneo Ocidental.
Os gregos fundaram várias colônias, embora sua área de controle tenha sido somente no litoral leste.
No século III a.C., os cartagineses conseguem o monopólio na Andaluzia e na Região de Gibraltar, e manteve-se no local até a conquista dos romanos.
Os cartagineses negociavam sobretudo com os objetos metalúrgicos, e com os fabricados pelos gregos.
Os romanos, que derrotaram os cartagineses, foram quem dominaram a Serra Morena, desceram até o Vale de Guadalquiver e controlaram toda a região de Cadiz.
Durante o período de ocupação romana, a Espanha ficou ao sabor dos imperadores romanos, em relação à administração, religião e política.
Bem no início do século V, veremos a Espanha ser invadida pelos vândalos, os quais se fixaram na Andaluzia.
Os bárbaros foram os novos invasores da Espanha. No período de degradação da antiga Espanha Romana houve a invasão muçulmana e foram os povos germânicos que maior papel desempenharam nessa península.
Com a dominação muçulmana houve várias lutas internas entre as várias facções árabes e, com isso, surgiu a administração dos governadores, tais como: Damasio, Sevilha, Toledo e Zaragoza, cuja a capital, Sevilha, seria transferida posteriormente para Córdoba.
Os visigodos remanescentes refugiaram-se nas montanhas das astúrias, e elegeram como seu Rei independente, um dos partidários de Roderico.
O reino das Astúrias resistiu à dominação muçulmana e seus governadores chegaram até à Gália, onde foram derrotados pelo Rei Gálios Carlos Martel.
De acordo com as regiões, o domínio muçulmano perdurou na Espanha por cerca de três a oito séculos. A sua influência cultural foi de uma grande profundidade e duradoura.
Os muçulmanos completaram e melhoraram a obra dos romanos no setor de irrigação e principalmente em Andaluzia, em sua agricultura.
Os muçulmanos desenvolveram, com grande eficácia, o trabalho do cobre, dos metais, os móveis, a cerâmica, os tecidos de lã e seda.
Eles também construíram mesquitas, escolas, bibliotecas e palácios luxuosos.
Nos dias atuais ainda se pode ver a marca deixada por essa civilização no seio da Espanha.
Vários séculos se passaram, e diversos reinos passaram ao longo da história espanhola, entretanto, os mais famosos foram, sem sombra de dúvidas: Aragão, Castela, Navarro, Catalunha, Leão e outros de menor importância.
Os reis espanhóis, após sua unificação como nação, deram um colorido a mais no decorrer dos séculos, porém, ao longo da narrativa deste livro, o rei que nos interessa é, sem dúvida, Carlos IV, o qual governou de 1788 a 1808, cuja principal obra foi conter por essa época vários e vários motins e tentativas de golpes que se sucederam, e num deles a família real teve sua fuga frustrada por motim, o qual foi organizado pela facção fernandina em Aranjuez, obrigando Carlos IV a abdicar em favor de Fernando VII.
Todavia, Napoleão não viu com bons olhos este golpe e convoca à sua presença, em Boyonne, onde persuade Fernando, em troca de maracutaias e arranjos promete deixar a Espanha completamente independente e católica. Ambos abdicam em favor de José Bonaparte. Esse fato fez com que desencadeasse uma tremenda oposição aos franceses e novo rei, o qual não tinha nem simpatia, nem autoridade perante os espanhóis.
A guerra começa com vitórias iniciais para o exército espanhol, entretanto, o grande exército comandado por Napoleão entra na Espanha e toma a capital Madrid, depois Zaragoza e outras cidades onde havia resistência.
Os franceses só foram expulsos em meados de junho de 1811, na cidade de Pomplana.
Sempre gostei da Espanha e gostaria de relatar todas as fases pelas quais a mesma passou, todavia a finalidade profícua deste livro é narrar o feliz reencontro de Leonardo com Carolinne na atual vida, e isso, penso que seja mais emocionante para os meus leitores.
Capítulo XXXVIII
REFLEXÕES I
Nesta atual existência não foi permitido a Leonardo desposar Carol por várias razões.
Primeiramente, ele voltou mais cedo a terra e ela demorou mais trinta anos para voltar. Essa demora foi porque ela teve que passar por um período de treinamento de ajuda espiritual, já que ela ficou traumatizada com a partida dele para o outro mundo.
O segundo ponto específico é foi dada a Leonardo uma missão no mundo espiritual para cumprir nesta atual existência. Essa missão refere-se a fazer sua atual mulher espiritualizar-se, já que ela é excessivamente materialista e por isso, tem sofrido bastante quando está no mundo espiritual.
Outro fator preponderante é que Carol não se recorda de seus momentos passados consigo em outras existências, além de ser totalmente incrédula a esse respeito, apesar de ser religiosa.
Outro aspecto fundamental é que o seu reencontro deu-se por motivo de ajuda mútua, primeiramente porque Leonardo estava totalmente vazio e necessitava de algo que o estimulasse a atual vida. Segundo porque, no reencontro, intuitivamente, ele voltou a sentir a beleza da vida.
Ela estava deprimida e sem entusiasmo pelos estudos e quando houve a aproximação e amizade de Leonardo, ela voltou a sentir prazer em estudar.
Outra barreira que existe em sua atual vida é o fato de ela estar apaixonada por outra pessoa.
Esse amor, às vezes, não correspondido, deixa-a triste e infeliz, e nesses dias ele soube que seu coração fica vazio e ela completamente apática. Ele bem sabe que cabe a si tentar tirá-la desse estado de depressão.
A sua amizade por Carol é de uma sinceridade total. Por ela faria e faz tudo que estiver ao seu alcance, embora saiba que, às vezes, ela não mereça.
Quanto a ela, não posso afirmar que devote a ele essa consideração, porque, às vezes, nas coisas mais simples que ela pode fazer por ele, como por exemplo, ligar para dar algumas informações que ele não saiba ou ligar para desejar a ele Feliz Natal ou Ano Novo.
Porém, quanto a isso ele não pode reclamar, porque em suas outras existências, o normal sempre foi ele estar ajudando a ela e lhe informando tudo que a interessava.
Portanto, nunca foi normal ela se preocupar em lhe dar qualquer notícia importante em relação a sua pessoa, não seria agora que ela teria essa preocupação.
Às vezes, Leonardo fica a meditar sobre as características físicas dessas três pessoas que ao longo de épocas diferentes viveram diferentes mulheres.
Graciele, Mercedes e Carolinne, três pessoas em uma só. Carol guarda com mais profundidade somente a expressão de olhar de Graciele bem como sua linda voz. De Mercedes ela guardou o forte desejo de lutar contra as adversidades da vida. Estando sempre buscando e procurando um modo melhor de vida, mesmo a custo de muita luta. Os cabelos continuam lindos, só que os de Carolinne não vieram louros, e sim negros, devido a sua atual família, porém em seu corpo a torna bela.
Seus cabelos realmente lhe tornam linda aos seus olhos. Sei bem sei que ela não tem um corpo tão belo e majestoso como o de Graciele ou Mercedes. Acho que isso se deu devido à necessidade dela ter que passar por certas privações.
Entretanto, nunca foi o corpo que os uniu no passado e sim as qualidades tanto dela quanto dele.
Após a sua última noite na " Tratoria Oviedo", intuitivamente Leonardo achou que ela ficou diferente, pode ser que seja pura imaginação de sua parte, porém ele é muito observador e quando iniciar o semestre saberá se ela mudou realmente.
Mas, antecipadamente, ele sabe que ela vai procurá-lo, porque não foi à toa que houve a sua reaproximação.
Passarei agora a descrever os momentos da infância de Carolinne.
Ainda não posso escrever nada porque estou aguardando que ela me conte algo sobre isso. Só depois é que vou fazer uma filtragem e escrever o que eu achar importante e tenho a pura certeza de que meus leitores gostarão de ler.
A última vez que Leonardo viu Carol antes do ano de 1995 terminar foi a 27 de dezembro, quando ela embarcou para o seu querido Maranguape.
Estava com mais duas garotas que também iriam apreciar as belas praias do Maranguape. Ela estava muito séria e quase não se falaram. Ele tinha um compromisso no consultório dentário e o ônibus iria atrasar e ele mal pôde despedir-se dela.
Havia uma frieza no local, porque ele não conhecia ninguém e quase não obteve diálogo com as pessoas presentes. Daí ele resolveu não perder a sua consulta, despediu-se dela, desejou-lhe uma ótima estada nas férias e um feliz ano novo em Maranguape.
Era seu desejo dar-lhe um abraço e beijá-la, porém ela estava muito distante e séria demais. Aí resolveu somente dar-lhe o tradicional aperto de mão.
Saiu dali pensando que ela tinha mudado e estava fria com ele. Pura imaginação gemeniana. Uns 23 dias depois ele recebeu um lindo cartão postal que Carol lhe enviara. Disse que estava com muitas saudades dele e que falava sempre de sua pessoa nas conversas com os seus amigos.
No final, enviou-lhe um beijo, um fato raro, partindo de Carol.
Capítulo XXXIX
A INFÂNCIA DE CAROL
Conversando um dia com Carol ela me disse que jamais, em tempo algum, passou pela cabeça dela que sua vida, ou parte dela, pudesse um dia ser objeto de um livro.
Não achava a sua história tão significativa, a ponto de uma outra pessoa vir a se interessar por ela, mas como eu estava por demais interessado em dar prosseguimento ao que eu tinha já escrito, ela não poderia ser contra.
Ela nunca escondeu de mim o fato de não acreditar em vidas passadas, e que segundo ela, esses encontros que ela e Leonardo tiveram na Espanha é pura especulação da parte de Leonardo, uma ficção pura, segundo Carol.
Ela crê em DEUS e tem consciência de que depois dessa vida temos uma outra bem melhor e eterna, segundo ela.
Não gosta de Astrologia, Numerologia, Cartomancia e Tarô, coisas que são comuns no dia-a-dia de Leonardo. Ela também não acredita em reencarnação, no entanto, respeita as idéias dele, embora muito a contra-gosto e não deixaria de ser sua amiga pelo fato de eles terem pensamentos contrários, completamente opostos.
Dialogando comigo num bate papo informal, ela me disse que a vida dela se resumia em fatos superficiais, embora retratasse a realidade. As pessoas que nelas são descritas são verídicas.
Desejou-me muita sorte e se por um acaso o manuscrito feito por mim viesse um dia a ser um “BEST SELLER”, e se eu ficasse famoso, não esquecesse de convidá-la para a noite de autógrafos.
Sobre sua vida ela começou me relatando que os fatos chegaram ao seu conhecimento através de depoimentos de sua mãe, vizinhos, amigos e grandes acontecimentos que ficaram registrados em sua mente.
Era um dia muito especial, sexta-feira da paixão, o sol estava radiante naquela manhã, os pássaros que sua futura avó criava estavam fazendo aquela algazarra, transmitindo alegria para todos. Era um oito de abril do ano santo de 1977, quando ela veio ao nosso mundo.
Seus futuros pais resolveram passar o feriado prolongado na casa de seus avós paternos, em um lugarejo chamado Jericoacoara, certamente um nome indígena, que nem ela nem eu sabemos o significado, entretanto, nós sabemos que é um nome de uma erva medicinal de muito uso no local.
Jericoacoara, lá bem no interior do meu querido Ceará, o local tem uma das mais belas praias do nosso Nordeste, que é realmente fantástico. Na época ela era uma praia virgem e não havia qualquer movimento. Hoje o local é um dos mais procurados por turistas, principalmente os de origens internacional.
Ela estava ansiosa para vir ao nosso mundo e não poderia esperar mais, tinha que ver sua mãe naquele dia por demais especial, aniversário do nosso salvador, Jesus Cristo, precisava conhecer aquela mulher que por mais de oito meses lhe dera muito carinho ali dentro do seu ventre, era uma mulher especial e ela não poderia esperar mais tempo para conhecê-la.
Nasceu ali mesmo, no quarto de sua avó, que ficou imensamente feliz por ter recebido sua neta em seu quarto. No local não havia hospital nem médico por perto, de modo que sua mãe teve que ser atendida por uma parteira que fez seu serviço com muito carinho e precisão. Essa parteira era uma vizinha de sua avó e tornou-se a médica oficial do local para esses casos e pequenas causas acidentais.
Dona Neuza, como era chamada, quando colocou a pequenina menina em seus braços e cortou o seu cordão umbilical disse: - Essa menina vai ser uma pessoa de muita sorte. Ela vai ter muita garra e fibra, positivamente, irá vencer todos os seus obstáculos, poderá se tornar famosa. Em seguida deu a filha à mãe para que a conhecesse.
Os primeiros anos de sua vida foram dias de muita dificuldade, porque seu pai estava desempregado e não tinha condições financeiras para dar o conforto que a pequena primogênita merecia naqueles primeiros anos de vida.
Entretanto, tudo faria para fazer feliz sua filha que acabara de vir ao mundo, e no momento era o motivo da felicidade de toda a família.
O fato foi comunicado a todos os vizinhos que à noite do dia seguinte, sábado de aleluia, vieram visitar a nova mamãe e trazer os votos de felicidades à criança com muitos presentes compatíveis com a sua situação financeira de cada um. Era uma tradição que não podia ser quebrada, e como seu pai havia comprado umas garrafas de vinho, aproveitaram a oportunidade e fizeram um churrasco, e todos ficaram ali à beira do fogo a bebericar vinho, quentão e a boa ipioca, que é a melhor cachaça do Ceará.
A farra prolongou-se até a madrugada de domingo, quando foram dormir já de cabeça tonta. Mesmo assim com tanta alegria, seu pai tinha a percepção que positivamente não era um berço de ouro que a criança iria dormir, aliás, o mesmo nem existia, mas o amor por aquela pequenina menina era por demais acentuado, ela era realmente o encanto de todos.
Ainda sem nome, não havia qualquer obstáculo que superasse o amor que todos lhe dispensavam.
Seu pai, homem simples, muito jovem, bonito e bastante atraente; tais predicados deixavam as mulheres tontas. Quando freqüentava os bailes e forrós da região, elas suspiravam quando eram escolhidas para com ele dançar.
Quando menino, ele passou a morar com seus tios, os quais se tornaram seus verdadeiros pais. Por muito tempo eles lhe deram a educação necessária que toda criança da região costuma receber. De modo que seu pai cresceu feliz, praticando toda espécie de travessuras que qualquer criança costuma praticar na infância e recebendo todo o amor dos tios. O menino foi crescendo naquele ambiente saudável, e quando seus tios perceberam, ele já era um jovem bonito e formoso. Durante sua juventude, devido a sua beleza, que era notada por todos, tornou-se muito assediado pelas mulheres e todas disputavam ser a dona de seu coração ou sua companhia, o que resultou em uma filha antes do seu casamento. Essa filha tempos depois veio a ser sua amiga, embora com reservas.
Sua mãe também passara a juventude fora de casa, pois precisava estudar, uma vez que seus pais moravam em um sítio um pouco afastado da cidade e não havia escolas por perto. Era necessário sair daquele local em busca de melhor orientação escolar. E foi o que seus pais decidiram. Então, ela foi morar com seus padrinhos, bem mais tarde conheceria o seu futuro marido, o qual se tornaria o seu pai, ela não resistiu a atração daquele homem charmoso, os dois se apaixonaram, se casaram e colheram o fruto desse amor, um ano depois ela nasceria, a pequenina Carolinne, nome dado por sua madrinha que tirara o nome de uma revista e que todos carinhosamente passaram a chamar de Carol.
O casamento, obviamente não seria um conto de fadas, nem um sonho eterno de felicidade total, e anos depois houve a separação. Portanto, não teve um final feliz.
As brigas por causa dos passeios noturnos de seu pai, que gostava muito da vida boêmia, estavam se tornando muitos freqüentes. A princípio, sua mãe pensou que seria coisa passageira, e não dava muita importância, mas com o correr do tempo, o fato foi se tornando mais e mais acentuado e as brigas entre eles começaram a acontecer, fato este que sempre deixava Carolinne muito triste, principalmente quando seu pai costumava usar de sua força bruta para machucar sua mãe. Isso a deixava completamente angustiada e deprimida ao longo do dia. Carol sempre foi uma criança nervosa, penso que por presenciar tantas brigas e viver numa casa em que a tônica constante era felicidade seguida de insegurança motivada pelas brigas.
O tempo passou e neste ambiente ambivalente nasceu seu irmãozinho, o qual lhe ajudaria a enfrentar o sofrimento que estava se tornando uma constante, motivado por ver seus pais em conflito.
Seu irmão era um lindo bebê, que lhe causou um grande ciúme, de imediato, à primeira vista, mas depois ele passou a ser o seu xodó e os dois fizeram ao longo de suas vidas uma verdadeira amizade que se solidificou com o passar dos anos tornaram-se quase que inseparáveis.
Logo ele que ela teve ciúmes, veio a ser uma preciosa ajuda a superar seus obstáculos ao longo de sua estada em seu querido Maranguape.
A vida em sua cidade era muito tranqüila, ela tinha muitos amigos, os quais se tornaram ao longo do tempo de escola, verdadeiros irmãos.
Eles juntamente com ela passavam a maioria do tempo a brincar juntos, seja em casa, seja no campo ou na escola. Quando Carol completou as suas primeiras sete primaveras, entraria agora verdadeiramente para uma escola, porque já tinha passado três anos na pré-escola.
Sua mãe Dona Fátima trabalhava em uma loja de departamentos naquela pequena cidade, e todos se conheciam relativamente e se visitavam, auxiliando-se mutuamente nas horas difíceis.
Seu pai, Sr. Fernando, trabalhava também, só que em uma grande fábrica do centro de Maranguape, fábrica essa que se dedicava à fabricação de produtos de limpeza. A bem da verdade eles tinham uma vida confortável para as suas posses.
Como os filhos já estavam mais crescidos, os seus pais já não brigavam tanto, pelo menos aparentemente, ou na frente deles.
Quando chegava a época das férias, Carol e seu irmão Flávio sempre passavam na casa de sua querida avó em Jericoacoara, porque eles eram o xodó e a alegria maior de Dona Yara, a qual morava num sítio cercado de belas paisagens, dois pequenos riachos que cortavam o sítio, uma razoável quantidade de árvores frutíferas, animais de estimação, animais de fazenda, assim como: cavalo, o qual ela nunca gostou de montar, em virtude de seu medo, cabras, bezerros, alguns patos, marrecos, tinha até macaco, o qual era a alegria da garotada. Realmente era para ela uma delícia acordar com o canto dos pássaros, sentir o cheiro do café colhido e feito no sítio, em seguida ir até o córrego e mergulhar com as demais meninas, tomar seu banho matinal sentindo a natureza bem perto de si. Depois, sem qualquer preocupação voltar e encontrar uma mesa bem farta, repleta de boas guloseimas que Dona Yara mesma preparava para seus netos. O resto do dia era reservado para passar a brincar, subir em árvores para pegar frutas, nadar no riacho, andar de bicicleta e fazer mil coisas que toda criança tem direito e adora. Moravam no sítio além de dona Yara, Sr. Antônio, o qual era o avô de Carol, uma tia de nome Célia, a qual eles adoravam apesar de ser uma pessoa muito ranzinza, sempre tinha alguma menina disposta a ajudá-la nas tarefas de casa.
Quando chegava o mês de fevereiro, era o momento de arrumarem as malas e voltarem para casa, voltando conseqüentemente à vida na pequena cidade, retornar à escola, rever amigos, matar a saudade de sua mãe e até mesmo de seu pai, que ela ainda adorava.
As coisas aconteciam naquele ritmo e se repetiam ao passar dos anos, sem nada de novo vir à tona. Até que certo dia, seu pai ficara desempregado e resolveu que trabalharia fora de Maranguape e que iria viajar pelo país, vindo a passar mais tempo fora do que em casa.
Na época, eles chegaram a cogitar uma mudança de imediato para Brasília, pois naquela cidade sua mãe tinha um irmão que lhe ajudaria muito no início. Como os planos não deram certos, ele resolveu viajar assim mesmo, deixando mulher e filhos ao sabor do vento e a ver navios, uma pura irresponsabilidade por parte do Sr. Fernando, que deixou sua mulher e seus filhos a maior parte dos anos sozinhos, sem absolutamente nada.
Sua mãe teve que trabalhar bastante para poder suprir as necessidades da família.
O tempo passou e ela foi crescendo como se já não tivesse pai, porque o mesmo estava sempre ausente, quase já não se viam mais, principalmente nas horas que mais precisavam dele. Agora além de aparecer raramente, ele não mais ajudava financeiramente em casa, ficando sua mãe com toda a sobrecarga financeira dos custos da manutenção da casa. Ela, com sua garra invejável conseguia manter todos com um padrão de vida compatível com a situação e viver tranqüilamente.
Um belo dia, sua mãe lhe perguntou se ela era favorável à separação, haja vista a situação ser insuportável. Carol não tinha ainda a idéia do que era uma separação, ficou assustada, mas entendia que sua mãe era bem jovem e tinha direito a experimentar viver uma nova fase da vida, por isso, deu apoio total à mãe, principalmente porque ela percebeu que sua mãe já não gostava dele como antigamente.
Carol ficou a princípio, um pouco confusa, mas concordou que não era justo o que o pai estava fazendo com elas e de certa forma, ela se sentia aliviada por não ter mais que viver angustiada com aquela situação. Com a separação, ela ficaria liberta daquele estado de angústia que a consumia e ele não tornaria mais a ver sua querida mãe, que ela tanto adorava, sendo maltratada por seu pai, nas vezes em que ele vinha visitá-la ou a ver chorando por causa dele.
Foi muito difícil, pois apesar de tudo, ela o amava e sabia que ele ficaria muito sozinho, assim pensava Carol, todavia a separação foi inevitável.
Ele se foi, porém, voltaria um ano depois, muito mudado, um pouco mais carinhoso com seus dois filhos, meio desacreditado da vida. Carol sentia agora um medo terrível daquele homem que ela amara outrora, temia que o mesmo tentasse algo contra sua mãe, e se esses temores acontecessem, o que seria dela e de seu querido irmão? Não confiava mais no pai, e seu maior desejo era que ele fosse novamente embora de seu convívio familiar, só assim a paz voltaria a reinar em sua família.
Ao término do ano ela viajou para passar as férias com umas primas numa praia bem distante, e quando voltou, ele havia partido, e desta vez para sempre.
Alguns meses depois, próximo ao aniversário de Carolinne ele telefonaria desejando-lhe um feliz aniversário, e a partir desse dia cortou qualquer tipo de relação com seus familiares. Ele iria esquecer que tinha filhos e a saudades que ela sentia dele daria lugar a uma profunda mágoa. Ela não mais o veria.
Agora eram somente os três a lutar pelo dia-a-dia, e apesar de tudo, estavam muito mais felizes e unidos para a nova fase da vida. Seu pai não mais participaria da criação dos seus filhos, portanto, sua mãe teve que tocar o barco agora sozinha. No começo foi difícil, mas, ela era uma nordestina, e o povo nordestino tem sempre muita fibra para as ocasiões difíceis, além de ela ser muito forte e batalhadora, uma mulher invejável e de muita fibra, um verdadeiro exemplo a ser seguido.
Carol admirava cada vez mais a sua mãe. Às vezes, ela sonhava crescer e ser igual àquela mulher maravilhosa que tanto amava.
Carol já estava se tornando uma mocinha, pois acabara de completar seus 12 (doze) anos, e num belo dia, ela veio a conhecer um lindo garoto, e mesmo sem trocar uma única palavra, ela já estava completamente apaixonada por ele. Foi um amor infantil à primeira vista, uma história meio maluca. Ela era ainda muita menina e tinha medo de chegar perto dele.
Além disso, sua mãe a controlava de todas as maneiras, e naquela época jamais aceitaria que ela tivesse um namorado com aquela idade, porém o namoro foi seguindo clandestinamente e a sua maneira ela era muito feliz.
Sua vida de adolescente foi por demais monótona e a mesma se resumia a estudar, ir à missa aos domingos, passear pela cidade, tomar banho no riacho. Sua mãe estabeleceu que ela só poderia sair à noite, namorar, ir às festas, depois que ela completasse seus quinze anos. Carol se sentia muito reprimida e vigiada, mas, jamais reclamava, porque tinha sua mãe como um verdadeiro exemplo a ser seguido.
Estudava em uma ótima escola, adorava estar no meio daquela gente que tinha a sua idade, os mesmos pensamentos, os mesmos sonhos. Carol era amiga de todas as pessoas da escola e todos queriam sempre estar perto dela, porque dela exalava sempre um sentimento de alegria, aliada à sua constante calma. Carol sempre foi considerada por todos como a aluna exemplar, ela seria a primeira em tudo e se dedicava com muito carinho a todas as tarefas dadas pelos seus professores, os quais viam nela um grande potencial, portanto, ela despertava muita atenção por parte dos seus mestres.
Suas principais amigas nessa fase de sua vida foram, respectivamente, quatro garotas que eram fantásticas: Zizi, a mais velha, pessoa bastante tímida, não conseguia se relacionar muito bem com as outras pessoas, devido a sua timidez acentuada, além disso era um pouco desajeitada. Suas principais virtudes, sem sombra de dúvida, se resumiam em ser uma pessoa muito sensata, amável, solícita a quem quer que dela necessitasse e bonita.
Nanda, a mais maluca e extrovertida da turma estava sempre aprontando com as outras e as demais pessoas do colégio. Muito divertida, sem sombra de dúvida era uma ótima companhia, entretanto, não conseguia arrumar um namorado por não ligar muito para o seu visual e sua aparência, afastando com isso seus futuros pretendentes, com seu jeito meio maluco.
Roberta era a mais bonita da turma, tinha cabelos longos, lisos e lindos, que eram invejados por muitas garotas. Seus olhos claros deixavam os garotos babando quando ela passava. Era o sonho de todos os meninos da escola, porém ela era ingênua e com seu jeito simples não conseguia perceber quando algum menino se aproximava dela com intenções de cortejá-la. Roberta era sua melhor amiga, e haviam se conhecido desde os três anos, moravam e cresceram como verdadeiras irmãs. Roberta disputava com Carol a primazia de ser a melhor aluna. Carol simplesmente a adorava, ela era muita reservada, mas com Carol se abria totalmente porque tinham uma amizade profunda e um grande respeito mútuo e uma profunda relação de confiança.
Nara, além de ser sua amiga era sua irmã por parte de pai, ela fora à conseqüência de uma aventura de seu pai antes do casamento, já citado anteriormente. Ela era dois anos mais velha que Carol e sempre se consideraram mais como amigas do que como irmãs.
Carolinne sempre sentia em conversas com sua mãe, que ela não concordava muito com essa aproximação e amizade, esse modo de pensar de sua mãe só mudaria muito tempo depois, porque sentiu que era inevitável a convivência entre ambas, devido à sólida amizade que se firmara.
Carol sempre gostou muito de Nara, mas com o passar do tempo bem na fase de adolescência ela veio a perceber que não poderia depositar total confiança em Nara.
A quinta da turma era obviamente Carolinne, e como todas se conheciam desde crianças, e estudavam juntos há bastante tempo, foi fácil tornarem aquela amizade sólida, uma verdadeira turminha de adolescentes com seus sonhos e maluquices que a idade permitia fazer.
Carol, por essa época, já havia namorado alguns garotos da escola, porém ainda não conseguira esquecer aquele que havia sido a sua primeira paixão, que havia ido embora; mas um belo dia, eis que ele chega de surpresa à sua escola, estava ainda mais lindo e ela não sabia qual seria a reação dele em relação a ela. Talvez ele não mais se lembrasse dela, sua antiga namorada, pois passara algum tempo no Rio de Janeiro e com certeza havia conhecido muitas garotas bonitas. Mas, para sua surpresa, ele não só lembrara, como reacendeu sua velha paixão.
Tempos depois, ela viria a descobrir que ele era mais um entre milhões de cafajestes que existem no mundo. Obviamente Carol ainda estava ressentida com o acontecido com a sua família, porém, fez questão de observar que existem as exceções.
Ela ficou decepcionada e frustrada por não ter dado certo o seu primeiro amor, porém um outro rapaz, que se dizia apaixonado por ela conseguiu aos poucos preencher aquele espaço deixado por ele. Ela jamais tinha lhe dado atenção, e ele foi o seu consolo durante essa fase. Jaime era muito atencioso, porém Carol pressentiu que o namoro não iria avante, sem perspectivas, pois Jaime era o que as mães sempre diziam que não sonharam para genro.
Foi uma época de emoções e como Carol sabia que sua mãe não aprovaria tal tipo de relacionamento e outros namorados do mesmo tipo que Jaime.
Ela conseguia levar tudo de uma forma bem habilidosa e sua mãe jamais percebia suas aventuras de adolescente, pensava Carol assim.
Certa vez sua mãe lhe chamou para terem uma conversa séria, aí Carol descobriu que, incrivelmente, ela sabia de todas as suas histórias, pois tinha seus informantes. Carol recebeu uma enorme bronca, porém não se arrependeu de nada, porque o que ela fizera era típico da juventude, coisas da idade. Mas sentia que sua mãe ficara decepcionada com a filhinha que ela considerava com um anjinho.
Estava agora com seus 14 anos, às vésperas de concluir o primeiro grau, encontrava-se cheia de dúvidas, e cada vez mais certa que sua querida mãe seria seu modelo a seguir, a única diferença é que Carol teria o que ela nunca teve, a chance de estudar e apoio para crescer.
Seu pai não dera mais notícias, ela continuava aprontando com Zizi, Nanda, Roberta e Nara. Elas gostavam de sair ao meio-dia e passear de bicicleta para tomar banho em um córrego, o qual ficava a uns trinta minutos pedalando. Estavam cursando a oitava série do primeiro grau à noite, às vezes fugiam das aulas para poderem namorar e aprontar um pouco.
Estudar à noite tem essas vantagens, na época elas inventavam um motivo qualquer para que suas mães aceitassem. O fato é que foi um ano inesquecível para todas as cinco mosqueteiras.
Carolinne estava mais uma vez apaixonada, e embora tivesse com um namorado muito carinhoso, atencioso, simpático e muito disputado pelas outras garotas da escola, Carol, como sempre, gostava da pessoa errada, estava ligada a outro rapaz que não lhe dava a mínima atenção.
Continuava o mesmo ritmo de vida, escola, missa aos domingos e, de vez em quando, alguma festinha ou passeio.
Já não passava mais as férias no sítio de sua avó, porque não mais agüentava ficar mais que uma semana em um lugar tão parado, queria agitação e as coisas que antes a atraíam no sítio, já não tinham aquele sabor especial de antes.
Carol não sabia bem o que seria “quando crescer”, mas era fascinada por desenho, pinturas e coisas desse gênero.
Começou a fazer um curso de desenho artístico e publicitário, por correspondência, mas não durou nem três meses e parou.
Nessa época de sua vida Carolinne não estava gostando de sair muito à noite, principalmente porque sua mãe não permitia e isso a deixava muito aborrecida, pois se sentia bastante responsável para fazer qualquer coisa.
Adorava esportes, especialmente vôlei e futebol, não perdiam um único jogo na TV, principalmente se fosse das seleções de vôlei e futebol.
Praticava também o vôlei na escola, mas nunca se destacou, jogava o handebol sem muito sucesso.
Continuava bem nos estudos, alcançando as melhores notas, como sempre.
Jamais ficara em recuperação, e os mestres apostavam que um dia ela iria conseguir algo mais. Sempre dera orgulho à sua mãe nesse aspecto, pois todas as outras mães a elogiavam pela filha inteligente que tinha.
Carol participava sempre dos eventos da igreja e dificilmente faltava a missa aos domingos, ajudava na liturgia, no coro e às vezes encenava alguma passagem bíblica, junto com sua turma, para os participantes da missa.
Durante algum tempo ela fez parte de uma companhia de dança, eram meninas praticamente da mesma idade, sob o comando de uma moça mais velha. Ensaiavam diversas coreografias e se apresentavam em várias escolas, igrejas do interior de sua cidade e até em cidades vizinhas.
A vida transcorria daquele jeito, um belo dia sua mãe chegou com a notícia de que um tio seu, que morava em Brasília, havia convidado Carol para estudar naquela cidade, pois lá poderia fazer um segundo grau mais decente e, quem sabe, até sonhar com a faculdade.
Primeiramente, a idéia a deixou completamente fascinada, era tudo o que ela realmente queria, porém, depois pareceu um pouco assustador, deixar casa, família e ir morar tão longe.
Sua mãe, de imediato, não aceitou. Mas depois ponderou e conversando com ela concluíram que era a melhor coisa a ser feita para Carol.
Estava tudo certo, e ela iria logo após a formatura do 1º grau. A festa foi linda! Ela estava usando um longo vestido de seda e rendas branca, com um arranjo no cabelo e um sapato bem parecido com o de uma verdadeira fada ou uma linda Cinderela que ela costuma ver nos filmes infantis. Sentia-se como uma verdadeira princesa de um conto de fadas em seu castelo e só faltava o seu príncipe, mas aos poucos os candidatos foram aparecendo e durante o decorrer do baile surgiram algumas propostas de namoro, mas ela continuava gostando do mesmo rapaz que nem olhava para ela. Era orgulhoso demais para perceber a grande pessoa que dele estava gostando e com certeza ela perderia para sempre.
O dia da partida estava se aproximando e ela não sabia se estava pronta para aquela separação que julgava tão brusca, mas mesmo assim nem pensou em desistir, algo dentro de si dizia que ela não se arrependeria.
Ela podia partir sem medo, porque seu destino já estava sendo traçado e foi num dia dedicado a Iemanjá, que ela viajou. Não havia mais jeito. Sua mãe estava triste, seu irmão Flávio estava no sítio da avó e era o aniversário dele.
Suas inseparáveis amigas Zizi, Nanda, Roberta e Nara estavam lá para aumentar ainda mais as suas emoções e se despedirem dela. Elas choraram e Carol também chorou, porque é muito emotiva. Mal podia ver a sua mãe com aqueles olhos tristonhos, aquilo lhe cortava o coração, mas era preciso ir já não havia volta para aquela situação, o futuro a esperava de dentro de seu âmago algo lhe continuava dizendo que ela tinha tomado a decisão certa e seria feliz. Foi uma viagem longa e muito cansativa, além do mais ela não estava acostumada a fazer longas viagens, foi insuportável essa primeira separação. Quando já não estava agüentando de cansaço, foi que começou a vislumbrar os arredores de Brasília.
Quando chegou à Brasília, notou logo que tudo era diferente nesta cidade, as pessoas, as ruas, o clima, parecia que não se adaptaria jamais a essa nova situação que se apresentava.
A saudade começou a fazer parte do seu dia-a-dia e aumentava constantemente, não tinha amigos, considerava-se um verdadeiro peixe fora d’água. Aquele não era seu mundo, não tinha sempre sua mãe a lhe orientar mostrando-lhe o caminho a ser seguido. Sentia falta das festas, dos passeios com suas amigas prediletas, das conversas entre elas e até do “orgulho” que, às vezes, ela ainda sentia. Portanto, estava completamente desprotegida e desorientada, muito embora tivesse o carinho de seus tios e tias.
Estava sozinha e sem forças para aquela nova situação, que agora se apresentara, pensou em voltar, pois sabia que isso era no fundo uma vontade de sua adorável mãe, mas ela seria lembrada sempre por suas amigas como uma perdedora, porque tivera a oportunidade de vir estudar na capital do país e voltar sem sucesso, não era o seu caso. Ela teria que prosseguir custasse o que custasse, não iria desistir. Ela seria uma perdedora. Nem mesmo lutara, diriam suas amigas. Não, não e não. Isso não iria acontecer. ela sempre quisera ser como sua mãe, que admirava tanto sua força e fibra, voltar não seria a solução, jamais faria isso.
Começou o segundo grau, a escola era completamente diferente da que ela conhecia, a começar pelas pessoas que mal se olhavam e se falavam e havia já uma turminha dos formados anteriormente, os quais estavam sempre sorrindo e aprontando com os calouros, ela não se intimidou, e aos poucos, com muita confiança, e por mérito próprio, foi conquistando os seus novos amigos e amigas, e em poucos meses depois ela já estava sendo muito apreciada na sua sala. O ritmo das disciplinas que ela temia, apesar de ser forte, fez com que ela estudasse mais e quando vieram as primeiras notas, ela já era destaque em sua sala. Esse fato foi logo notado por todos e por seus mestres.
Morava em uma rua muito agitada, cheia de pessoas extrovertidas e cheia de crianças, mas ela não conseguia se aproximar de qualquer pessoa para fins de amizade.
Era início de fevereiro, não recorda especificamente o dia, ela foi a uma festinha com seus tios, porque queria se alegrar um pouco, e eles estavam levando sua afilhada, que ela conhecera quando pequena, quando seus tios tinham visitado a sua casa, porém não havia qualquer espécie de intimidade entre elas.
Seu nome era Cassandra, e de imediato Carol ficou com ciúmes daquela menina que seus tios consideravam como se fosse sua filha. Mas não podia sequer imaginar que ela viria a ser a melhor das amigas que ela já tivera, uma verdadeira irmã, apesar de ser três anos mais nova que Carol, elas tinham muita afinidade e tempos depois Cassandra se tornaria em uma das pessoas mais importantes para ela nesta cidade.
Logo fez 15 (quinze) anos e a festa linda que sempre sonhara não aconteceu. Não tinha sentido, pois sua mãe não estava com ela, nem seu irmão e seus amigos e amigas.
No final desse respectivo ano sua mãe a visitou. Era tão bom estar ao seu lado, sentiu uma imensa vontade de voltar com ela, mas Carol já estava se acostumando e não podia desistir.
Perto de completar 16 (dezesseis) anos conheceu Sílvio, um moreno que era lindíssimo, um verdadeiro gato, que a conquistou à primeira vista. O namoro durou apenas um mês, oficialmente, pois ela descobriu logo de início que ele não era o que ela estava a imaginar, mas o namoro seguiu e começou uma paixão inesperada, só que agora era mais difícil para ela conter as emoções, porque confiava nele, chegava mesmo a aceitar algumas de suas atitudes, e sabia que ele era uma pessoa negativa, no entanto, estava cada mais apaixonada e envolvida por ele.
Sua família não aprovaria jamais esse namoro, e os seus encontros eram poucos e ninguém podia saber que quase um ano depois de terminado aparentemente o namoro entre eles, ainda estavam juntos a namorar firme.
Carol precisava urgentemente se libertar de Sílvio, porque a atração que ela sentia por ele era irresistível e estava a ponto de ceder às investidas de Sílvio, e isso a deixava angustiada.
Ele queria que eles fossem embora de Brasília, e que ela passasse a viver maritalmente com ele o que seria uma terrível decepção para a sua mãe, a qual ela tinha como um verdadeiro exemplo a ser seguido. Jamais daria esse desgosto para ela. Nunca faria tal loucura, pois sabia que não era a melhor coisa a ser feita e não estava nos seus planos, ainda muito jovem, vivenciar uma situação como esta, sem experiência, podia logo ficar grávida e isso seria a maior decepção que ela daria a sua mãe, jamais faria isso!
Passou a orar a Jesus e ele deu-lhe pouco tempo depois forças e conseguiu tirá-lo de seu destino.
Já estava agora acostumada à cidade e a saudade de casa já não era tão forte, mas queria naquelas férias, quase dois anos depois de ter partido, poder retornar para rever sua família e tantas pessoas que ela amava.
Estava tudo acertado e Carolinne muito entusiasmada com a viagem que se aproximava, era hora de ter novas emoções com seus amigos em Maranguape, mas inesperadamente surgiu uma proposta de emprego, e ela não podia recusar. Mais uma vez sua mãe veio visitá-la, só que agora trazia consigo seu irmão Flávio, o qual já estava com seus 13 anos, era muito bom ter a família reunida, mesmo distante de sua verdadeira casa.
Estava agora fazendo o último ano do segundo grau, no período da manhã, trabalhava à tarde, e à noite ficava na rua de sua casa a conversar com os novos amigos, os quais eram poucos.
Nos finais de semana passava com sua amiga Cassandra, que a visitava constantemente, às vezes, saía com ela e outra amiga, ou mesmo com o namorado.
Na escola, sua melhor amiga era Tânia, uma morena muito extrovertida e de total confiança. Foi durante os três anos do segundo grau, praticamente sua melhor amiga e essa amizade ainda perdura nos dias atuais, apesar de Tânia estar bem casada. Não freqüentava a igreja como antes, mas continuava fiel a DEUS e aos seus mandamentos.
Carol tinha um namorado, que fazia qualquer coisa por ela, ele foi uma das poucas pessoas que verdadeiramente gostou dela de verdade.
Depois de Sílvio, havia namorado outros rapazes, mas nada muito sério, só para passar o tempo, não conseguia mais gostar de ninguém e não seria só diferente com Diego. Ele era extrovertido, tinha muitos amigos e era uma pessoa por demais popular. Através dele fez muitas amizades, todos a conheciam como sendo a Carol do Diego. Seus tios o adoravam, suas amigas o achavam o máximo.
Infelizmente, ela jamais gostou de quem gostava dela e isso parecia uma sina a lhe acompanhar. Perdeu Diego, uma pessoa que tinha por ela imensa consideração, carinho e uma verdadeira paixão. O seu sonho era se casar com ela. Diego a amava com fervor.
Como sua vida havia mudado nesse tempo, ela já não sentia saudades de sua mãe e de seu irmão, lembrava dos amigos, mas agora ela tinha uma nova turma, novas idéias e não pensava mais em voltar.
Terminou o segundo grau, saiu do emprego, e finalmente voltaria para casa. Foram umas férias maravilhosas, ela teve a grata surpresa, pois ainda tinha os velhos amigos de outrora, a sua casa estava igual, até seu quarto de infância sua mãe tinha conservado do mesmo jeito.
As mosqueteiras, inseparáveis amigas, Zizi, Roberta, Nanda e Nara continuavam lá, receberam-na muito bem e continuaram amigas e fazendo loucuras no reencontro, com exceção de Roberta, que agora havia casado e estava grávida esperando uma menina para breve.
Foi uma decepção ver que sua antiga melhor amiga a tratava com indiferença, talvez por inveja, ou por não poder fazer agora as mesmas estripulias de outrora. Roberta também não estava tratando bem as suas antigas amigas, pois as tratava também com grande indiferença. Resolveu então não dar muita importância ao fato, afinal, ela estava casada e tinha que ter suas responsabilidades de mulher casada.
Carol fez tudo o que tinha direito de fazer nessas férias, foi à praia, à festa, namorou bastante, curtiu sua mãe, seu irmão. A única coisa que não fez foi ir visitar a sua avó, a qual ficou um pouco triste com sua neta por não a ter visitado.
Infelizmente chegou o dia da partida, e mais uma vez deixou a todos que amava. Quando chegou à Brasília, teve que se readaptar novamente, pois não iria morar na mesma casa, na mesma rua, seus tios haviam comprado uma casa em outro bairro. Foi muito difícil a nova adaptação, porque ela já gostava daquele lugar em que eles moravam, teria que ficar longe dos amigos.
Mais uma vez pensou em voltar à casa de sua mãe, afinal ela sabia o que ia fazer agora.
Sonhava em passar no vestibular, porém não se achava devidamente preparada. Pensou em adiar. Assim que lembrou do esforço que sua mãe fizera até aquele momento, decidiu-se de imediato a ficar e fazer o tal do vestibular. Seguiu em frente, matriculou-se em um cursinho preparatório e voltou a trabalhar.
Passava o dia todo no serviço e estudava à noite. Ficava a semana inteira na casa de um outro tio, próxima do trabalho e do serviço.
Nos fins de semana ia à casa de seus tios ou para ver Cassandra.Foi uma época muito conturbada na vida de Carol, ela se sentia muito só, e freqüentemente chorava. Só não era pior porque tinha uma velha amiga no cursinho, Tânia, que de vez em quando saía com ela para ver as modas no Conjunto Nacional, e passavam o dia passeando, conversando, colocando os assuntos em dia, e ela aproveitava essas ocasiões para poder desabafar o seu estado de angústia. Além disso, via Cassandra quase todos os dias da semana e podia com ela desabafar as suas inquietudes.
Estava Carol muito nervosa com a proximidade das provas do Vestibular. Estudava muito e achava que tinha poucas perspectivas de ser aprovada. Quase no término do cursinho arrumou um namorado, e, às vezes, matavam às aulas para poderem namorar, ela aproveitava esses furtivos encontros para poder descarregar a tensão, devido à proximidade das provas, porém o romance acabou juntamente com o curso.
Num belo domingo de julho, Carol, Cassandra e os seus amigos foram para um churrasco na casa de um amigo que era comum a todos, eles bebiam, dançavam e sorriam à vontade.
Um dos rapazes que Carol estava a paquerar há muito tempo encontrava-se também nessa festa. Jefferson é seu nome, e eles eram amigos, mas sem muita intimidade. Ela sempre o achara muito interessante, porém ele era comprometido. Naquele dia eles começaram a trocar furtivos e comprometedores olhares, que só faziam sentido para os dois, só eles percebiam o real significado e, em certo momento, ele lhe disse que a achava muito bonita e que há muito a estava paquerando. Eles já haviam bebido bastante, e na primeira oportunidade que eles puderam ficar a sós eles se abraçaram e ela o beijou. A partir daí ele começou a lhe telefonar seguidamente e marcaram vários encontros. Quando ela deu por si já estava completamente envolvida por ele e apaixonada e dessa vez era completamente diferente das anteriores. Ela sentia a necessidade de estar sempre ao lado dele, era como se ele fosse a água que lhe aliviaria a sua sede. Ele também parecia estar apaixonado, mas como era muito reservado, ela não podia afirmar com total certeza, porém o que ela mais queria era ser amada, somente isso importava para ela.
Ela estava feliz, mas ficou um pouco chocada quando ele lhe disse que era comprometido, sofreu muito, logo de início, mas isso não importava desde que ela fosse feliz. Sofria muito, pois ele não era só dela e a sua paixão tinha que ser secreta. Sentia-se inconformada com aquela situação que se apresentara em sua vida, nunca havia vivenciado um romance dessa magnitude. Não queria esconder os seus sentimentos, os quais eram belos e puros, não podia jamais esconder um sentimento tão bonito.
Finalmente, chegou o resultado do vestibular, e para a sua surpresa, ela estava entre os aprovados e em duas faculdades. Optou pela UnB, porque não teria qualquer despesa. Foi uma grande festa organizada pelos seus amigos e eles lhe fizeram a maior das surpresas trazendo sua mãe de Maranguape. Ela se encontrava muito feliz, tudo o que havia sonhado desde criança começava a se realizar, todo os esforços pareciam ter feito sentido.
A história com Jefferson continuava dando certo, porque ninguém conseguia descobrir esse amor secreto, ela o estava amando, era a primeira vez que realmente amava alguém. O caso com Sílvio, em relação a este, fora só um despertar de sentimentos, Jefferson realmente a fazia feliz. Ele conseguia despertar nela toda espécie de desejo, só que ainda não estava suficientemente pronta para ir mais longe, ainda não era chegada a hora, apesar dele, às vezes, insistir. Ele era tudo que ela sempre desejara para si e apesar dos problemas parecia que seriam felizes e ficariam juntos.
Carol não conseguia entender como ela conseguia gostar tanto de uma pessoa, a ponto de direcionar todos os seus pensamentos do seu dia para ele, estava loucamente apaixonada. Sentia-se igualmente amada, só não entendia por que ele a fazia sofrer tanto. Jefferson era muito ciumento, de difícil temperamento e bastante reservado. Contudo, por ele, ela seria capaz de agüentar qualquer sofrimento. Não queria nem sequer imaginar que pudesse viver sem a pessoa que realmente amava.
Na faculdade ela não sentia dificuldade nas matérias, com exceção de Matemática e contabilidade que ela considerava muito complicadas e ela sentia que não estava absorvendo absolutamente nada, estava perigando.
As pessoas pouco se falavam e ela, como sempre, sentia-se como um peixe fora d’água. Ela não estava trabalhando, estudava à noite e seus fins de semana passava com Cassandra, que era uma forma de estar com Jefferson.
Sua turma sempre saía junta. Ele lá sempre a observá-la e ela tentando esconder de todos todo o amor que estava sentindo. Apenas Cassandra sabia, mas se alguém olhasse nos seus olhos, desvendaria logo esse seu segredo.
Nesse meio tempo, quando a situação estava se tornando já crítica, ela estava pensando em desistir, ela conheceu Leonardo na faculdade, e logo notou que ele era uma pessoa muito simpática e que sempre estava a lhe ajudar nos trabalhos escolares. Aos poucos o seu coleguismo passou a dar lugar a uma forte amizade. Ela sinceramente não conseguia entender porque ele se preocupava tanto consigo, afinal ele mal a conhecia.
Certo dia ele lhe disse que haviam vivenciado uma vida na Espanha, em outra vida, obviamente que ela lhe disse que não acreditara, porém respeitou suas idéias.
À medida em que os meses passavam, Leonardo se preocupava mais e mais com ela, e não conseguia enxergar e entender a causa desse real interesse, uma vez que ela não acreditara na história de vidas passadas, além do mais, ele já era um quarentão e comprometido.
Ela ficou totalmente perturbada quando uma vez em que saíram para beber um chope, quando ele lhe disse que julgava estar completamente apaixonado por ela, ela ficou completamente desconcertada e nem sabia o que dizer a ele, porque ele tinha idade para ser seu pai, além disso, era casado, e lembrou-lhe que somente Jefferson tinha espaço cativo em seu coração. Um outro homem jamais ocuparia esse espaço, porém logo em seguida ele lhe disse o verdadeiro motivo que o fez pensar assim e ela, mais aliviada, entendeu, ele confessou ter confundido as coisas. Carol lhe disse que achava sinceramente que ele tinha transferido para ela todo o carinho que sempre guardara para uma filha que ele nunca tivera, o que era um fato mais real nesta atual vida, porém Leonardo bem sabe que, assim como eu está vivo nesta atual existência, eles vivenciaram outra vida.
Leonardo gosta muito de Carol, como se fosse realmente sua filha, porque é assim que ele a vê, embora tenha consciência de que ela mereça ter um pai melhor do que a sua pessoa, só que vai ser difícil achar.
Leonardo sabe que ela deposita nele uma enorme consideração, assim como se fosse o pai que às vezes, lhe faz tanta falta, porque no fundo do seu coração, ela ainda tem um lugar para ele, haja vista que as pessoas nobres como Carol, sempre perdoam.
Os seus amigos da faculdade já lhe perguntaram que tipo de relação ou sentimento Leonardo tem por ela, e ele não sabia disso, porque Carol até com ele às vezes, é reservada. Porém, ela não lhe disse qual foi a sua resposta.
Se ela disse de pai para filha, creio que foi a resposta mais certa.
No dia em Leonardo lhe disse ter confundido a sua relação de amizade, ela lhe relatou que ela achava que ele transferira para ela, todo o carinho reservado para a filha que ele nunca tivera e ela via nele a figura de um pai que lhe fazia tanta falta.
A partir daí as coisas ficaram esclarecidas e eles passaram a ter um relacionamento de pai e filha.
Aproximavam-se as festas natalinas e ela queria muito ir à casa de sua mãe, queria afastar-se de Jefferson, pois haviam brigado mais uma vez e ela estava muito magoada.
Como sempre acontecia, ela se entendeu com ele e voltou, estava muito feliz, parecia que dessa vez seria diferente, pois ele havia confessado que sofrera durante o tempo em que estiveram separados.
Era quase um milagre ela ouvir dele coisas desse tipo, porque era muito orgulhoso para admitir que sofrera com a separação.
Ele pediu a ela que não o deixasse nunca mais, a essa altura ela ficara muito angustiada porque estava de passagem marcada para alguns dias depois.
Acontecia consigo um conflito muito estranho, ela viajava para casa, no entanto, seu desejo era permanecer aqui em Brasília, ao lado de Jefferson. Queria ficar com ele e não agüentaria passar uma semana sem vê-lo.
Quando ela chegou a sua casa, sentiu as mesmas emoções da primeira vez que voltou. Havia levado consigo Cassandra, claro! Também a acompanhava uma outra amiga.
Foram umas férias inesquecíveis. Muitas festas, suas amigas adoraram sua mãe, que as mimava de todas as maneiras e seus amigos também, quando a encontravam, sempre a parabenizavam por ela ter passado no vestibular de uma das mais difíceis faculdades do nosso país.
Estava muito feliz, reencontrou sua turma: Zizi estava a namorar um ótimo rapaz, muito divertido, sempre alegre, fazendo com que agora ela se preocupe em ficar mais bonita.
Nara, a sua irmã, estava muito apaixonada e vivia assim como ela uma história muito complicada. Continuava muito estranha, ou seja, às vezes parecia muito amiga e outra hora tinha atitudes muito estranhas para consigo, fato que as outras garotas também não aprovavam.
Roberta, que havia sido sua melhor amiga, agora tinha uma linda filha e parecia menos indiferente consigo do que antes. Estava muito mudada e com toda razão não participava mais das farras de sua antiga turma.
Nanda continuava maluca e bagunceira, ainda namorava o Rubem o qual era um rapaz de sua idade que havia se mudado para o bairro há cerca de três meses atrás e Carol sempre saía com eles para se divertirem. Eles por precipitarem os acontecimentos viriam a se casar antes mesmo de Carol retornar a Brasília. Esse acontecimento causaria o maior rebu, mas no final tudo se ajeitou e o casamento foi feito às pressas. Carolinne depois do casamento ficou a se questionar se eles mudariam, assim como Roberta?
Cassandra e Sara as conheceram e adoraram, tornaram-se muito amigas e juntas aprontaram tudo o que tinham direito.
Sua mãe trabalhava muito e sentia-se orgulhosa com a filha universitária, mas como sempre se desentenderam e Carol se sentia culpada por não saber aproveitar da melhor forma possível aqueles preciosos momentos junto à sua mãe.
Chegou o dia de partir, deixando mãe e irmão muito tristes. Estava já com muita saudade de Jefferson e não via a hora de reencontrá-lo. Essa era uma das poucas coisas que a animava a voltar. Estava ansiosa para poder vê-lo, abraçá-lo e beijá-lo intensamente, não agüentava mais de saudades.
Ela chegou de viagem imaginando coisas maravilhosas na nova fase da vida com Jefferson, pensava já em aceitar suas investidas e iniciar uma vida a dois, porém nem podia imaginar que a pessoa que ela mais amava, adorava e considerava, não merecia décimo dos seus sentimentos.
Seu castelo de sonhos seria destruído, sem ao menos ter sido concluído. Foram muitas as decepções a respeito de Jefferson que soube logo na chegada, conseqüentemente, muito difícil, porque ela queria matar toda a saudade, mas não podia aceitar alguém que não merecia o seu amor.
Dentro de seu âmago sabia que seria muito difícil esquecê-lo de imediato. Raciocinando melhor, pensou que talvez agora fosse mais fácil, pois ele não representava mais aquela pessoa especial e ela não mais o admirava, pelo contrário, agora ela sabia que ele era exatamente como os outros.
Contudo, ela ainda o amava cada vez mais e seu coração se encontrava em uma verdadeira dicotomia entre o grande amor que sentia por Jefferson e o ódio crescente que agora nutria por ele. Mas depois daquele momento agora não acreditava na sinceridade entre duas pessoas, não queria nunca mais gostar de ninguém se isso voltasse a acontecer, não se entregaria da mesma forma e não confiaria mais em ninguém. Ficou imensamente feliz em não ter se entregado por completo, ainda era virgem, pelo menos da cintura para baixo. Era assim que ela respondia quando alguma colega de faculdade lhe questionava a esse respeito.
Decidiu não deixar tudo isso influenciar outros aspectos de sua vida, continuaria estudando, dessa vez com mais afinco, desejava agora enxergar outros lados belos da vida.
Reencontrou e aproximou-se mais de alguns amigos que ela havia se distanciado, apesar de tudo sentia-se feliz, pois sentia que muitas pessoas nutriam por ela grande carinho e amizade. Como sempre, já estava sentido saudades e falta de sua mãe, mas parece que agora está mais perto de ficarem juntas novamente e, dessa vez, para sempre.
Carol disse a Leonardo que tentaria levar a vida de uma forma mais alegre, sempre atentando para o lado bom das coisas e continuaria sonhando que a história de sua vida teria um final feliz.
No que concerne a Leonardo, este fará tudo que estiver ao seu alcance para vê-la feliz, mas penso que a primeira forma dela se libertar desse amor que a faz sofrer, é deixar seu coração aberto a novas amizades e dentro delas surgirá alguém que, com certeza, a fará imensamente feliz.
Capítulo XL
FRAGMENTOS FINAIS
Leonardo resolveu escrever algo sobre Carolinne porque quando a viu pela primeira vez nesta existência, sentiu intuitivamente que tinha reencontrado uma pessoa que estava procurando há muito tempo e teve a sensação ao vê-la de imediato, que ela seria uma pessoa muito importante para ele em sua vida. E pensando bem , talvez ela fosse uma grande aniga de outras existências, não sabe se realmente existe outras vidas, porém tem o pressentimento que existe, embora saiba que ela absolutamente não crê nisso. Todavia, para Leonardo isso é um fato. É a partir de então não mais conseguiu esquecê-la.
Sentia que existia dentro dele algo por demais forte, que a impulsionava para ela. Era como se fosse uma atração magnética, a qual não tinha forças suficientes para poder resistir.
À medida que a conhecia e se aproximava dela essa atração ia se tornando irresistível, já não tinha mais controle sobre suas ações. Todavia, por ela ser muito jovem e estar completamente apaixonada, amava real e fortemente pela primeira vez quando a conheceu, sofria por causa desse amor, isso o fazia sofrer também e estava ele quase entrado em crise existencial por que se achava já um quarentão para conquistá-la e, ao mesmo tempo, sua mente agia como se fosse jovem e via no preconceito da idade que ele mesmo alimentava, como a maior barreira, aliado ao fato de ser casado. Então, a única maneira que vislumbrou para estar sempre com ela em sua mente, foi escrever sobre coisas do dia-a-dia deles.
Então, à medida que foi descrevendo no papel fatos de suas vidas diárias, começaram a fluir continuadamente lembranças do seu passado distante de outra vida, segundo a sua forma de crer.
As pessoas que foram personagens importantes em suas vidas, em outras épocas, emergiram e deram um colorido a mais nesta história que agora vocês todos já conhecem e sabem como os fatos se desenrolaram totalmente, com certeza saberão um dia o desfecho dela.
À proporção que eles renasciam, Leonardo ficava feliz em descrever suas ações ao longo da história de suas vidas.
Bem sabe que neste outono de sua vida, Carolinne representa muito para ele.
Talvez seja uma pura fixação de sua parte, mas em sua mente, toda a vez que a vê, é como se visse aquela majestosa mulher que outrora comandava suas ações, porque tudo que ele fazia era em intenção de fazê-la feliz e por ela.
Entretanto, o que mais o aproximou e o aproxima de Carol é a paz que dela sempre irradia para ele, e isto ele sente toda vez que está ao seu lado, obviamente isso lhe dá uma imensa satisfação.
Lutou muito para tirá-la de sua mente, contudo teve que se render às evidências, ele a queria por demais e sofria ao vê-la sofrer, fato esse que ela nunca soube ou percebeu. Por ser gemeniano típico e todo bom gemeniano consegue transformar qualquer situação desfavorável ao seu favor, era isso que ele sempre fazia nas horas difíceis.
Leonardo também sabe que ela não tem consciência de quanto representa para ele.
Ela o vê como um grande amigo, porém, na realidade, ela não percebe o carinho especial que ele tem por ela e também não aceita que ele a ame. Sendo uma pessoa por demais ortodoxa Carol é muito ligada as tradições religiosas e não vê com bons olhos o seu envolvimento com um homem que seja casado. Comprometido, ainda tela tolera, porém casado não.
Se para ele fosse possível voltar no tempo, com certeza a conquistaria e se casaria com Carol, porque não existiriam as barreiras que hoje há diante eles.
Nesta atual vida, não diria que este fato é impossível, porque tudo muda constantemente sobre a terra, os pensamentos e sentimentos das pessoas também são mutáveis e tudo pode acontecer. De modo que ele não pode perder a esperança.
Embora bem no fundo do seu coração torça para que ela encontre alguém jovem e que seja digno de seu amor, fazendo-a feliz completamente.
Atualmente, ela está descrente dos homens, porque foi muito magoada por alguém que a fez sofrer, mas quando ela esquecer e voltar a sorrir, verá que nem todos os homens são cafajestes. Ainda existem homens que são bons, honestos, carinhosos, gentis, amigos e, principalmente, gostam de fazer feliz a pessoa amada no dia-a-dia da vida, dando-lhe só amor, carinho e felicidade.
Leonardo bem sabe que ela será feliz, assim ele espera de todo coração.
Penso que é meio contraditória essa sua forma de pensar. Na realidade é uma verdadeira ambivalência filosófica a respeito da pessoa amada, achar uma solução para o seu dilema. Investir neste amor o qual está sublimado, explodindo de vez este sentimento, arriscando-se a perder a sua amizade, o que seria demais terrível para ele ou simplesmente tê-la como amiga e viver amargurado, sem alegria, tendo somente poucos momentos de satisfação com Carol e a todo instante ter que esconder, disfarçar dela e de todos o quanto a ama. Não sei se ele agüentará.
Penso que o melhor que ele poderia fazer era afastar-se dela, assim ele sofreria menos.
Enquanto o tempo passa, vai esperando os fatos acontecerem, deixando a vida decidir sabiamente a melhor solução para o caso.
Em comentários com amigos Leonardo fez determinado comentário sobre algumas observçãoes que Caroll havia feito a seu respeito de disse aos amigos “É um fato raro partindo de Carolinne.”Leonardo bem sabe que não poderia ter dito a frase: “É um fato raro, partindo de Carol”, e isso lhe causou um certo constrangimento dias depois ter que ouvir um “pito” de sua princesa, porque ela realmente não merecia a frase. Não poderia ter dito isso porque ela já tinha lhe dado provas de seu carinho e apreço pela sua pessoa. Mas, por que falou tal assertiva? A resposta é simples: foi porque ele estava muito aborrecido, deprimido e com muitas saudades dela, então a mistura desses três sentimentos resultou em estado momentaneamente de revolta de tudo e com todos, mas logo o castigo para a sua frase veio rápido demais.
Três dias depois ela lhe telefonaria, passaram vários minutos conversando, ela tratando-o carinhosamente e dando sinais de estar preocupada com ele, ao se despedir, ternamente enviou-lhe um beijo.
Carol estava curtindo as suas merecidas férias no seu querido Maranguape e deixou-o com uma imensa saudade, vazio de tudo, porque sem vê-la a vida tornara-se temporariamente opaca.
Dias depois, estava relendo umas páginas que escrevera sobre Carolinne a fim de detectar possíveis erros e para poder melhorar o diálogo que escrevera. Estava completamente absorto no que fazia, quando o telefone tocou. Havia dado ordens para não ser interrompido, só em casos especiais.
Seu auxiliar atendeu e perguntou-lhe: - Chefe, o senhor atende a uma amiga?
Aí, teve que atender, devido ao seu princípio: “Aos amigos tudo, aos inimigos, o rigor da Lei”.
Era ela que havia chegado a Brasília. Passaram alguns instantes conversando sobre suas férias, transparecia estar radiante de felicidade, embora sua voz, que ele já conhecia, não demonstrasse isso. Estava muito cansada da viagem, porém queria o vê-lo, sentia necessidade de conversar pessoalmente com ele. Marcaram para o dia 20 de janeiro de 1996 para irem fazer suas matrículas na UNB. Seria o início do semestre.
Leonardo ficou de pegá-la na rodoviária, às 18h30min, ela estava chegando pontualmente ao local previsto. Veio ao seu encontro. Eles se abraçaram pela primeira vez. Mais uma vez Carol o surpreendeu, porque ele sempre desejou abraçá-la, quando se viam após vários dias de ausência, porém sua timidez e o excessivo respeito que sempre tinha, e tem por ela, o impediam de fazer isso.
De modo que, quando se aproximaram, ele já ia lhe dar os tradicionais três beijos, ela colocou suas mãos sobre seu corpo puxando-o e abraçando-o, nesse momento ele retribuiu o abraço e pôde sentir, pela primeira vez nesta existência, o toque suave de seu corpo sobre o seu, o que o deixou muito feliz.
Deu-lhe os tradicionais três beijos na face e foram para a UnB, Carol estava radiante de alegria, ele não sabe se por vê-lo ou por outro fato estranho, não conseguiu descobrir.
Foram conversando sobre sua estada em Maranguape e quando chegaram à UnB, em vinte minutos, resolveram tudo com referência à matrícula. Reviram velhos companheiros de sua vida universitária, encontraram um velho amigo que há muito tempo não o viam, o Genésio, o qual tinha passado no último vestibular, como calouro, estava perdido no meio daquela imensidão que é a UnB.
Leonardo fez as apresentações, conversaram um pouco, deram-lhe as orientações que ele necessitava e depois ele se foi.
Então, ficaram sozinhos, nesse momento ela começou a mostrar-lhe todas as fotos da viagem que fizera à sua terra.
A grande maioria delas estavam excelentes, contudo, havia uma em que ela estava totalmente linda, foi a que estava deitada em sua cama, segurando um ursinho de pelúcia.
Na volta, perguntou-lhe se desejava ir para algum lugar específico. Foram para o Conjunto Nacional, porque desejava ver as modas. Durante o passeio, ela reencontrou sua velha amiga dos tempos de segundo grau, que há quase dois anos não via, de nome Tânia. Ficaram cerca de duas horas conversando e vendo as modas, relembrando os excelentes momentos vividos, e ela contando tudo sobre suas férias.
No final da noite, levou Tânia até sua casa e foi assistir ao programa Jô Soares Onze e meia, que nesse dia, por sinal, começou à meia-noite e dez.
Passar quase quatro horas ao lado de Carolinne, foi para Leonardo muito gratificante, porque quando está ao seu lado, esquece de tudo e sente-se completamente se jovem fosse. Parece que, momentaneamente, retorna no tempo, muito embora saiba que isso seja perfeitamente impossível, mas é como se assim fosse. Então se comporta da mesma maneira quando tinha os seus saudosos vinte anos.
Leonardo sentiu com absoluta certeza, que durante essas poucas horas que ficou ao lado de Carol, ela estava mais carinhosa com ele, mais meiga em relação a ele.
Pensa que talvez tenha sido devido à longa ausência, e com certeza ela teve saudades de sua pessoa ou, quem sabe, começou a perceber que ele é uma pessoa importante em sua vida, ou simplesmente pode ser mais uma ilusão de sua parte, o que realmente parece a mais certa, contudo, espero que isso não seja verdadeiro.
Ainda não sei qual das três opções é a real, entretanto, espero que não seja a terceira.
Muito tenho escrito sobre Carol e penso que se me dedicar a escrever tudo que acontece no seu dia-a-dia, daria um excelente livro, entretanto, vou começar a coordenar as idéias para que se ela vier a ler um dia, esses escritos, saberá que verdadeiramente, Leonardo sempre a amou, embora a tratasse como filha e ela, a ele como pai. Mas, do seu coração, só ela tem a chave que poderá abrir no dia que bem desejar, e se isso um dia acontecer, com certeza, será um homem completamente feliz pela primeira vez em sua vida.
Capítulo XLI
O DESENCANTO
Ao iniciar o semestre, tive a oportunidade de deglutir alguns chopes com Leonardo e conversa vai conversa vem, ele contou-me acerca de sua desilusão com Carol.
Após séculos de ilusões ele acordara daquele sonho louco.
Segundo ele o furacão passara da mesma forma que a tempestade amorosa chegara; ela se fora rapidamente .
As decepções e os desenganos já eram uma constante no dia-a-dia e aos poucos se tornaram robustos.
De repente ... Than, o seu computador voltou a funcionar e ele percebeu que ela era realmente um grande sonho, que o fizera sofrer muito.
Ela não o percebia ou fazia questão de deixar claro que ele não existia para ela no sentido de amar.
Foi no distanciamento que Leonardo conseguiu refletir e vencer finalmente o quebrante que ele achava que existia sobre si.
Ele fora passar o carnaval na cidade de Recife, uma das mais belas capitais do nosso país .
Numa bela manhã de sábado, quando ele foi à praia, sentiu o perfume suave da maresia chegar ao seu encontro e ao senti-lo, levou-o de volta a um passado distante, era como se estivesse nas belas praias de Madri.
O ulular das ondas recordava-lhe as tabernas, as quais freqüentara, bem como os pequenos bares situados na orla marítima.
Em sua miragem do passado, Leonardo via as belas ragaças cujos olhos refletiam a beleza da mulher madrilena.
As jovens passavam perto dele e ele em estado de êxtase, não sabia se estava em Recife ou em Madri.
Apesar disso Carolinne continuava a ser a dona de sua mente, ela o dominava por completo e Leonardo não conseguia tirá-la de sua mente, todavia, quando se sentiu totalmente sozinho foi que ele vislumbrou equacionar os seus pensamentos e deixar o seu pobre coração em paz. Mas como isso aconteceu?
O primeiro fator, foi, sem sombra de dúvidas, o nascimento das gêmeas Jaqueline e Keyla, com as quais, apertando-as contra o seu peito, formaram o quinteto final do casal Leonardo e Isabel .
Jaqueline nasceu gorduchinha com os seus três quilos e meio e Keyla com um pouquinho a menos, ambas se tornaram de imediato a alegria geral, não só do casal como de toda família e dos vizinhos.
Com isso houve o afastamento gradual da mente de Leonardo em relação a Carol e ele foi se libertando aos pouco de sua loucura amorosa .
O segundo fator preponderante foi a decepção que Carolinne tivera no início do ano, quando ela voltara de sua cidade natal.
Ela tornou-se mais e mais introvertida e esse fato fez com que ela se voltasse mais para a religiosidade .
Ao longo do ano não houve mais oportunidade para eles saírem a fim de ouvirem música ou simplesmente para uns chopps, porque Carol colocava a igreja sempre em primeiro plano ou faltava com a verdade, inventando uma desculpa qualquer e foi esse fator que fez distanciar Leonardo dela e fê-lo esquecer o seu amor outonal.
De vez em quando “flashes” de suas vidas na Espanha voltavam abruptamente e isso o balançava fazendo-o refletir o porquê do distanciamento na atual existência .
Por mais que pensasse não conseguia achar uma solução .
Entretanto, ele para poder voltar-se por completo para a sua vida familiar, ele trancou matrícula na Faculdade, mudou-se em seguida com toda a família para Santa Maria, RS e lá voltou aos bancos universitários.
Carolinne passou a ser para ele na atual existência apenas um belo sonho que, às vezes, refletia em seus sonhos.
Capítulo XLII
O CONFLITO DE CAROLINNE
Devido a sua jovialidade Carol vivia continuadamente em um verdadeiro dilema, ou seja, uma perfeita dicotomia existencial, porque ela gostava muito de um pagode, a música estava em seu sangue. Havia dia que ela tinha que se decidir se ia para a igreja ou participar de uma rodada de pagode que a deixava por demais excitada e feliz.
Quase sempre ela se decidia pela segunda hipótese. Então voltava pela madrugada com muito choppes na cabeça, tonta e muito cansada que não conseguia acordar para ir à missa matinal dos domingos e esse fato a deixava deprimida e aborrecida consigo mesma e para compensar, ela passava umas duas semanas assistindo a todas as atividades da igreja, chegava a ponto de faltar às aulas de Matemática para participar das reuniões do grupo jovem.
Todo esse esforço era para compensar a noitada do pagode anterior e essa rotina sempre se repetia ao longo dos meses.
Aos sábados, começava o seu conflito interior, se prevalecesse o sentimento religioso, aí era: missa, reunião com grupo jovem, palestra... Etc. Todavia, se sua jovialidade viesse à tona com certeza vinha à noite, o pagode, e nele as danças que faziam sucesso.
Enquanto isso, bem longe desse conflito, Leonardo achava-se em situação difícil porque gastara por demais na mudança de um bairro para outro, deixara o Exército e ainda não encontrara emprego a despeito de ter muitos predicados. Então, para melhorar vendeu o seu carro, pagou suas dívidas e ficou aguardando as oportunidades de trabalho aparecerem, que por sinal demoraram bastante.
Chegara o término do ano letivo e Carolinne sentia que lhe faltava algo, estava constantemente insatisfeita, porém não conseguia discernir o que a estava incomodando.
Seria por acaso a ausência de Leonardo que a estava deixando assim? Talvez, porque ele, às vezes, a deixava sufocada de tanta atenção que ele lhe dava, ela agora estava sentindo a ausência dessa atenção. Ela estava sentindo isso porque na Faculdade tinha poucos colegas e amigos ela tinha consciência que não havia.
Pouco a pouco Carol foi sentindo o desejo de ter Leonardo novamente perto de si, porém veio em sua mente se queria tê-lo perto de si, ou era somente o desejo intenso de ele ajudá-la a passar na terrível Matemática? Essa questão ela teria que resolver sozinha sem a ajuda de ninguém. Teria que se decidir rapidamente porque o ano já estava a terminar.
Achou que se fosse realmente a segunda hipótese, não seria justo.
Há muito tempo que ela desejava ter um (a) filho (a), porém ainda persistia o conflito religioso dentro de si e por ser ortodoxa por demais, os tabus da infância sempre a impediam de seguir em frente quando voltava da noitada de pagode com os amigos de sempre. Além de Cassandra...
Em uma sexta-feira que houve uma prova de Matemática e como ela não estava sabendo muita coisa, entregou a prova quase em branco, fazendo apenas uma questão das quatro existentes.
Ela já tinha se preparado para passar o fim de semana na Guariroba, então pegou sua famosa mochila, penteou os seus lindos cabelos e foi para o ponto de ônibus, que por sinal demorou bastante .
Carol chegou lá por volta das 22 h 30 min, cumprimentou a todos os presentes, depois fez uma leve ceia e ficou a comentar as notícias da semana com seus amigos do dia-a-dia na Guariroba.
Logo depois foi para o quarto com sua amiga predileta (Cassandra) e a mesma lhe informou que haveria uma noitada de pagode muito boa com o ” Papel Marche”, o qual estava sendo o grupo de pagode mais conceituado de Brasília naquele momento e que a rapaziada toda iria para a Fábrica onde seria o local da festa.
Ela estava espiritualmente preparada para um final de semana bem calmo, que seria igreja, missa, encontro jovem, palestra...etc.
Todavia, Carolinne ficou excitada por demais com a notícia e principalmente porque ela estava em “TPM”, tensão pré-menstrual, fato que sempre a deixava excitada e ansiosa a ponto de ter alguns orgasmos noturnos. O conflito permaneceu até a hora de sua amiga sair, nesse momento caiu por terra sua última resistência, venceu a jovialidade, o desejo por uma noitada de pagode falara mais forte dentro de si, talvez por causa de sua ansiedade.
Chegaram ao local por volta das 0 h 5 min (0:05) e lá já o pagode já estava fervendo.
Foram com elas: Rogério, que era o eterno paquerador de Carol; Jefferson; que era o seu grande amor; Cassandra, sua grande amiga, Mário; Helena e Cíntia.
Eles não perderam tempo e caíram logo na farra, a temperatura foi aumentando, não só no local bem como em cada um deles e principalmente em Carol e Cassandra.
Carolinne, de início só estava bebendo guaraná, porém com o passar do tempo ela bebeu um pouquinho do “drink” de um dos seus amigos aí sua temperatura foi a 100 e ela passou a dançar mais e mais ao ritmo das músicas “ na boquinha da garrafa, segura o tchan, dança da cordinha, dança da bundinha e outrras tantas de ritmo baiano que enlouquecia o local.
Depois de muito tempo que estavam no local a banda tocou uma música suave e Jefferson a levou para o salão, começaram a bailar. Ela então já estava mais de 1000 por hora de emoção e prazer porque há muito que não participava de uma noitada de pagode tão gratificante.
Quando ele a puxou apertando-a contra o seu corpo e lhe acariciou o seu pescoço aí ela o beijou ardentemente .
Ele então ousou convidá-la para saírem para um local mais tranqüilo, a noite era ainda uma criança quem sabe se naquela noite ele teria o sucesso que há tanto tempo tentava, não podia perde tempo. Deveria agir o mais rápido possível enquanto a lebre esta disposta e solícita as sua investidas.
Jefferson chamou Mário em particular e lhe deu as chaves do seu carro a fim de que pudesse levar o pessoal de volta para casa porque talvez ele voltasse direto para Santa Maria .
Após isso pegaram um táxi e eles rumaram para o Núcleo Bandeirante .
Carol pensava que eles iriam terminar a noite em uma boate do local, porém quando o táxi passava em frente ao Motel Oklahoma, ele mandou que o motorista entrasse, parou, pagou e ela assustou-se quando viu onde se encontrava. O seu pudor voltou instantaneamente como um raio e ela quis sair dali imediatamente, todavia, ela estava com desejo intenso e isso estava, apesar de tudo, fazendo-a balançar. Ele então com muita cautela começou a tranqüiliza-la e acariciando-a e falando mansamente deixou-a mais calma.
A primeira batalha já fora vencida só faltava agora a reta final da luta e nisso ele era um mestre, não havia mais possibilidades de sua presa fugir.
Entraram no quarto ele a beijou suavemente e depois com ardor.
Carol ainda não estava totalmente vencida e incerta se deveria seguir em frente, não se sentia totalmente segura de si, ainda havia alguns soldados a serem vecidos para a batalha final ser ganha que era uma leve resistência, o bloqueio causado pelo seu forte sentimento religioso. Estava usando uma calça jeans e uma blusa grená pequena, a qual fazia sua barriguinha aparecer. A blusa pelo fato de ter a manga um pouco cavada, isso fazia com que Carolinne ficasse levantando constantemente a alça, a fim de evitar que seu sutiã de cor lilás estivesse exposto ou o colo de seu seio ficasse exposto aparecendo parte de seus pequenos e lindos seios.
E foi por esse ponto que Jerfferson começou a atacar para cair por terra às últimas resistências de Carol.
Ele então começou acariciando o seu rosto, seu pescoço, mas quando tocou em seu seio, acariciando o seu pequeno botão de rosa, ela sentiu-se flutuar, ele foi paulatinamente beijando-lhe todo o seu corpo e quando ela deu por si, já estava completamente nua na cama e com Jefferson sobre ela.
Almejou ainda uma última resistência para não chegar às vias de fato, mas ele estava massageando o seu clitóris, ela então, esqueceu todos os seus tabus e entregou-se com todo o seu ímpeto jovial.
Amaram-se por todo o resto da noite e a cada orgasmo que ela vivenciava, sentia-se flutuar num devaneio total. Parecia que estava vivendo em um mundo irreal.
Acordou completamente nua, ao lado de Jefferson na mesma situação, aí a realidade se fez presente, agora era uma mulher de fato. Sua primeira noite de amor havia sido um sucesso total, sentia-se radiante de felicidade. A noite fora bem mais especial do que ela sempre sonhara. A bebida, o desejo ardente de amar, o balanço do pagode e os beijos quentes e ardentes de Jefferson tinham deixado-a louca.
Levantou-se, foi tomar uma gostosa ducha para ver se acordava totalmente e sentir se tudo aquilo era um sonho ou realidade.
Quando viu seu amor aproximar-se e entrar na banheira quase cheia, aí ele a agarrou e começou a beijá-la e que ela despertou por completo. Amaram-se mais uma vez e ela deu tudo de si, não queria fazer feio, embora fosse uma neófita nos jogos de amor. Entregou-se por completo deixando-o exaurido, ela sabia que ele havia tido e tinha muitos casos, porém tinha certeza que a partir daquela noite ele seria completamente dela, porque ela dera tudo de si, para ele sempre preferi-la a qualquer outra mulher, além do mais eles, segundo o seu pensamento, foram feitos um para o outro.
À noite fora realmente maravilhosa, dedicara-se ao jogo do amor com intensidade total e chegara ao orgasmo diversas vezes, gozara como nunca havia imaginado.
Após o banho, ambos estavam exauridos e eles mais uma vez dormiram. Carol tentou ainda ouvir música, todavia, logo adormeceu profundamente.
Já era lá pelas quatro da tarde, quando Mário ligou para a casa de Jefferson, atenderam e informaram-lhe que o mesmo ainda não havia chegado à casa, ele então ligou para Carol e ela também não estava.
Mário então vislumbrou dois pensamentos: primeiro - alguma coisa de anormal poderia ter acontecido ou a noite teria sido maravilhosa para ambos.
Quando teve esse pensamento, um pouco de ciúmes lhe veio à mente, porque há muito tempo que desejava conquistar Carolinne e levá-la para a cama, entretanto, jamais houvera qualquer oportunidade porque ela polidamente e politicamente sempre o afastava de suas tentativas e quando em uma noitada de pagode que ela ficara por demais quente ele a convidara para sair, fazendo menção clara ao seu desejo, Carol então lhe dizia que só iria às últimas conseqüências com quem ela amasse realmente de verdade.
Ir para a cama somente por ir, não era o seu feitio, poderia até ser considerada quadrada, porém estava preservando sua virgindade para um momento mais sublime, que ela não sabia quando poderia acontecer. A partir daí ele ficou na dele e não mais voltou a incomodá-la, intuitivamente sabia que a havia perdido.
Carol chegou a casa por volta das 18 h, Cassandra veio logo ansiosa ao seu encontro e lhe disse que os seus tios achara que ela havia dormido na Guariroba, caso eles perguntassem ela já saberia a resposta a ser dada.
Trancou-se no quarto com Cassandra e ela fez de tudo para arrancar de Carol os fatos ocorridos na noite anterior, porém ela não obteve êxito.
Carolinne de fato, não desejava revelar para os outros, fatos íntimos de sua vida, por mais que Cassandra fosse sua amiga, como o era de fato. Então, veio à boate no resto da noite, jardim zoológico pela manhã e trabalho da faculdade à tarde.
Por ela ninguém jamais saberia .
Só quando foi dormir é que vislumbrou que tudo que fizera poderia vir à tona no mês seguinte, porque o seu desejo de ter uma filha era por demais intenso. Tudo levava a crer que seu desejo finalmente havia ocorrido.
Passou um domingo maravilhoso, ligou para todos os amigos e estava por demais feliz. Questionando-se a si próprio, perguntava-se como pudera passar tanto tempo distante do seu amor? Tinha sido muito orgulhosa, pensou somente nela de como conseqüência deixara de ser feliz.
Todavia, agora seria diferente, a felicidade voltara para si como um raio e ela não perderia mais tempo.
Na segunda-feira, logo pela manhã, o telefone tocou: Era Jefferson a convidando para sair, ela logo aceitou.
À tarde-noite não foi tão emocionante como da primeira vez, porém ter Jefferson ao seu lado era o que importava.
Capítulo XLIII
NOVA DESILUSÃO
Na quinta-feira ela teve que vir à Faculdade, mas antes passou pelo Núcleo Bandeirantes porque seu tio ia passar primeiro em uma oficina a fim de colocar o motor de seu carro no ponto, já que o mesmo estava falhando no ponto morto.
Ela ficou aguardando o tio no ponto de ônibus que fica em frente ao Motel Fujiama e para sua surpresa viu seu grande amor sair de lá com uma sua conhecida, que por sinal ela detestava, porque a mesma já tivera um caso com Jefferson.
Seu mundo caiu por terra, um ódio súbito lhe veio a mente. Mais uma vez ela tinha sido traída, ele era realmente indigno de seu amor. Uma revolta bem forte tomou conta de si, todavia não era mulher de fazer escândalo, aguardaria o momento propício para jogar toda sua raiva contra Jefferson.
Neste dia não conseguiu se concentrar na prova e para piorar a situação, recebera a notícia que obtera somente 2,00 em Matemática, isso a deixou mais e mais nervosa e chateada.
Estava a ponto de explodir, porém tinha que ser gentil com as pessoas que não tinham nada a ver com os seus problemas.
Quando chegou a casa, por está muito nervosa, comeu muito e isso não a deixou dormir bem, tendo alguns pesadelos durante toda a jornada noturna.
Pela manhã logo que acordou, percebeu que tivera outra decepção. Recebera cartão vermelho durante a noite, não engravidara. Seu sonho maior ainda estava por acontecer.
Porém isso agora para ela era realmente uma bênção esse fato não ter acontecido. Jamais poderia ter um filho de um homem tão cafajeste.
Na sexta-feira foi para a Guariroba e quando Jefferson veio ao seu encontro, Carol pediu-lhe que jamais voltasse a olhar para ela novamente, porque ele era realmente um grande cafajeste, como todos os outros homens, então lhe narrou o porquê de sua atitude em relação a ele.
Ele quis ainda argumentar que fora a garota que o forçara, porém Carolinne não lhe deu ouvidos e voltou para Santa Maria a fim de curtir a sua fossa.
Na Faculdade o professor dispensara da terceira prova todos os alunos que obtiveram grau igual ou superior a sete na média das duas anteriores.
E os desesperados, como era o caso dela, iriam ter uma última oportunidade.
Ele daria uma prova e dois trabalhos envolvendo 20 questões de limites, 15 de derivadas e 20 de integrais, com mais 10 problemas envolvendo integrais. De linha e paramétricas.
A média dos dois testes somada com a prova e tirada novamente a média, seria a média final.
Era realmente uma oportunidade de ouro que ela não poderia perder, embora soubesse que mesmo assim, 80% dos alunos que estavam na situação dela seriam reprovados.
Quando o professor entregou os testes envolvendo as 65 questões, Carol gelou. Sentiu que estava reprovada pela segunda vez, porque sabia resolver pouquíssimas questões, era mais uma decepção em sua vida.
Na volta ela pegou uma carona até a rodoviária com o Edgar e lhe falou do seu desapontamento em relação aos testes, quando ela os mostrou, ele disse:- só conheço uma pessoa que é nosso amigo, o qual resolveria isso aí rapidamente, o Leonardo. Carol disse-lhe: - Faz uns seis meses que não o vejo, além disso ele está agora em Santa Maria - RS. Edgar falou: - Isso não é problema, ligue para ele, passe as questões pelo telefone, mas eu não tenho o n.º, Ah! Isso é problema seu.
Chegaram à rodoviária, ela agradeceu e pegou o seu ônibus.
No caminho foi pensando se era certo incomodar Leonardo que estava distante, além do mais nos últimos tempos eles estavam distanciados, porque seus colegas perguntavam sempre o que estava rolando entre os dois e isso a estava incomodando. De vez em quando alguém lhe dizia: - Leonardo é louco por você e os constantes pedidos dele para saírem a fim de beberem uns choppes, toda vez que isso ocorria era obrigada a inventar uma história qualquer. Ela tinha certeza de que, foi por causa de sua história inverossímeis que tinha havido o distanciamento. Positivamente ela nunca soubera dele próprio do seu louco amor que ele nutria por ela.
Porém, Carolinne achava isso era uma loucura! Não propriamente dita porque há muitos casais com diferenças bem acentuadas na idade e no caso específico era de trinta anos. Ela só o via como amigo, mas sentia que ele sempre a protegia e fazia qualquer pedido que ela lhe pedisse.
Ele a tratava com muito carinho. Baseada nesse carinho, ela sentiu o impulso de ligar para ele, mas quem sabia o n.º do seu telefone? Ligou para todos os amigos comuns e um deles lhe deu o telefone e o endereço.
Ligou à noite para Leonardo, explicou-lhe a situação e ele, como sempre, resolveu ajudá-la. Corolinne passou as questões por telefone e Leonardo ficou de enviar posteriormente as soluções a tempo.
No outro dia ele resolveu todas as questões, depois as colocou no computador, fez uma capa no programa Corel Draw e tirou duas cópias, encadernou e os enviou-as via sedex.
Era terça-feira à tarde quando o carteiro lhe entregou o sedex em suas mãos, rapidamente ela o abriu e ficou surpresa com a excelente capa do trabalho, bem como a apresentação do mesmo. Leu o bilhete que ele lhe mandara e ficou super feliz. Este sim era realmente seu amigo, estava excluído da relação dos canalhas, não por ter feito o trabalho, mas porque sempre se preocupava com o seu bem estar e com sua felicidade. Se ele fosse mais novo, com certeza não o perderia. Veio a prova e ela tirou 3,00 na mesma, fora uma prova de seis questões com 4h de duração.
3,00 na prova e 10,00 nos dois trabalhos perfazendo uma média de seis e meio. Estava aprovada. Ficou tão emocionada que foi comemorar com Cassandra. No dia seguinte viajou para sua terra a fim de curtir as praias e as merecidas férias.
Novamente as quatro mosqueteiras estavam juntas, porém superficialmente. Roberta tinha ganhado mais um filho, Nanda ficara grávida, Zizi agora vivia só para sua jovem família. Carolinne sentia agora que ela era um peixe fora d’água, as amigas tinham pouco tempo para ela, somente Carol não estava com alguém. Precisava mudar o seu conceito em relação aos homens ou estava destinada a ficar para titia, porque já estava com os seus 21 anos e o tempo passava depressa.
Entretanto, estava vivendo um excelente momento em suas férias e não queria ter qualquer preocupação. O único fato que a estava desagradando, era uma terrível dor de cabeça, que a estava incomodando muito, há três dias que sentia e isso a deixava um pouco chateada.
...Voltou das férias, fez matrícula, reviu alguns companheiros, voltou ao trabalho na empresa e a vida corria o seu curso normal, porém o único fator preocupante era o de não ter ligado para Leonardo. Estava desapontada consigo mesma, como poderia ter deixado de ligar para o Leonardo e lhe agradecer pelo que ele tinha feito por ela? Agora como faria isso?
À noite, na Faculdade ela obteve uma notícia por parte do Edgar que ele estaria em Brasília na próxima semana. Ele viria resolver uns problemas que estavam pendentes; isso a deixou alegre, teria a oportunidade de conversar pessoalmente com ele.
Na quarta-feira seguinte ele chegou à Brasília e pela noite foi visitar os seus ex-colegas de bancos escolares. Reencontrou quase todos, conversaram bastante colocando os assuntos em dia, e quando foi fazer um lanche se viu frente a frente com Carolinne, ela o abraçou fortemente e ele deu-lhe os tradicionais três beijos. Carol aproveitou para se desculpar e convidou-o para beber uns choppes fora do campus universitário e poderem conversar melhor.
Passaram cerca de duas horas ouvindo música e dialogando sobre tudo que lhe viesse à mente. Carol o convidou para ir sexta-feira à cachoeira do Itiquira com os seus amigos, ele aceitou e ficou certo dele pegá-la às 8 horas do dia combinado.
O simples fato dela tê-lo convidado para ir beber choppe e em seguida passear na cachoeira, significava que tinha havido uma mudança muito grande com Carol, porém Leonardo não quis pesquisar a causa.
Na sexta-feira ele estava às 7h30min à porta de sua casa, sua tia o mandou entrar e Cassandra verificou os últimos detalhes, Carol estava deitada num sofá, ainda com roupa de dormir. Usava somente uma roupa de baixo e uma camisola que deixava transparecer o seu corpo. Para que isso não acontecesse na frente dele, ela cobrira o corpo com um lençol.
- E você já bebeu café? Não foi a resposta. Então, Carol pediu a sua tia que fizesse um gostoso café para o visitante. Ela não sabia se iria ou não, porque estava com uma terrível dor de cabeça e com princípio de cólica que a deixava gemendo. Era quase certo que não iria. Porém um fato interessante aconteceu...
Enquanto sua tia fazia o café, Cassandra levava as mochilas para o carro de Mário, porque sabia que se Carol não fosse, Leonardo não iria com eles porque não havia intimidades entre Leonardo e os demais.
Ele sentou-se bem pertinho e segurou a mão de Carol, deu um beijo em seu rosto e começou a afagar os seus lindos cabelos, passando em seguida para seu pescoço.
Devido à cólica que estava sentindo, Carol gemeu um pouquinho. Embora estivesse com lençol por sobre o corpo, Leonardo podia sentir o corpo quente de Carol.
Ele então com a permissão dela afastou o lençol e começou a fazer massagem sobre sua barriga, deslizava sua mão num movimento harmônico de sobe e desce, num perfeito vaivém.
Todo esse movimento estava sendo feito por cima da camisola e ele percebendo que estava surtindo efeito, passou a massagear diretamente sobre o lindo corpo quente e quando sua mão deslizou nele e ao tocar levemente no seio dela, Carol estremeceu e sentiu que naquele momento toda a sua dor havia passado e também o seu cartão vermelho chegara naquele exato momento, sua sorte é que o estava esperando e precavida.
O café ficou pronto e Carol aproveitou o momento que Leonardo foi à mesa, aí ela foi ao banheiro, tomou um gostoso banho, refez sua higiene, preparou-se para a viagem, era uma outra mulher.
Leonardo era realmente uma pessoa que só lhe trazia benefícios, além do mais ela sabia que ele gostava dela, não a tinha esquecido ou teria?
Chegaram a Itiquira por volta das 10h30 min, lá alugaram dois chalés, deixaram suas coisas e foram para a cachoeira. Carol porém preferiu ficar só observando, não caindo na água.
Ela estava aturdida com tudo que acontecera pela manhã. Não sabia explicar o motivo que a tinha deixado Leonardo massagear seu corpo em plena casa de sua tia, ainda bem que ninguém havia visto.
À noite eles ficaram ao ar livre com as demais pessoas, a ouvir música e a conversar.
Na manhã seguinte foram para uma caminhada pela floresta existente. Leonardo sentiu que Mário queria estar sempre junto de Carol, ele arranjava sempre um jeito de ficar junto dela e sentia que praticamente não ficara um minuto sequer a sós com Carol.
A caminhada foi maravilhosa, eles tiraram muitas fotos e curtiram bastante o passeio. Na volta fizeram um churrasco regado a muita cerveja.
À tarde, novamente foram à cachoeira e em seguida retornaram.
Às 21h, Leonardo estava pegando o avião para Santa Maria, sua cabeça estava a mil, esses três dias que passara ao lado de Carol, haviam mexido muito com ele, voltou a balançar os seus sentimentos. Ficou a imaginar como seria o seu reencontro com Carol daqui a vinte dias. Ele deveria voltar para receber o dinheiro pela venda dos dois telefones...
Ao se aproximar à época prevista do possível reencontro, Carolinne começou a ficar ansiosa, porém não queria admitir que era por causa da espera de Leonardo.
- Senhoras e Senhores, apertem os cintos e coloquem o acento na posição vertical, a aeronave pousará em Brasília dentro de instantes. Pouco tempo depois o avião taxiou pelo aeroporto e finalmente parou no local previsto. Leonardo levantou-se imediatamente e dirigiu-se para à porta de saída. A temperatura do avião estava em torno dos 15º graus e Leonardo lembrou-se de que tinha deixado em Santa Maria por volta de 12º graus. A porta foi aberta e o povo foi descendo e quando chegou a vez de Leonardo, ele sentiu de imediato uma barrufada de ar quente invadindo suas narinas. Notou que Brasília estava como sempre: quente e com pouca umidade.
Não esperou por liberação, já que só trouxera uma valise de mão. Quando transpôs a porta viu que Carol o estava esperando, sorriu para ele, abraçaram-se e pegaram um táxi para o plano piloto.
Durante o curto trajeto vieram conversando sobre o escândalo da “venda dos títulos públicos CPI das precatórias” e coisas banais.
Foram para o Kubischek Plaza Hotel o qual tinha uma reserva para Leonardo. Já era noite alta e Carolinne tinha que voltar para casa, porque teria que se levantar bem cedo para o último dia útil da semana. Carol ficou de pegá-lo no início da noite do dia seguinte a fim de curtirem um pouco do calor reinante de Brasília.
No outro dia, lá pelas 19h ela chegou eles então pegaram um táxi e foram para a 207 Norte, local que havia música ao vivo e dancing. Por volta das 21h após terminar uma música de pagode, Carol disse que adoraria tomar um banho de piscina a fim de espantar o terrível calor que estava fazendo.
Havia no pedido um desejo, na realidade uma ambigüidade de sentido. Leonardo, então com muita cautela para não dar um tiro errado e estragar a noite disse: - Agora só há três locais que nós poderemos nos deliciar-mos na piscina, não sei se você está preparada.
A primeira é no clube, porém o mesmo está fechado agora. A segunda é são casas de nossos amigos, porém não conheço ninguém no momento que tenha piscina em casa e também não seria legal ir à casa de um amigo nesse horário afim de banhar-se em sua piscina. A terceira opção, é ir para uma das suítes de qualquer motel cinco estrelas.
Carol sorriu e disse: - Só me resta a terceira opção, você me levaria? Só se for agora, mas só para a piscina logicamente.
Pagou a conta e foram de táxi para a suíte do Motel Le Bristol. Lá chegando, Carol ficou indecisa, talvez os choppes tivessem feito ela ficar mais liberal, porém Leonardo deu-lhe um beijo terno e afagou seus cabelos, dizendo-lhe: - Nós viemos tomar banho de piscina e depois jantar, fique tranqüila, não te trouxe aqui para cama. Pegou-a pelo colo e a levou para suíte. Carol sorria como uma criança. No quarto, ele tirou sua roupa e ficou somente de sunga; aí surgiu um novo problema que Leonardo tinha que equacionar rapidamente. Carol tinha vindo com uma blusa amarela e sua calcinha era de cor lilás bem transparente, a mesma deixava exposta o seu monte de vennus. Leonardo pulou na piscina e disse: - Use a toalha maior, não aparecerá nada e não esquente porque não vou ficar olhando para o seu corpo.
Carol foi então, para o banheiro, tirou sua calça Lee, usou a toalha, porém ainda existiam os seus belos seios, que ela tentava de alguma maneira esconder. Ele então lhe disse: - Para que esconder de mim o que eu já vi várias vezes, quando você usava aquela blusinha sem sutiã, além do mais estamos sós nós dois aqui e ninguém saberá disso.
Carol então sorriu e entrou na água. Após vários mergulhos o óbvio aconteceu, a toalha caiu e todo o seu corpo ficou praticamente exposto.
Ela tentou pegar, mas antes que isso acontecesse, ele a pegou e ela veio mergulhando para ele, Leonardo então jogou a toalha para fora da piscina, segurou Carol, abraçou-a e beijou-a suavemente; ela então colocou suas mãos sobre o pescoço dele e o puxou para si, beijando-o. Ela não entendia o que estava se passando consigo mesma, estava ali, seminua com um homem que até pouco tempo não representava nada para ela.
Porém após cada carícia feita por Leonardo as suas objeções caiam por terra. Mesmo assim, ela ainda estava tímida. Ele então a pegou pelo colo, levou-a para cama, a enxugou com outra toalha e suavemente a foi excitando com beijos sobre o seu pescoço, beijos sobre seus lindos botões de rosa, ele ficou ali acariciando seu corpo e ela já estava quase em êxtase quando ele tirou sua calcinha, em seguida a colocou por cima dele. Ela então segurou o seu membro e suavemente ele deslizou para o seu jardim da felicidade Ela sentia ainda um pouco de desconforto porque era a terceira vez que amava e há muito tempo que não fazia sexo, porém dessa vez estava sendo diferente, ele fazia questão que ela participasse ativamente, a cada momento o seu prazer aumentava. Carol atingiu o seu primeiro orgasmo. Leonardo então, a colocou na posição de frango assado e mais uma vez ela delirou de tanto prazer.
Quando ele sentiu que Carol tinha chegado no ao segundo orgasmo, foi para a tradicional posição papai x mamãe e mais uma vez ele a deixou louca. Com ele a transa estava sendo completamente diferente, não era uma receptora passiva, ele a deixava explosiva de tanto desejo.
Leonardo quando sentiu que ela atingira mais um orgasmo, virou o seu corpo e começou a bombardear o seu jardim das emoções pelas costas, por ser magrinha, ele podia levantar as suas nádegas e atingir facilmente sua vagina. Após loucos movimentos, ele explodiu dentro dela, regando o seu jardim. Quando ela sentiu o líquido dos deuses dentro de si, ela não resistiu e começou a ter mais um orgasmo. Leonardo então virou seu rosto e a beijou profundamente. Em seguida, ficou sobre ela aguardando voltar à calma. Enquanto isso, Carol agradecia a Deus, por ter nascido mulher e ter sobre si aquele homem maravilhoso, não era um dos canalhas.
Ele ficou cerca de cinco minutos sobre ela, fazendo-lhe carinho e ao mesmo tempo voltando à calma. Em seguida foram para o chuveiro, lá mais uma vez ela teve seu jardim preenchido e molhado. Jantaram e dormiram, quando acordaram, mais uma vez ela o teve em seus braços. Carolinne não conseguia entender como Leonardo tinha tanto fogo, já que ela sempre pensara que ele não tinha condições de satisfazer uma mulher sexualmente e essa sua maneira de pensar sempre fora o principal obstáculo a se deixar conquistar por Leonardo, alem de sua tradicional ortodoxia. E agora aquele homem que jamais almejara estar com ele em uma cama a estava fazendo delirar de prazer, como o mundo nos proporcionava surpresas!
Fizeram o desjejum e saíram. Carol o levou até o aeroporto e ficou esperando que o avião levantasse vôo com destino a Santa Maria - RS. Quando o mesmo decolou, Carol extasiante de felicidade foi para a Faculdade fazer uma pesquisa sobre um trabalho de processo decisório. Cerca de que quase trinta dias haviam se passado desde aquela memorável noite, estava achando estranho porque suas dores de cabeça não a haviam perturbado, nem tampouco as suas cólicas, isso a deixou ansiosa e na expectativa. Após alguns dias ela fez exame e o mesmo dera positivo, estava grávida.
Leonardo era perfeito, uma noite só e ele não falhara, se antes era o desejo dele ser padrinho de um filho de Carol, agora era o verdadeiro pai. Estava radiante de felicidade, porém agora outra realidade se fazia presente. Não poderia esconder esse fato por muito tempo, nem de sua mãe, nem de seus tios, tão pouco do pai de seu filho.
Ela já se determinara a ter esse filho, portanto mesmo que seus entes queridos se opusessem, ela o teria. A primeira pessoa que ela comunicou foi para sua mãe, foi um diálogo de quase uma hora por telefone. Sua mãe ficou muito zangada, mas como sempre o sentimento de mãe prevaleceu e a realidade de receber brevemente um (a) neto (a) era para ela algo por demais gratificante, mesmo a contra gosto, ficou feliz e passou a torcer que tudo desse certo, para a sua filha querida.
Quando Carol comunicou a seus tios, o resultado foi ambíguo. Sua tia, por ser super religiosa, não aprovou o fato e deu-lhe um monte de sermões e disse que Carolinne a decepcionara, entretanto, o seu tio Jorge, um eterno gozador, foi mais ameno dizendo-lhe: - Você hem! Não tinha nem namorado, de repente pum! Não conseguiu segurar o tchan, eu bem que te avisava para arranjar um namorado, só assim você se acostumaria e seguraria o tchan!! Carol sorriu meio sem jeito e tentou levar o assunto para outro campo.
Duas semanas após todos na casa já estarem acostumados com a novidade Carolinne ligou para Leonardo informando-lhe que necessitava falar urgentemente com ele, porém não podia ser por telefone.
Na sexta-feira à tarde ele veio para Brasília e almejava voltar no mesmo dia à noite, porém não foi possível porque Carol assim que o viu foi logo dizendo: - Estou com uma saudade imensa daquele banho de piscina, que tal repetirmos a dose lá novamente?
Então, ele em vez de pegar um táxi para o hotel de trânsito, foi direto para o Le Bristol e lá se amaram profundamente. Carol mais uma vez intuitivamente agradeceu a Deus por ser mulher e ter aquele homem em seus braços, ele a enchia de amor.
Todavia, havia uma realidade presente, ela não o amava, apenas se sentia feliz ao lado dele, principalmente quando ele a deixava extasiada de prazer na cama. Era a segunda vez que eles se encontravam para se amarem e nessas duas vezes ela alcançara o sentido exato da felicidade sexual, era uma mulher completa. Após se amarem, começaram a conversar e Carol com muito trato levou o assunto para o seu campo de interesse.
- Então, o que você acha de ser pai de um filho meu? - Eu adoraria é claro; seria maravilhoso você me dar um filho, principalmente se fosse uma linda menina.
- Bem é só você escolher o nome, porque você vai ser papai, estou grávida!!! Ele a abraçou, beijou-a loucamente. Ficara por cerca de duas horas traçando planos de vida, porém em todos os seus projetos não haveria a vida a dois, porque ela não queria. Ela teria o filho e o criaria, porém sua casa estaria sempre aberta para recebê-lo, porque era o pai de seu futuro filho. Ela o levou de volta até o aeroporto e sentiu que ele estava enamorado de prazer.
Na volta para casa ela já tinha reformulado todos os seus planos. Alugaria uma casa, traria sua mãe para Brasília e quando precisasse do amor de Leonardo o traria a Brasília. Se ele não pudesse vir ela conheceria Santa Maria, porém não poderia privar-se daquele amor. E assim foi feito.
Mês a mês ele vinha e a levava para o pré-natal, no quinto mês quando Carol fez o famoso exame de ultra-sonografia teve uma grande surpresa ... teria gêmeos. Ficaram felizes e ela atônita porque sempre fora muito magrinha, será que teria forças suficiente para colocar os dois neste mundo ao nascerem?
Era um casal que eles logo escolheram os nomes: Rodrigo e Rachel, os quais mesmo antes de nascerem já estavam sendo conhecidos por casal erre ... erre ou casal R2.
Os quatros meses seguintes foram por demais difíceis para a nossa heroína. Deixou a empresa e ficou exclusivamente se dedicando à gravidez.
Quando chegou a hora, sua mãe a levou para o HRAN e lá ela viu chegar os dois pequetitos em parto normal.
Rodrigo estava com muita fome, que ao nascer, já foi logo segurando o braço da enfermeira e mamando no mesmo, aí foi uma risada geral dos médicos que assistiram o parto.
Quando lhe trouxeram os filhos para ela segurar, Carolinne chorou de alegria, esperava nove anos, desde que ficara mocinha, por aquele momento e o príncipe encantado que ela sonhara para ser pai de seu primeiro filho era completamente diferente, jamais imaginou, desde o dia que conheceu Leonardo que ele seria um dia o pai de seus filhos. Pensou que aquilo poderia ser um sonho, porém quando Rachel chorou, ela verificou a realidade.
Capítulo XLIV
OS ENCANTOS DE CAROL
A partir da chegada dos gêmeos à casa de Carolinne passou a ser visitada constantemente por diversas pessoas.
Rachel embora muito criança já demonstrava que iria ter os cabelos longos e cacheados, seus olhos esverdeados deixavam deslumbrados a todos que a seguravam, seu sorriso, como o da mãe era enigmático, o que era um charme a mais.
Carolinne sentia-se nas nuvens de tanta felicidade com os gêmeos que até se descuidou um pouco de seus estudos e quase ficou em repetência em duas disciplinas, a muito custo e esforço conseguiu passar.
Sua vida agora se resumia em trabalho, brincar com os gêmeos, faculdade e aos fins de semana ir à igreja.
Uma vez por semana ligava para Leonardo, para dizer como estavam as crianças, nesses momentos ela sentia imensa saudades de tê-lo em seus braços; era uma sensação que ela não compreendia por completo. Talvez uma perfeita ambigüidade.
Ter ciência que não sentia amor por aquele homem e ao mesmo tempo um desejo intenso de senti-lo em seus braços e entregar-se profundamente para ele, que a levava a loucura na cama.
Sua casa nos fins de semana ficava um verdadeiro entra e sai que às vezes, não tinha descanso.
... Entretanto a vida para Leonardo estava por demais difícil, sua mulher Isabel e os dois filhos não se adaptaram ao frio intenso da cidade e ficavam de vez em quando resfriados, pegando até bronquite alérgica. Outro fator que o estava deixando preocupado é que já se encontrava por cerca de quatro meses sem trabalho e não via perspectiva, ele estava resolvido voltar.
A situação já se tornara insuportável, quando um fato interessante modificou o seu destino para sempre.
Ele fora passar um fim de semana na cidade de Ijuí, a convite de amigos de tempos de caserna e em lá chegando, conheceu durante um dos inúmeros churrascos regado a vinho, um casal de espanhóis que propôs um trabalho para ele em Cadiz.
O casal era dono de uma pequena companhia de pesca e tinha alguns barcos. Eles estavam necessitando de alguém que conhecesse os aspectos administrativos e que tivesse uma liderança nata a fim de coordenar o comércio e venda dos diversos barcos pesqueiros.
Leonardo expôs a situação e entraram em acordo com referência às passagens.
... Partiram na outra semana com destino a Cadiz.
Quando lá chegou e após manter contato com o seu novo serviço, foi como se seu sangue espanhol é de outrora estivesse voltando abruptamente. Todo o seu conhecimento de armador que absorvera na Espanha de outrora e também lembranças soltas de Graciele e Mercedes, bem como da Carolinne atual.
A saudade de Carol e de seus filhos se fazia presente com grande intensidade, todavia, o momento atual era de intenso trabalho e adaptação à nova vida, não poderia desperdiçar uma chance de ouro.
Capítulo XLV
O ÚLTIMO ENCONTRO
Após quatro anos de vida em Espanha, ele resolveu dar um passeio em Brasília e rever seus lindos gêmeos Rachel e Rodrigo, os quais agora estavam para completar cinco anos. Eles continuavam a ser a alegria geral da família.
Carolinne estava concluindo sua pós-graduação naquele semestre e sua mente continuava a ser absorvida nos estudos e agora devido à formatura a absorção era fatal. Mas ao revê-lo seu coração bateu mais forte e seu sangue pulsou com mais ardor.
Foi uma semana de muitas emoções e alegrias. Carolinne voltou a amar como nunca; parecia que o mundo ia acabar para eles.
Em uma sexta-feira em que eles voltavam do aeroporto onde foram comprar a passagem de volta para Leonardo, eles resolveram passar tarde-noite no Le Bristol, era a despedida. Lá mais uma vez trocaram energia e ambos ficaram esfuziantes de prazer. Já era lá pelas 21 h, quando Carol sugeriu ir tomar um açaí na torre, local que é um dos pontos turístico de Brasília. Ficaram lá por cerca de 40 minutos. Ao saírem e ao se aproximarem do carro que ele tinha alugado, foram abordado por dois elementos que os assaltaram, um deles quis levar Carolinne, aí Leonardo reagiu e ao reagir, levou três tiros: no pescoço, peito e abdome.
Com os tiros dados, despertou o policiamento existente no local e os bandidos logo fugiram.
Leonardo jazia inerte, porém não morto. Foi levado às pressas para HRAN, porém não resistiu a operação. Era a terceira vez que ele a defendia em vida e pela terceira vez ele se sacrificava para dar-lhe a vida.
E agora..., como eles iam dar a notícia? E como resolver esse problema?
Carolinne pediu auxílio a um colega de ambos, o Gaúcho, e quando o mesmo ao examinar os documentos dele verificou uma identidade do Grande Oriente do Brasil, aí as coisas ficaram mais fáceis, porque os seus irmãos cuidaram de tudo a partir de ter o conhecimento do fato.
O corpo foi mandado para Espanha e ele havia deixado cinco apólices de seguros; três em nome de Izabel e dois para os filhos, porém na pasta de seus documentos secretos foram encontradas mais duas apólices de seguros num valor bem considerado R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais), as quais estavam no nome de Carolinne e de seus gêmeos Rodrigo e Rachel. Após receberem o capital referente aos seguros, suas vidas mudaram, tanto para quem estava na Espanha, quanto para as gêmeas no Brasil.
Porém isso é uma outra história que contarei em uma nova oportunidade, caso vocês tenham gostado dessa história de amor que atravessou séculos.
... Após este episódio a tristeza se fez presente em todos os seus amigos, então, resolvi voltar para o Rio de Janeiro com todo meu pessoal.
Era o momento de reflexão e com certeza Irinete tornou-se muito feliz, porque detestava Brasília.
E foi durante minhas férias iniciais que comecei a escrever o que vocês agora estão a ler, espero que tenham gostado.
FIM
Bibliografia
Fonte de consulta para o capítulo à Espanha de Outrora.
Coutinho, Amaiega Freitas e outros: Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa Educacional, 9ª Edição, Livraria Iracema Ltda, 1983 - São Paulo - pg. 1365-1366.
Amaral, Jesus S.F. e Outros. Enciclopédia Mirador Internacional, Vol. 8, São Paulo, 1982, pg. 4090-4092.
DADOS DO AUTOR
FRANCISCO EVANDRO DE OLIVEIRA, nascido em Fortaleza-CE, cedo veio para o Rio de Janeiro onde se radicou na Baixada Fluminense.
Terminou os seus primeiros estudos no Colégio Iguaçuano onde foi muito influenciado por seus amigos inseparáveis da época.
Cursou Matemática na FAHUPE e após o 3º ano a concluiu na Universidade do Granderio, em Caxias-RJ. Fez especialização na área de Planejamento Educacional e Medidas de Aceleração de Aprendizagem. Passou grande temporada no Nordeste Brasileiro, depois foi à Brasília, a qual conviveu por cerca de oito anos.
Foi lá que nasceu a sua vontade de escrever e ele iniciou os seus escritos poéticos e em seguida seus romances, os quais são fotografias de sua convivência com muito dos seus amigos.
Lecionou em alguns colégios e depois voltou ao Rio de Janeiro onde se encontra até o presente momento.
Considera-se sempre um professor e gosta de assim ser chamado.
Publicou três livros de poesias, que são respectivamente: Momentos Poéticos – Editora Luzes & Comunicações, Rio de Janeiro, Reflexões do Amanhã- ZMF Editora –Rio de Janeiro, A Voz do Coração –Scortecci Editora – São Paulo.
A despeito de já ter conquistado vários prêmios com suas poesias, inclusive a nível internacional, ele não se considera nem poeta nem escritor e sim um aprendiz nesses assuntos.
Neste livro ele relata as experiências por que passa a grande maioria dos nordestinos que se aventuram pelo Brasil afora e em particular a dos seus amigos Felipe e Leonardo.
terça-feira, 6 de março de 2007
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